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[24º Caminhos do Cinema Português] Sleepwalk

de Filipe Melo

muito bom

Dissociar os EUA e a tarte de maçã é uma tarefa praticamente impossível de concretizar. Não foi inventada por lá, embora seja um dos seus símbolos quer na gastronomia, quer na cultura popular. Em “Sleepwalk”, esta encontra-se no centro da jornada de Lloyd Jenkins (Greg Lucey). Com um chapéu à cowboy, roupas de tonalidades discretas (prontas a realçar esse traço da sua personalidade), um semblante que carrega uma certa sobriedade e mistério, o personagem eficazmente interpretado por Greg Lucey pretende uma tarde de maçã confeccionada por Dolores Barrett (Joy Greenno), uma cozinheira. A investigação leva esta espécie de Xerife do Velho Oeste a viajar desde o Texas até a um diner no Arizona, após ter passado a noite num motel e percorrido uma série de espaços que atribuem uma faceta de road movie a esta curta de Filipe Melo. No motel observa na televisão um discurso de Ronald Reagan que dialoga com uma célebre frase de campanha de Donald Trump, ao passo que no restaurante à beira da estrada depara-se com um índio misterioso e um dono que não esconde a estupefacção pela obstinação do protagonista.

Como já podem ter reparado não faltam símbolos ou elementos associados aos EUA e à sua cultura em “Sleepwalk”. Essa evocação das memórias deste país encontra-se presente nas particularidades dos personagens, nos cenários, no guarda-roupa e em vários elementos do enredo que revelam não só um cuidadoso design de produção, mas também um interesse pelos traços que marcam e marcaram esta nação. Note-se ainda a presença da música country a tocar na rádio do diner, ou um episódio em que a pena de morte não é esquecida, entre outros exemplos que podem ser encontrados ao longo desta curta que adapta ao cinema o conto de BD homónimo de Filipe Melo e Juan Cavia. Realizador e argumentista, Filipe Melo tem em “Sleepwalk” uma curta que nos transporta para o passado e o presente de um país, bem como para uma busca dotada de mistério. O cineasta joga inicialmente com as nossas dúvidas em relação aos objectivos de Lloyd, com a faceta discreta e lacónica desta figura a ajudar e muito a essa tarefa. Mais tarde percebemos que o gesto deste encerra uma enorme humanidade. Até lá desfrutamos desta viagem por uns EUA de ontem e hoje, representado com algumas marcas bem reconhecidas, sobretudo aquelas com quem já contactámos regularmente no cinema ou na literatura.

A fotografia de Federico Cantini realça algumas dessas características dos espaços onde se desenrola o enredo. Note-se o destaque atribuído aos tons esverdeados e acastanhados que rodeiam o território desértico de Buckshot, situado em Yuma Conty, no Arizona, algo que exacerba a aridez e o isolamento deste lugar, ou os planos que sublinham as características do estabelecimento de Mel (William Knight), um diner que conta com uma série de ingredientes associados a espaços do género. É neste restaurante que o protagonista aguarda pacientemente, muitas das vezes em silêncio, tendo em vista a falar com a cozinheira e conseguir uma tarte. Quando a luz vermelha bate na sua face, percebemos que algo de emotivo vem a caminho, com a tonalidade a reforçar essa situação. Não seria de bom tom revelar neste espaço o que acontece nesse episódio, nem contar se o protagonista consegue ou não uma tarte confeccionada por Dolores. O que podemos dizer é que a partir desta espécie de MacGuffin encontramos humanidade, o amor de uma mãe pelo seu filho, bem como um desejo que traz um breve e doce conforto a um amargo e cruel destino.

O título de “Sleepwalk” remete para a canção homónima de Santo & Johnny, uma música cujo ritmo adequa-se praticamente na perfeição ao ambiente melancólico e a espaços quase romântico que rodeia o enredo. Um romantismo desencantado e encantado que permeia esta representação dos EUA, uma melancolia que advém de uma busca que marca o enredo da curta e invade a mente do espectador. O nome de Filipe Melo encontra-se associado a uma série de obras de BD extremamente recomendáveis, a um podcast delirante e contagiante, a trabalhos no ramo da música e ao cinema. Em “Sleepwalk” não só assume com enorme competência a batuta de realizador como confirma que deveria e poderia apostar mais na realização cinematográfica.

Review overview

Summary

O nome de Filipe Melo encontra-se associado a uma série de obras de BD extremamente recomendáveis, a um podcast delirante e contagiante, a trabalhos no ramo da música e ao cinema. Em "Sleepwalk" não só assume com enorme competência a batuta de realizador como confirma que deveria e poderia apostar mais na realização cinematográfica.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

Comentários

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