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[24º Caminhos do Cinema Português] Soldado Milhões

de Jorge Paixão da Costa e Gonçalo Galvão Teles

bom

A participação de Portugal na I Guerra Mundial esteve longe de ser bem-sucedida. Pouco preparado e sem grandes condições, o Corpo Expedicionário Português partiu para a Flandres com o objectivo de efectuar uma campanha digna. No entanto, o resultado final desse envolvimento confirmou e de que maneira a impreparação lusa e a virulência deste conflito. Como é mencionado na conclusão de “Soldado Milhões”, “entre o corpo expedicionário português houve 1341 mortos, 4626 feridos, 1932 desaparecidos e 7440 prisioneiros”. Com uma estrutura narrativa que ziguezagueia entre 1943 e 1913/1914, o filme realizado por Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa procura efectuar algo mais do que expor o conflito a partir da perspectiva de Aníbal Augusto Milhais, o militar do título. Os cineastas envolvem-se quer pela participação lusa na I Guerra Mundial, quer pela forma como o Soldado Milhões foi utilizado como um símbolo pelo Estado Novo. E estes são precisamente alguns dos elementos que mais elevam o filme, em particular, a sua capacidade de deambular pelo tempo e de abordar questões relacionadas com a formação dos mitos e lendas, enquanto assistimos a um desconstruir da figura do herói tendo em vista a deixar o lado humano sobressair.

O Aníbal Milhais que observamos em “Soldado Milhões” é um indivíduo simples, longe de ser um predestinado, que tem em João Arrais (passado) e Miguel Borges (presente) dois intérpretes à altura. Após um breve prólogo que nos coloca diante de uma situação intrincada nas trincheiras (um episódio ao qual regressamos mais tarde), somos deixados perante o protagonista em 1943. Prepara-se para ser homenageado em Murça, onde o Presidente da Câmara (Dinarte Branco) efectua uma cerimónia para alterar o nome da freguesia de Valongo para Valongo de Milhais, um acto populista que visa a criação de símbolos nacionais. A homenagem deixa-o desconfortável, tal como o uso das medalhas para aproveitamento político, algo que demonstra junto de Adelaide (Carminho Gomes), a sua filha. Miguel Borges consegue expressar essa simplicidade e humanidade do personagem, bem como a proximidade que este tem com a petiz e a importância que a religião tem na sua vida. Essa relevância da religião é visível quer nos trechos do presente, quer nos do passado. Note-se quando encontramos Aníbal Milhais e Adelaide a sussurrarem quando se encontram a dialogar junto à Nossa Senhora do Vale da Veiga, naquela que é uma subtil demonstração de respeito para com a mesma, ou as rezas que o primeiro efectua durante a I Guerra Mundial.

No presente, encontramos Milhões a procurar caçar um lobo enquanto conta com a filha como companhia. Essa caçada traz uma série de memórias da Primeira Guerra Mundial ao de cima, algo que conduz o passado a tomar por diversas vezes as rédeas da narrativa e da mente do protagonista. João Arrais não compõe o protagonista como um herói, mas sim como um soldado comum, bom companheiro e afável, que é capaz de cometer actos heróicos ou de improvável sucesso. Existe mérito do actor, bem como do argumento de Mário Botequilha e Jorge Paixão da Costa, com a dupla a raramente descurar a individualidade deste elemento no interior do conflito. Já a personalidade dos restantes militares pouco é explorada, algo que nem sempre permite que os membros do elenco secundário consigam sobressair. Entre estes destacam-se Raimundo Cosme como Malha Vacas, um soldado que lida muito mal com as agruras da guerra e apresenta enormes saudades de casa. Já o Sabugal de Isac Graça é o espirituoso de serviço, enquanto o Penacova de Tiago Teutónio Pereira é o mulherengo do grupo. Os dois actores não comprometem, embora não tenham material para comporem figuras dotadas de complexidade. Outro dos integrantes do elenco que sobressai é Ivo Canelas como o Capitão Ribeiro de Carvalho, com o actor a incutir um estilo duro e intenso ao seu personagem.

