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Em Trânsito

de Christian Petzold

muito bom

Começar uma crítica a citar o priberam não é algo propriamente original, mas “Transit” (Em Trânsito) compele-nos a repetir esse acto e a descurar temporariamente a singularidade. Ao visitarmos este dicionário online, a palavra do título, traduzida para português, aparece com os seguintes significados: efeito de caminhar, marchar, passagem, movimento de veículos, morte ou passamento. Passagem é um termo que se aplica praticamente na perfeição ao momento em que se encontra a vida de diversos personagens desta longa-metragem. Estes encontram-se numa espécie de limbo, à espera de algo que não chega ou que está prestes a partir. A espaços também parecem aguardar pela morte ou pela notícia dela, com chegada da gadanha acutilante a fazer-se sentir em diversos trechos da fita. Em alguns casos, como o de Georg (Franz Rogowski), o protagonista, deixam-se levar pelo destino ou por um instinto de sobrevivência que se evidencia em situações intrincadas. O contexto assim o obriga, com boa parte do enredo a ter como pano de fundo a cidade de Marselha, após a ocupação da França pela Alemanha Nazi. Estamos em tempos onde o medo impera, naquele que é o terceiro capítulo da trilogia do “Amor em tempos de sistemas opressores” de Christian Petzold. Essa incerteza é notória desde os momentos iniciais do filme, quando encontramos Georg a ser incumbido de entregar duas cartas a Weidel, um escritor. Não consegue. Acaba a transportar Heinz, um amigo, em direcção a Marselha, ainda que este faleça a meio do percurso.

“Quer dizer, que apenas posso ficar se puder comprovar que não quero ficar?” pergunta Georg à dona do hotel onde fica temporariamente instalado, uma questão que sublinha de forma paradigmática o modo como Marselha é encarada pelos refugiados como uma cidade de passagem. Podem circular pelo local, mas apenas se não estiverem ali para criar raízes no território, uma situação que em certa medida quase traz ecos da intolerância de alguns sectores da sociedade contemporânea para com os migrantes. O contexto de “Transit” é outro, ainda que toque em elementos dos dias de hoje. É a França ocupada, uma nação em transe na qual a presença Nazi é sentida, seja através dos militares ou das notícias relacionadas com os campos de concentração. Uma transitoriedade que coloca o tempo num limbo onde diferentes tempos do passado e elementos do presente se reúnem. Os carros, o guarda-roupa e referências a obras como “Dawn of the Dead” incutem uma intemporalidade à narrativa desta longa-metragem, tal como os sentimentos e as emoções vividas pelos personagens. Amor, receio, medo, ressentimento, angústia, arrependimento, desilusão ou uma incapacidade para lidar com a realidade fazem parte do quotidiano dos diversos elementos que pontuam este drama, que o diga Georg, um indivíduo que procura sobreviver em Marselha, tendo consigo a documentação, as cartas e o rascunho da obra que Weidel estava a finalizar.

Involuntariamente, o protagonista acaba por assumir a identidade do escritor junto do Cônsul do México (Alex Brendemühl). Posteriormente, utiliza essa documentação quer para não ser detido pelas autoridades, quer para obter o visto para viajar em direcção ao México. No território, contacta com Driss (Lilien Batman) e Melissa (Maryam Zaree), o filho e a esposa de Heinz, com quem forma alguma proximidade, sobretudo com o primeiro, um petiz que padece de asma e gosta de jogar futebol. Da interacção com estes, descobrimos o lado mais afável, sensível e paternal do protagonista, bem como alguma informação sobre o seu passado e uma faceta pragmática. Também estes encontram-se neste lugar de passagem, ao passo que Marie (Paula Beer) tanto procura abandonar o local como parece presa ao mesmo e ao objectivo de reencontrar o esposo. Vive neste espaço solarengo na companhia de Richard (Godehard Giese), um médico que anseia sair dali para o México. Este ama a namorada, mas sabe que convive com uma sombra cerrada, demasiado forte para ser esquecida, em particular, do marido desta. Numa fase prematura do filme, encontramos Marie a dirigir-se a Georg. Toca-lhe no ombro. Ele vira-se. Ela olha o seu rosto. Nos olhos desta deparamo-nos com a desilusão própria de alguém que não reencontrou a pessoa amada. Alguém que não sai da memória. Paula Beer transmite essas tormentas da sua personagem, a crença desta de que vai reencontrar o marido e a sua sede por informações, bem como a estima que ela tem por Richard e a proximidade que forma com o protagonista.

