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Twin Peaks

Uma retrospectiva em antecipação do regresso

Em 1990, David Lynch criou a série televisiva Twin Peaks em colaboração com Mark Frost. O sucesso à escala global não impediu o cancelamento prematuro ao fim de apenas duas temporadas, mas o panorama televisivo nunca mais foi o mesmo. Desafiando convenções, Twin Peaks pavimentou o caminho para a actual era de ouro da ficção norte-americana produzida para o pequeno ecrã e, surpreendentemente, está de volta vinte e cinco anos depois. O seu regresso pode ser acompanhado a partir do próximo dia 28 de Maio no canal TV Series.

No texto que se segue fala-se abertamente dos desenvolvimentos narrativos das duas temporadas da série televisiva Twin Peaks, bem como da longa-metragem Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer, por isso deve-se considerar que pode conter spoilers.

Em 1990, David Lynch contava já com O Homem Elefante (1980) e Veludo Azul (1986) no seu currículo, e viria a ganhar a Palma de Ouro no festival de Cannes em Maio desse ano com Coração Selvagem, um mês depois da estreia televisiva de Twin Peaks, um projecto em parceria com o veterano da escrita para televisão Mark Frost, argumentista de séries como A Balada de Hill Street entre 1982 e 1985. A peculiar visão do mundo de Lynch, onde a violência e o lado obscuro da experiência humana borbulham imediatamente por baixo do verniz de lugares aparentemente idílicos, deu-nos a conhecer uma localidade fictícia do noroeste americano que se vê a mãos com o assassinato de Laura Palmer, uma popular adolescente. Com a chegada do investigador do FBI, o agente especial Dale Cooper, o cenário bucólico de Twin Peaks revela personagens peculiares e um submundo de sexo e drogas envolvendo adolescentes que pode implicar a manifestação de forças sobrenaturais com propósitos misteriosos. Esta premissa encontra eco em Veludo Azul, amplificado pela presença de Kyle MacLachlan no papel do peculiar, mas fiável e prosaico Agente Cooper.

Curiosamente, o piloto foi produzido em parceria com a Warner Home Video, que assegurou os direitos para a distribuição do mesmo em mercados internacionais independentemente do sucesso da sua venda e do desenvolvimento da série. Para o efeito, filmaram-se cenas adicionais que fechavam a narrativa e que revelavam a identidade do assassino (algumas destas cenas foram mais tarde incorporadas nos episódios da série). Este «telefilme» foi lançado em VHS no mercado português — com um título que infelizmente me escapa e que não consigo encontrar em lado nenhum — antes de a série ter estreado por cá no principal canal nacional.

O ponto de partida de Twin Peaks foi determinante para o seu sucesso. O aparecimento imediato de uma vítima lançou o mistério sobre a identidade do seu assassino que alimentou o fenómeno, mitificando a figura de Laura Palmer, que nunca conhecemos a não ser através das recordações de terceiros e das suas reações à sua morte. Este fascínio de querer saber a verdade dos factos que levaram àquele trágico desfecho, próprio do true crime, aliado ao desejo indiscreto e novelesco de bisbilhotar a vida privada e ligeiramente enviesada dos habitantes de Twin Peaks, capturou a imaginação do público à escala global. Acontece que estes elementos constituíam apenas a superfície do que Lynch e Frost pretendiam explorar com a série. O mistério do assassinato de Laura Palmer era a porta de entrada para mais mistérios. Era o ponto de partida para uma exploração mística e sobrenatural da natureza humana, não a meta da história que estava a ser contada. E aqui começou o desligamento entre autores e público.

 

Temporada 1

Com uma primeira temporada de apenas oito episódios (incluindo o piloto) estava lançado o mote. Apesar dos seus elementos mais convencionais, Twin Peaks revela as suas inclinações surreais desde cedo. Seja através das visões da mãe de Laura, Sarah Palmer, dos sonhos do agente Cooper envolvendo uma estranha sala vermelha com um anão e com a própria Laura Palmer a revelar-lhe a identidade do assassino — para depois a esquecer ao acordar —, ou até mesmo de personagens como A Senhora do Tronco. Logo nos primeiros episódios realizados por Lynch e Frost está definido o tom que vai caracterizar o resto da série.

A música, da autoria de Angelo Badalamenti, foi um elemento fundamental para a relação do espectador com a série. O perene tema do genérico — dramático, emocional e generosamente usado durante os episódios — é iminentemente reconhecível, provocando ainda hoje uma reacção pavloviana a quem acompanhou o fenómeno televisivo originalmente. Badalamenti também compôs canções, com letras de David Lynch, para a etérea voz de Julee Cruise, a cantora que aparece ocasionalmente em palco na estalagem The Bang Bang Bar. Estas canções podem ser encontradas, juntamente com os instrumentais do habitual colaborador de Lynch, na onírica e ambiental banda sonora da série. Outro elemento decisivo no tom de Twin Peaks, e que normalmente é ignorado ou esquecido, é o sentido de humor que premeia a série transversalmente, por vezes de forma subtil, outras vezes de forma tão genérica que faz lembrar a comédia física dos mestres do cinema cómico mudo.

