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Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões

de Hirokazu Koreeda

perfeito

Em determinado ponto de “Manbiki kazoku” (em Portugal: “Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões”), encontramos Osamu Shibata (Lily Franky), Nobuyo (Sakura Andô), Hatsue (Kirin Kiki), Aki (Mayu Matsuoka), Shota (Jyo Kairi) e Yuri (Miyu Sasaki) a observarem o fogo de artifício a subir às alturas e a colorir o céu de novas tonalidades. Hirokazu Koreeda não exibe o fogo de artifício. Apenas escutamos o mesmo a rebentar em fora de campo. Nos planos, no campo, na mira do espectador, estão os membros desta família, expostos a partir das alturas, em plongées que assinalam a união deste grupo, naquele que é um breve momento que resume um pouco a essência de “Manbiki kazoku”: sensível, delicado, pronto a esconder algo e a fugir ao fogo de artifício enquanto abraça a subtileza. É filme onde uma fuga pode simbolizar uma vontade de contactar com o destino. É filme em que o conceito de família é problematizado, onde a crueza e a ternura caminham lado a lado, tal como a verdade e a mentira, a bondade e a maldade, a proximidade e a distância. É filme no qual os valores morais do espectador são colocados em conflito, um pouco à imagem do que acontece com alguns personagens. É filme que não julga os protagonistas e deixa-os explanarem toda a sua dimensão. É filme que mexe com o espectador, agarra a alma e apenas a larga quando a lágrima desliza vagarosamente pelo rosto e o soluço trava as palavras que pretendem verbalizar os sentimentos.

As relações familiares intrincadas e as ligações muito próprias dos membros de uma família encontram-se no cerne de diversas obras de Hirokazu Koreeda, sendo na maioria das vezes expostas com uma precisão, humanidade, subtileza e um estilo observacional que fazem com que facilmente associemos o seu toque pessoal ao de mestres como Yasujiro Ozu e Mikio Naruse. Os núcleos familiares depauperados, a falta de dinheiro de algumas figuras e a ligação das mesmas com o vil metal também estiveram no cerne de vários trabalhos do cineasta. Diga-se que o realizador também já nos tinha colocado perante protagonistas que se encontram numa zona cinzenta de difícil descrição, que não podem ser catalogados como bons ou maus, uma situação paradigmaticamente demonstrada a partir do personagem principal de “Umi yori mo mada fukaku”. Em “Manbiki kazoku”, Hirokazu Koreeda volta a alguns destes assuntos e estilo de personagens, ou seja, avança com aparente simplicidade por temas relacionados com a família, o crime, a velhice, a infância, a sexualidade, as dificuldades financeiras, a amizade e as injustiças sociais. Diga-se que a simplicidade é apenas aparente, algo que se torna evidente com o decorrer do enredo e a chegada a uma reviravolta que provoca impacto nos personagens e na audiência.

Um desses personagens complexos que pontuam o enredo é Osamu Shibata, que encontramos no início do filme a assaltar um pequeno supermercado ao lado de Shota, o seu filho, um petiz de sete ou oito anos de idade. Educado de forma a acreditar que apenas vai à escola quem não pode estudar em casa, o jovem desenvolveu uma habilidade notória para os furtos, tendo num ritual com os dedos um recurso para ultrapassar os receios e ganhar coragem. Numa noite fria, daquelas de enregelar por completo o corpo e provocar o anseio de regressar ao calor do lar, Shota e Osamu caminham pelas ruas e deparam-se com Yuri, uma rapariga que se encontra sozinha, algo que conduz o segundo a trazê-la para o seu espaço habitacional. Alguns membros da família exibem um certo receio em relação às possíveis consequências deste acto, mas a presença de feridas e cicatrizes no corpo da rapariga, bem como a fragilidade e candura transmitida por esta, conduzem a que seja rapidamente integrada na diminuta residência deste grupo disfuncional. Os diversos planos de conjunto ou filmados de forma a enquadrar os personagens como se as divisórias da habitação fossem molduras permitem realçar precisamente a dimensão diminuta da casa, bem como a estranha ligação e união que existe entre os seus habitantes (e a faceta observacional do realizador).

O trabalho de Ryûto Kondô na cinematografia realça estas características do lar, tal como o de Akiko Matsuba na decoração dos cenários e de Keiko Mitsumatsu no design de produção. Note-se a presença de um conjunto de objectos amontoados que sublinham a dificuldade em encontrar espaços para arrumar os bens, ou o “quarto” de Shota, uma pequena divisória onde este dorme e procura ter alguma intimidade. Nada de luxos, algo que remete para os parcos recursos financeiros destes personagens, embora exista algum calor humano. Osamu tem um trabalho esporádico na construção civil, enquanto Nobuyo a sua esposa, conta com um emprego instável onde recebe um salário bastante baixo. A reforma de Hatsue, a avó, a dona da casa, é uma das principais fontes de rendimento desta família. No entanto, é do crime que a maioria destes elementos vive, algo notório quando observamos Shota e Osamu a roubarem. Seria muito fácil para Hirokazu Koreeda representar estes personagens de forma unidimensional, ou usar a sua pobreza e actividade criminosa para julgá-los ou como únicos traços definidores de personalidade. Sorte a nossa, o realizador prefere seguir um caminho amplamente distinto, mais intrincado e humano. E não falta humanidade a estes personagens, ou seja, uma capacidade notória para cometerem os actos mais recomendáveis ou reprováveis, de apresentarem bondade e maldade.