Marie aparenta estar sempre atrasada, embora esteja maioritariamente a tempo, ainda que não o saiba. Em Marselha, recebe regularmente a notícia de que o esposo esteve no consulado. Por onde andará ele? Será que aquele que foi abandonado se esquecerá primeiro daquele que o abandonou? São perguntas que a personagem interpretada por Paula Beer faz a si própria. Nas proximidades encontra-se quase sempre Georg. O que ela não sabe, é que este assumiu a identidade do esposo. E o momento em que os dois começam a falar de forma mais amena indica que Christian Petzold vai entrar por caminhos mais ambíguos e complexos. Não revelamos tudo aqui. Nem os personagens sabem de tudo. Muitas das vezes nem sabem o que fazer. Franz Rogowski consegue explanar quer o lado mais frágil de Georg, quer a sua faceta mais oportunista ou pragmática. O actor insere densidade a este indivíduo, enquanto exprime com precisão o quão surpreendido este é pelo destino. A química entre Franz Rogowski e Paula Beer é latente, com os actores a exprimirem que em outro contexto poderia gerar-se algo ainda mais forte entre os seus personagens. A tonalidade vermelha da camisa que Marie utiliza sublinha precisamente a inquietação que permeia a mente e o espírito desta mulher, bem como a possibilidade do destino poder vir a demonstrar pouca simpatia para com ela. Do elenco não podemos ainda deixar de realçar a sobriedade que Godehard Giese insere a Richard, um indivíduo que ama a namorada, mas tarda em conseguir que esta partilhe consigo os mesmos objectivos para o futuro.

A permear diversos episódios do enredo encontra-se a narração de Matthias Brandt. Numa fase adiantada da narrativa descobrimos a sua identidade. Até lá, cabe ao narrador-testemunha expor diversa informação sobre o contexto, a maneira como alguns personagens viveram os acontecimentos do enredo e explanar por palavras alguns dos seus sentimentos, quase sempre num estilo bastante literário, praticamente saído de um livro de boa cepa. No entanto, a espaços a narração nem sempre funciona, sobretudo quando ansiamos por sentir e perceber os sentimentos das diversas figuras através dos seus gestos, olhares e palavras. Christian Petzold nem sempre assim o entende e em algumas situações faz com que a narração em off seja algo redundante. O que não falha é a exposição do sentimento de malaise que permeia este local onde o sol brilha mas os sentimentos se acinzentam. Observe-se as várias tentativas de fuga, ou o suicídio cometido por uma personagem, ou os raids policiais em busca de refugiados. O título do filme tanto remete para as expressões colocadas no início do texto como para os vistos de trânsito pelos quais diversos elementos anseiam. Tentam escapar a Marselha ou ao destino. Em algumas ocasiões querem mesmo fugir de si próprios, ou pura e simplesmente não conseguem abandonar o passado, enquanto cometem actos que tanto têm de pragmáticos como de insensatos.

Será possível escapar a este limbo? Christian Petzold prende-nos a estes personagens, às suas histórias, desejos, frustrações, enquanto nos transporta para um passado que muito tem do agora e de diversos tempos ao longo deste drama onde a melancolia, a tristeza e o amor estão presentes. São elementos difíceis de separar, que se encontram muito ligados e influenciam-se uns aos outros. Christian Petzold sabe disso e coloca-nos no interior de um espaço onde quase tudo parece destinado a ser transitório. Tudo menos as cicatrizes que ficam no coração, aquelas que se encontram abertas no interior das diversas figuras que povoam o enredo deste drama sublime.

Review overview

Summary

Christian Petzold prende-nos a estes personagens, às suas histórias, desejos, frustrações, enquanto nos transporta para um passado que muito tem do agora e de diversos tempos ao longo deste drama onde a melancolia, a tristeza e o amor estão presentes.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

Comentários

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