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A Árvore da Discórdia

de Hafsteinn Gunnar Sigurðsson

muito bom

Uma quezília aparentemente banal entre vizinhos começa a ganhar proporções gradativamente inauditas e a transformar-se em algo violento, intenso e mortífero em “Undir trénu” (A Árvore da Discórdia), uma comédia negra com contornos de drama onde o melhor e o pior do ser humano surge ao de cima. Cada quintal aparece como uma espécie de trincheira, enquanto as palavras são utilizadas como pequenos golpes que antecedem os actos descomedidos. Um gato desaparece, um cão é embalsamado, os pneus de um carro são furados, uma motosserra é utilizada, câmaras de vigilância são instaladas e o nervosismo teima em não largar o quarteto que se envolve neste conflito. De um lado temos Baldvin (Sigurður Sigurjónsson) e Inga (Edda Björgvinsdóttir), um casal na casa dos seus sessenta anos, que perdeu recentemente o filho, fruto deste ter cometido suicídio, e viu Atli (Steinþór Hróar Steinþórsson), o outro rebento, regressar temporariamente a casa devido a estar numa fase complicada do seu matrimónio. Do outro espaço da barricada encontramos Konrad (Þorsteinn Bachmann) e Eybjorg (Selma Björnsdóttir), dois cônjuges que contam com uma relação marcada pela cordialidade e alguma frieza.

Uma parte considerável desta contenda tem a sua génese na enorme árvore situada no quintal de Baldvin e Inga. Esta tapa uma porção considerável do jardim do outro casal, que bem pede para que a árvore seja cortada. No entanto, a vizinha revela-se irredutível em relação a essa possibilidade. Edda Björgvinsdóttir imprime uma faceta simultaneamente perturbada, frágil e desagradável à sua Inga, uma mulher que tem no gato a sua melhor companhia e continua a acreditar que o filho não faleceu. Já Sigurður Sigurjónsson expõe a faceta sensata do seu Baldvin, seja junto do rebento ou da nora, ou a dialogar com os vizinhos. A espaços manifesta algum descontentamento do seu personagem em relação ao estado em que se encontra a esposa, para além de exibir com competência a vertente mais descontrolada do veterano a partir do momento em que a disputa adquire contornos mortíferos. Por sua vez, a Eybjorg de Selma Björnsdóttir conta com uma personalidade relativamente fria e controladora, tendo no seu cão uma companhia de relevo e no ciclismo um hobbie. A Þorsteinn Bachmann cabe dar vida a um elemento inicialmente ponderado, ainda que o realizador Hafsteinn Gunnar Sigurðsson consiga que quase todos os protagonistas fiquem à beira de um ataque de nervos.

Como já foi mencionado, tudo começa como se fosse um problema relativamente banal entre vizinhos. Hafsteinn Gunnar Sigurðsson tenta convencer-nos disso, ao mesmo tempo em que constrói habilmente os personagens e aumenta gradualmente a tensão. Ou são os episódios que se tornam mais escabrosos, ou é a banda sonora que dita uma inquietação em constante progressão, ou as palavras que se soltam e exibem um ódio crescente, com o argumento a balancear entre a seriedade e o humor negro. A acompanhar esta tempestade de proporções bíblicas encontramos a procura de Atli em reunir-se com Asa (Sigrídur Sigurpálsdóttir Scheving), a sua filha, após ter sido expulso de casa por Agnes (Lára Jóhanna Jónsdóttir), a sua mulher. No início do filme, observamos este indivíduo a ver um vídeo pornográfico. A esposa levanta-se, depara-se com a situação e percebe que os “actores” são o cônjuge e a ex-namorada deste, Rakel (Dóra Jóhannsdóttir), algo que desperta a sua fúria. Muda a fechadura, recusa falar com o esposo e protagoniza algumas discussões com o mesmo. Por sua vez, Atli acaba imensas vezes por percorrer uma via insensata ou por ceder ao desespero, tendo em vista a dialogar com as suas familiares, sendo visível que ama a filha e ainda sente algo pela esposa. Não é amor, mas sim um sentimento distinto que o liga à mãe do seu rebento, algo expresso de forma eficaz por Steinþór Hróar Steinþórsson.

O intérprete insere uma certa afabilidade ao seu personagem, um indivíduo com enorme apetência para se envolver em situações embaraçosas ou delicadas. Através de episódios que variam habilmente de tom, “Undir trénu” coloca-nos diante de temáticas relacionadas com um matrimónio a conhecer o seu ocaso, seja sobre o quanto as separações afectam os filhos e aqueles que rodeiam o casal em separação, ou os sentimentos díspares de cada um dos cônjuges. Diga-se que Atli também é envolvido no interior da disputa dos pais com os vizinhos, ainda que procure distanciar-se da mesma, com a trama e a subtrama a serem conjugadas com precisão em diversos pontos desta comédia negra. Muitas das vezes encaramos aquilo que desperta riso com pouca seriedade. É um erro ao qual é difícil de escapar, ainda que o humor seja uma ferramenta essencial para abordar assuntos de relevo. “Undir trénu” usa algumas das ferramentas do humor negro para efectuar comentários relacionados com a humanidade e a nossa conduta em sociedade, em particular, sobre as relações entre vizinhos e as dinâmicas familiares, sempre sem descurar um lado mais sério. Os ritmos do enredo são geridos com eficácia, enquanto somos embalados para uma contenda cujo desfecho tem tanto de violento como de mordaz e surpreendente, ou não estivéssemos perante uma obra que é capaz de provocar simultaneamente o riso nervoso e o choque.

Review overview

Summary

Os ritmos do enredo são geridos com eficácia, enquanto somos embalados para uma contenda cujo desfecho tem tanto de violento como de mordaz e surpreendente, ou não estivéssemos perante uma obra que é capaz de provocar simultaneamente o riso nervoso e o choque.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários

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