Colaborador habitual de Hirokazu Koreeda, Lily Franky incute um estilo simultaneamente pragmático, emotivo e irresponsável ao seu personagem, um indivíduo que não gosta do seu emprego e tem na arte de roubar o seu principal ofício. A proximidade com a esposa é latente, ainda que vivam um período de aparente menor fulgor sexual e aquilo que os une seja mais complexo do que o amor. Diga-se que a ligação destes dois elementos beneficia das dinâmicas convincentes entre Lily Franky e Sakura Andô. Por vezes exibem uma certa frieza, a espaços deixam a brandura tomar conta dos actos dos seus personagens, enquanto explanam a zona cinzenta por onde a dupla circula. O acto de ficarem a tomar conta da jovem, sem procurarem avisar a família desta ou as autoridades, embora demonstrem uma afabilidade notória para com a mesma, é exemplo dessa linha ténue entre o bem e o mal que é percorrida por Osamu e Nobuyo, um pouco à imagem da forma como cuidam de Shota. Jyo Kairi imprime uma mescla de segurança e insegurança ao seu personagem, um petiz que deveria estar na escola a estudar e a brincar com rapazes da sua idade. Não são raras as vezes que o encontramos a roubar e a exibir um olhar muito próprio de quem já viveu mais experiências complicadas do que muitos adultos, embora conserve uma certa inocência juvenil. O actor consegue ainda explanar as dúvidas que assolam a mente de Shota, bem como a afeição que este começa a formar por Yuri, com ambos a comportarem-se praticamente como se fossem irmãos de sangue e a protagonizarem alguns episódios dignos de atenção.

Será que são mais fortes os laços de sangue ou aqueles que formamos ao longo da nossa vida? Ambos contam com a mesma força ou é a forma como nos relacionamos com aqueles que nos rodeiam, sejam familiares ou não, que permite o fortalecimento desses laços? O que faz uma casa tornar-se num lar? Estas perguntas são levantadas por “Manbiki kazoku” quer quando somos confrontados com a verdade sobre esta família, quer a partir do momento em que Yuri entra em cena. Capaz de expressar a inocência e candura da sua personagem, Miyu Sasaki é uma das várias integrantes do elenco que beneficiam da excelência do argumento e da notória capacidade de Hirokazu Koreeda para conduzir os intérpretes e aproveitar o talento de cada um na justa medida. Se a jovem actriz é uma agradável surpresa, já Kirin Kiki, uma colaboradora habitual do cineasta, demonstra mais uma vez todo o carisma e humanidade que é capaz de incutir às personagens a quem dá vida. Ao longo do filme encontramos a sua Hatsue a prestar homenagem ao falecido ex-marido, a sustentar a família e a exibir uma certa proximidade com os habitantes do espaço onde habita. Mais tarde descobrimos que nem tudo é como parece, que tem alguns segredos por revelar, um pouco à imagem de “Manbiki kazoku”.

Por vezes somos surpreendidos pela descoberta de alguns segredos sobre aqueles que nos rodeiam. Aos poucos começamos a ter a ideia de que conhecemos os personagens que pontuam o enredo, embora, como bons conhecidos, estes guardem no seu interior alguma informação capaz de surpreender. “Manbiki kazoku” aproveita essas revelações para adicionar mais camadas aos protagonistas e desferir alguns murros no estômago do espectador. Estamos perante um filme capaz de comover e arrasar, que foge à chamada “pornografia da pobreza” e problematiza o modo de vida dos seus personagens. Os seus actos não são condenados, nem desculpados. Acima de tudo somos compelidos a compreender o que leva algumas destas figuras a roubar e as suas necessidades. Nem todos os integrantes do grupo roubam. Note-se o caso de Aki, a irmã de Nobuyo, uma jovem mulher que trabalha a despir-se e a masturbar-se em frente aos clientes numa espécie de peep show. Mayu Matsuoka expõe de forma competente a solidão que assola a sua personagem e a necessidade que esta tem de dialogar, algo particularmente notório quando começa a falar de situações extremamente rotineiras com um cliente com quem forma proximidade. Diga-se que a união entre os diversos elementos que povoam a casa resulta precisamente da solitude que pontuou e pontua o quotidiano de cada um e das marcas do passado que carregam no seu âmago.

Essa solidão remete não só para o passado de cada personagem, mas também para a incapacidade da sociedade em albergá-los ou protegê-los. Note-se o caso dos dois jovens, sobretudo de Yuri. O contexto familiar da rapariga permite colocar em debate se em alguns casos os pais biológicos são as pessoas mais indicadas para cuidar dos filhos. Claro que pegar numa criança maltratada e trazê-la para casa também não é a solução, embora seja precisamente no meio dos disfuncionais Shibata que a petiz conhece os momentos de maior calor humano. Humanidade e calor humano é o que também não falta a “Manbiki kazoku”. É daquelas obras que não sai da mente, nem do coração com facilidade. Áspera quando tem que ser. Afectuosa quando menos esperamos. Sensível nos momentos certos. É um daqueles filmes que não se esquece, que arrasa, emociona, prende e exibe um realizador de eleição a fazer com excelência aquilo que de melhor faz. E que prazer é sair de uma sala de cinema com a sensação de que fomos simultaneamente encantados e arrasados por uma obra cinematográfica.

Review overview

Summary

Daqueles filmes que não se esquece, que arrasa, emociona, prende e exibe um realizador de eleição a fazer com excelência aquilo que de melhor faz.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
5 10 perfeito

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