Se o elenco não compromete, o mesmo nem sempre pode ser dito em relação à capacidade de “Soldado Milhões” transmitir a violência e as dificuldades a que estes personagens estavam sujeitos. Ouvimos falar do cansaço inerente às particularidades do conflito e à falta de descanso e recursos, mas não sentimos essas condições. As explosões aparecem em número considerável, embora o poder destruidor das armas e da acção humana seja exposto de modo demasiado contido ou extremamente trivial para acreditarmos totalmente naquilo que está a ser exposto. Sabemos que do outro lado existe um forte contingente inimigo, ainda que a sua presença raramente consiga ser observável e sentida. E aqui o problema reside não só em alguma incapacidade dos envolvidos, mas também na notória falta de recursos. No entanto, importa salientar que alguns dos “truques” que são utilizados para escapar a alguns dos constrangimentos orçamentais e para expor as acções dos militares funcionam com uma certa eficácia. Note-se os planos mais fechados ou que evitam uma profundidade demasiado alargada (centram a atenção nos soldados e criam sensações que podem ir da proximidade com os personagens à claustrofobia pelas características espaciais inerentes às trincheiras), ou o fumo e a poeira que tapam uma parte do cenário (algo que incute alguma incerteza e ao mesmo tempo faz com que não seja preciso expor um campo de batalha mais alargado).

Em algumas situações essas limitações são ultrapassadas pelo empenho do elenco e pelo mencionado trabalho de fotografia, bem como por um guarda-roupa relativamente cuidado. Observe-se as fardas do Corpo Expedicionário Português, que remetem para o período e para a falta de condições destes elementos, ou as roupas de tonalidades castanhas de Milhais no presente, uma cor que sublinha o apego deste à terra, ao local onde habita. Diga-se que esta tonalidade também está muito presente no quarto desta figura, algo que reforça a sua ligação ao espaço em que vive. O passado e o presente deste personagem encontram-se regularmente em diálogo, com o trabalho de João Braz na montagem a incutir agilidade, dinamismo e pertinência a esta conversa. Note-se um momento do último terço em que presente, passado, sonho e realidade convivem. No episódio mencionado a banda sonora imprime todo um ambiente emotivo, algo recorrente ao longo do filme. Por vezes ajusta-se (como no caso referido), em outras assume alguma redundância (como no trecho em que encontramos um militar a participar no fuzilamento de um colega), mas nunca incomoda, bem pelo contrário. Diga-se que a espaços temos um ou outro momento em que ficamos com a sensação de que apenas estão ali para chamar à atenção ou para preencher algum lugar-comum do género.

Um desses momentos tem lugar quando encontramos Aníbal Milhais à chuva, a esconder-se do inimigo durante a noite. É um trecho relativamente curto, mas inserido de forma pouco homogénea no interior da narrativa (sobretudo quando na cena seguinte observamos o personagem a levantar-se com tudo seco ao seu redor). Percebemos a ideia de tentar reforçar os perigos e as adversidades que cercam o militar nas situações em que se encontra isolado, embora esta não seja explorada ou exposta na justa medida. O que também poderia e deveria ter sido mais desenvolvida é a relação do protagonista com Teresa (Lúcia Moniz), a sua esposa. Sabemos da importância do lenço que esta enviou, bem como o amor que o soldado do título sente pela mulher, embora falte capacidade para deixar o coração deste vínculo palpitar junto do espectador. Já a ligação do militar com a filha é exposta e desenvolvida com acerto, com a relação destes elementos a beneficiar e muito das dinâmicas convincentes entre Miguel Borges e Carminho Coelho. Inspirada na história do “único soldado raso condecorado com a Ordem de Torre e Espada”, “Soldado Milhões” é uma obra simultaneamente simples e ambiciosa, que não engana nos seus propósitos e rapidamente cria o desejo de a revisitarmos e de voltarmos a contactar com o seu protagonista.

Review overview

Summary

Inspirada na história do "único soldado raso condecorado com a Ordem de Torre e Espada", "Soldado Milhões" é uma obra simultaneamente simples e ambiciosa, que não engana nos seus propósitos e rapidamente cria o desejo de a revisitarmos e de voltarmos a contactar com o seu protagonista.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3 10 bom

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