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Entrevista a Hafsteinn Gunnar Sigurðsson sobre A Árvore da Discórdia

Estreada na edição de 2017 do Festival de Veneza, a comédia negra “A Árvore da Discórdia” (“Undir trénu”) tem efectuado um percurso assinalável por diversos certames internacionais, tais como o Toronto International Film Festival, o Fantastic Fest, Göteborg Film Festival, entre muitos outros. Terceira incursão do realizador Hafsteinn Gunnar Sigurðsson pelas longas-metragens, esta obra de origem islandesa chega a Portugal com o selo Cinema Bold, tendo estreia marcada para o dia 3 de Janeiro. Na semana seguinte poderemos encontrar “A Árvore da Discórdia” disponível em DVD e VOD, como é apanágio deste membro irreverente da família Alambique Filmes, o mesmo que já nos trouxe títulos extremamente recomendáveis como “A Criada”, “Stop Making Sense”, “As Boas Maneiras”, “Thelma”, entre outros.

“A Árvore da Discórdia” coloca-nos perante uma quezília aparentemente banal entre vizinhos que começa gradativamente a ganhar proporções inauditas e a transformar-se em algo violento, intenso e mortífero. Cada quintal aparece como uma espécie de trincheira, enquanto as palavras são utilizadas como pequenos golpes que antecedem os actos descomedidos. Um gato desaparece, um cão é embalsamado, os pneus de um carro são furados, uma motosserra é utilizada, câmaras de vigilância são instaladas e o nervosismo teima em não largar o quarteto que se envolve neste conflito. O argumento não poupa nas situações delirantes e escabrosas, uma situação que levou a que questionássemos Hafsteinn Gunnar Sigurðsson sobre o que este e Huldar Breiðfjörð trouxeram para o interior do mesmo e as suas fontes de inspiração: “A ideia partiu originalmente do Huldar, que escreveu a primeira versão do argumento. Não estávamos de acordo no caminho a prosseguir, pelo que tomei conta do desenvolvimento do argumento e assumi a escrita das novas versões do mesmo. A inspiração original para o enredo partiu de histórias reais. Temos imensos casos famosos na Islândia de conflitos entre vizinhos que giram em redor de árvores. Estes conflitos podem ficar bastante feios, por vezes violentos, ainda que sejam absurdamente engraçados. Alguns episódios são inspirados nesses conflitos, embora a história seja obviamente ficcional“.

Ao longo do filme é possível encontrarmos alguns comentários sobre o nosso comportamento em sociedade, a relação entre vizinhos, o matrimónio e o modo como os filhos encaram o divórcio dos pais, muitas das vezes a partir de uma perspectiva onde humor negro e o drama encontram-se reunidos: “A comédia é definitivamente um excelente meio para falar sobre assuntos importantes e explorar os mesmos. Tenho uma tendência para observar e ver o lado cómico das coisas e acredito que reunir a comédia e o drama é uma mistura dinâmica. Estás sempre à procura de contrapontos na narrativa. Acredito que apreciamos mais os momentos tristes quanto também temos uma oportunidade de rir e vice-versa. Para o público, é algo que torna a jornada maior e a experiência mais significativa“. A contribuir para essa experiência encontra-se o trabalho meritório do elenco e as especificidades que os intérpretes incutem aos personagens: “Foram todos seleccionados após o argumento estar finalizado. Decidi bastante cedo que queria seleccionar intérpretes com fortes qualidades humorísticas. Por exemplo, o Steinþór é um comediante muito popular, sendo conhecido sobretudo pela participação em sketchs. Ele nunca tinha assumido um papel dramático. O mesmo se aplica para a Edda Björgvinsdóttir, que é uma comediante lendária na Islândia e nunca tinha feito algo semelhante na carreira. Decidi-me por esta abordagem na escolha do elenco devido a existir um humor subtil e subjacente no interior do argumento, que pretendia trazer ao de cima sem ter de forçar. Eu sabia que estes actores conseguiriam fazer isso de forma quase automática e eles fizeram um trabalho fantástico“.

Competente na escolha do elenco, Hafsteinn Gunnar Sigurðsson exibe-se ainda exímio a controlar os ritmos do enredo. Tudo começa como se fosse um problema relativamente banal entre vizinhos. No entanto, com o avançar do enredo assistimos ao aumento da tensão. Terá sido um desafio conseguir controlar os ritmos do enredo de forma a transmitir essa escalada de violência? Qual terá sido o trabalho que o realizador fez com a sua equipa para transmitir essa tensão crescente para o espectador? Foi exactamente a estas questões que o cineasta respondeu: “Sim, definitivamente foi um desafio. O filme começa de forma bastante inocente, mas termina num lugar bastante negro. Como realizador foi um desafio trazer o espectador para esse lugar sem que parecesse algo forçado. Em parte, isso veio naturalmente dos desempenhos dos actores, que fizeram um bom trabalho. Outros elementos importantes foram o uso da câmara e a música, com ambos a terem um papel de relevo. Sempre soube que pretendia abordar uma parte da história como um thriller, pelo que a música seria um elemento-chave para esse propósito. Falei com o compositor Daniel Bjarnason que a banda sonora deveria ter uma grande presença, quase uma voz própria. Então, a banda sonora tornou-se um ingrediente importante a ligar a história como um todo e a prenunciar as tensões que se seguiriam“.

Os ritmos do enredo são geridos com eficácia, enquanto somos embalados para uma contenda cujo desfecho tem tanto de violento como de mordaz e surpreendente, ou não estivéssemos perante uma obra que é capaz de provocar simultaneamente o riso nervoso e o choque. E é precisamente esta disputa que podem ver já a partir do dia 3 de Janeiro.

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