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Zoe

de Drake Doremus

bom

Mito de Pigmalião em contexto de inteligência artificial, Zoe é mais uma prova de que Drake Doremus segue com obsessão pela análise da dificuldade do romance na sociedade pós-moderna.

 

Drake Doremus começa a definir um tipo de narrativas que parecem corresponder a uma preocupação pessoal. Veja-se os recentes Um Novo Fôlego (Breathe In, 2013) e Newness (2017), que lidam com a forma difícil de estabelecer relações amorosas perante as solicitações da sociedade pós-moderna. Indo mais longe, Doremus procura por vezes a metáfora no campo da distopia, como fez com Iguais (Equals, 2015) que lida com uma sociedade distópica que anulou quaisquer manifestações de sentimentos, convencendo todos os indivíduos que sentir algo que os afaste de um comportamento automatizado é sintoma de contágio por um vírus.

É essa matriz de ficção científica que leva a Zoe (2018), um filme escrito pelo próprio Doremus e por Richard Greenberg, contanto com produção de Ridley Scott, que nos mostra como uma companhia dirigida por Cole (Ewan McGregor) desenvolveu um tipo de humanos sintéticos, com um objectivo, trazer a possibilidade de companhia a todos os que se queixem de serem abandonados ou de estarem sós. A questão está na fronteira entre o que é sentimento genuíno e sentimento programado, pois se os sintéticos são capazes de amar genuinamente, o que os distingue afinal dos seres humanos convencionais? É esse o cerne da história, que atinge o próprio Cole, quando percebe que ama, e é amado, mas o preconceito de ter uma relação com um ser sintético é suficiente para lhe estragar a felicidade.

Com Léa Sydoux e Rashida Jones nos papéis das mulheres que serão os barómetros de Cole, e com Theo James, no sintético que funciona como consciência de espécie, a história de Doremus complica-se em possibilidades e metáforas, onde de repente os preconceitos poderiam ser os que quisermos, e a realidade de uma relação nos é despida ao ponto de percebermos que para se ser feliz também é necessário decidir-se sê-lo.

Lento, melancólico, contemplativo, Zoe destaca-se pela fuga de Doremus para o minimalismo (já o tinha feito em Iguais), quer de enredo, que é mantido no mínimo necessário, quer de cenografia, com luz, olhares, sons e silêncios a vestirem a tela, mais que adereços ou cenários complicados. O resultado é uma construção que respira e prende de modo quase hipnótico (dos movimentos de câmara às interpretações).

Decerto o ritmo lento irritará muita gente, e a linguagem visual de Drake Doremus poderá parecer repetitiva. Mas isso não parece incomodar o autor, que vai insistindo em histórias de emoções intensas, que façam pensar e sentir, sobretudo nas pequenas coisas e nas suas muitas entrelinhas. Sobra-lhe em exercício de estilo e ideias supérfluas (como o comprimido que simula a exaltação do enamoramento) o que lhe falta na capacidade de chegar tão longe como filmes como O Despertar da Mente (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, Michel Gondry, 2004) ou Uma História de Amor (Her, Spike Jonze, 2013). Perdendo essa concisão e alcance, Doremus deixa-nos com a ideia de estarmos apenas perante mais um episódio de Black Mirror.

Review overview

Summary

Metáfora sci-fi sobre a essência do amor e das relações, Zoe é uma história filmada com o jeito limpo e minimalista de Drake Doremus, que se perde um pouco em exercícios de estilo que não o deixam cumprir tudo aquilo que promete.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3 10 bom

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