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O Quadrado

Ruben Östlund

muito bom

Depois de nos surpreender com o excelente Força Maior (Turist, 2014), que para desagrado do realizador ficou de fora da corrida aos Oscars, o sueco Ruben Östlund arrecadou este ano a Palma de Ouro de Cannes com o seu mais recente filme O Quadrado (The Square, 2017).

 

Com um elenco que inclui as estrelas internacionais Elizabeth Moss e Dominic West (talvez desnecessariamente, e apenas para apelar ao mercado americano), O Quadrado fala-nos do mundo da arte contemporânea, visto pelos olhos do curador de um museu fictício de Estocolmo que, para cúmulo da improbabilidade, ocupa uma ala do Palácio Real. Ele é Christian (Claes Bang), um homem seguro de si, pai divorciado, playboy, à vontade no seu mundo, mas que após o episódio de um caricato roubo vai ver aos poucos o seu dia-a-dia descarrilar, numa sucessão de acontecimentos que roçam o surreal, e onde as suas escolhas e respostas não vão ser sempre as melhores.

Com uma linha narrativa que lembra, aqui e ali, a descida surreal do protagonista de Nova Iorque Fora de Horas (After Hours, 1985) de Martin Scorsese, O Quadrado não se limita em descrever-nos os ordálios de Christian, levando-nos em diversas viagens pelo mundo da arte, e da sociedade moderna, uso dos meios multimédia e as nossas relações com os valores humanos (ou falta deles). O resultado é um contínuo questionar sobre o quanto aceitamos por ser convencional, que escolhas fazemos ou evitamos em cada momento difícil, e qual o verdadeiro significado do que temos à nossa volta. Por outras palavras, o que é a arte? O que é a humanidade? Quem somos nós no momento da decisão? Isto chega-nos, por exemplo, numa instalação de montinhos de cascalho, numa exibição em que o suposto actor passa das marcas e chega à agressão física, num vídeo publicitário que envolve crianças a ser mortas, em busca do efeito viral nas redes sociais, ou no constante lembrar das diferenças sociais que criam gritantes desigualdades, por vezes por simples preconceitos raciais.

No meio disso tudo, ou em torno dele, está o nominal quadrado, definido como um espaço de paz e harmonia onde todos temos os mesmos direitos, numa sátira ao facto de já aceitarmos que seja necessário um espaço privilegiado para termos aquilo que deveria ser a norma. Esse é um dos muitos paradoxos (e serão precisos vários visionamentos para os encontrar a todos) com que O Quadrado nos tenta desarmar, num misto de situações directas e algum leve surrealismo, mas nem por isso menos provocante que o mais realista Força Maior, tal como ele, conseguindo provocar pela inépcia e incapacidade dos seus protagonistas, que afinal se limitam a mostrar quem somos nós.

De negativo fica algum exagero estilístico e um arrastar na parte final quando Östlund mostra não saber como terminar as várias pontas da sua meada. Talvez não devesse ter tentado, e a sua provocação teria sido ainda mais forte.

Review overview

Summary

À luz do anterior Força Maior, O Quadrado é um filme bem conseguido que nos provoca, desta vez numa história quase surreal que questiona as nossas escolhas, comportamentos, e conformismo perante convenções, sejam elas a arte contemporânea, as desigualdades sociais ou a loucura dos meios multimédia.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários