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[Cine Fiesta 2016] Palmeiras na Neve

bom

Olhar apaixonado e crítico para a colonização espanhola em África, Palmeiras na Neve (2015) é um épico narrado em dois tempos, numa super-produção com vocação para mini-série de televisiva.

 

Há desde logo algo que cativa na proposta Palmeiras na Neve, o novo filme do espanhol Fernando González Molina. E isso é um olhar neutro para a colonização espanhola da ilha de Fernando Pó (hoje Bioko), na costa da Guiné Equatorial. Sendo ainda hoje um assunto tabu em certas partes, é quase com satisfação (e porque não, inveja, já que em Portugal, com um passado tão rico a explorar e tantos fantasmas por exorcizar, ainda há um verdadeiro pânico de tocar no assunto) que vemos uma abordagem que é, em simultâneo, apaixonada e crítica de uma realidade que terminou há pouco mais de 50 anos.

Quando a Espanha foi forçada a deixar o agora território guineense, em 1963, muitas histórias ficaram por contar. E elas não são todas de beleza, nem todas inteiramente más. Sabendo isso, Molina, partindo de um romance de Luz Gabás, fala-nos de colonos das remotas montanhas da Catalunha, que trocam a neve ancestral pelo calor dos trópicos, onde trabalham, exploram, maltratam, sofrem, amam, esperam e desesperam por algo que nem sempre sabem o que será. Contado em dois tempos (presente contemporâneo, e passado colonial), Palmeiras na Neve mostra-se como um trabalho de reconstituição histórica de detalhe apurado, que é também uma análise sobre um tempo que hoje nos parece tão distante, mas que ajuda a explicar tanto sobre quem somos como povo (isto se nos permitirmos extrapolar para o nosso caso o exemplo espanhol).

É, aliás, dessa busca que parte a protagonista Clarence (Adriana Ugarte), que procura desvendar o passado do seu pai Jacobo (Alain Hernández) e tio Killian (Mario Casas), um já morto, o outro quase. É por ela que viajamos no tempo, para as plantações de cacau, e estilos de vida onde brancos e negros eram segregados, a promessa de uma vida ao sol que fazia esquecer as agruras da terra natal e onde o melhor e pior de cada um vinha ao de cima num mundo que para uns era de sonho e para outros de faz de conta. Nesse mundo desenvolve-se a história de amor de Killian e da nativa Bisila (Berta Vázquez), de envergonhar Romeu e Julieta, pelas peripécias e dificuldades.

Residem aí os problemas de Palmeiras na Neve. Ao querer trazer-nos uma história maior que a vida, Fernando González Molina exagera em tudo. Não deixa de haver uma dimensão telenovelesca em todos os acontecimentos, que traem a origem do realizador, e tornam a obra demasiado longa. A quantidade de coincidências que levam ao desenvolvimento do enredo passa muito além do aceitável em qualquer suspension of desbelief. E o lado mais caricatural de muitos dos personagens (praticamente todos os negros, e todos os brancos além de Killian, Bisila e Clarence), menorizam uma história que tinha tudo para ser exemplar.

Sobram algumas imagens da paisagem natural (numa opção fotográfica muito discutível onde o CGI nunca é disfarçado, e as cores por vezes lembram os postais descorados daquele tempo), o olhar incrível de Berta Vázquez e o retrato do dia-a-dia da ilha nos anos 60. Vale sobretudo a proposta de olharmos para quem somos, num passado que ainda se teme descobrir. Infelizmente, pela negativa ficam as soluções demasiado simples de um enredo de telenovela, que ao querer ser intrincado, acaba por ofuscar aquilo que devia ser simples, a história de um amor impossível, num tempo ainda hoje por entender.

Resumo da crítica

Summary

Com o mérito de olhar de frente para a nostalgia e erros da colonização espanhola em África, Palmeiras na Neve perde pela dimensão telenovelesca, que facilita enredo com clichés e ofusca a história central do amor impossível que lhe dá vida.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3 10 bom

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