Com um episódio final a proporcionar um atentado à vida de Cooper, a primeira temporada termina num emocionante cliffhanger que aguça o apetite para o regresso a este universo. Esta expectativa foi então ampliada pela publicação do livro O Diário Secreto de Laura Palmer, escrito por Jennifer Lynch, filha do autor. Recriando o diário visto na série, é escrito na primeira pessoa e progride a partir de eventos típicos da adolescência para narrativas obscuras de experiências de abuso sexual, promiscuidade, dependência de cocaína e obsessão com a morte. A identidade do assassino é sugerida subtilmente, mas o mistério é deixado intacto para a segunda temporada através das inúmeras páginas «arrancadas» ao diário.

 

Temporada 2

A segunda temporada, com uns impressionantes vinte e dois episódios, não é uma desilusão em relação à primeira, contrariamente à opinião generalizada. É aqui que a série procura a sua identidade para além da premissa inicial. Aprofundando os elementos surreais, tipicamente «Lynchianos», incluindo visões de gigantes, sugestões de intervenção alienígena e cabanas misteriosas retiradas da mitologia indo-americana, Twin Peaks comete haraquíri ao episódio sete revelando a identidade do assassino de Laura Palmer. Este foi o momento onde a série fez questão de assumir definitivamente que não se limitava a ser um whodunnit. Foi também o ponto onde o público mainstream finalmente comportou-se da mesma forma que se comporta perante os filmes de David Lynch, ignorando-o.

Numa temporada tão extensa é inevitável haver elementos supérfluos, mas genericamente a direcção tomada depois deste episódio prometia intrigantes mistérios e desenvolvimentos ancorados na excelente caracterização de Cooper por MacLachlan, o elemento central do elenco que construiu uma personagem fascinante e rara, tanto no cinema como na televisão, enriquecida pelas suas idiossincrasias, convicções e comportamentos e que, em conjunto com o xerife Truman, representa a bússola moral dos habitantes de Twin Peaks. Em retrospectiva, é também possível encontrar em Twin Peaks sementes do que viria a ser o fenómeno Ficheiros Secretos, não só nas suas componentes sobrenaturais, e na possível ligação extraterrestre aos acontecimentos, como numa pouco lembrada participação de David Duchovny, o futuro agente do FBI Fox Mulder, no papel de um agente travesti da DEA.

O cancelamento de Twin Peaks em 1991, ao fim da segunda temporada, deixou a série sem conclusão, com mais perguntas do que respostas. O último episódio, realizado novamente por David Lynch, acabava mais uma vez num intrigante final em suspenso à espera de uma terceira temporada que nunca chegou a acontecer, deixando o destino de Dale Cooper num assustador e angustiante estado de hibernação. O autor, com nítida vontade de continuar a explorar este universo, voltaria a Twin Peaks no ano seguinte com a longa-metragem produzida para cinema Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer, mas, curiosamente, em vez de dar resolução ao seu próprio cliffhanger, resolveu voltar atrás e dar-nos a conhecer Laura Palmer em vida.

 

O filme

Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer, no original Twin Peaks: Fire Walk With Me, retrata acontecimentos anteriores ao início da série incluindo o assassinato de Teresa Banks e a última semana de vida de Laura Palmer, culminando no seu homicídio e ligando directamente a longa-metragem ao arranque do piloto. Ao optar por voltar atrás, David Lynch recentrou as atenções em Laura Palmer, interpretada por Sheryl Lee, roubando protagonismo a Dale Cooper, a pedra basilar do conjunto de personagens na série televisiva. Recuperando grande parte do elenco, e substituindo a indisponível Lara Flynn Boyle por Moira Kelly no papel de Donna, Lynch constrói aquilo que é na prática um filme de terror.

Liberto dos constrangimentos do formato televisivo, Lynch retrata os últimos dias de Laura Palmer como uma imparável e inevitável descida à loucura de uma adolescente assombrada pelos fantasmas do abuso sexual e da toxicodependência. Desta vez o público recusou o convite para voltar a Twin Peaks pois não se encontram aqui as personagens e situações mais leves e humorísticas da série. O filme é puro David Lynch, com momentos de surrealismo e um tom de persistente pesadelo acordado. Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer também não foi bem recebido pela crítica e continua, ainda hoje, a ser considerado um título menor na filmografia do realizador. Na minha opinião este é o seu filme mais subvalorizado e merece a pena ser redescoberto com (ou sem) o contexto da série que o sucede narrativamente.

 

O regresso

Quando David Lynch anunciou o regresso de Twin Peaks, a notícia foi recebida com alguma perplexidade. Esta é uma série de grande impacto cultural que teve a sua relevância na época em que foi exibida e parecia imune à actual febre saudosista e revisionista. Ao rever a série original, torna-se óbvio que a distância de vinte cinco anos entre o cancelamento e este regresso não é causal, e estava, de certa forma, imbuída no DNA da narrativa inicial. Além disso, as perguntas que ficaram por responder foram colocadas no sentido de dar continuação à história, não para a concluir numa nota misteriosa. O que aconteceu a Dale Cooper? E qual o destino de Bob? Afinal o que é a White Logde? E a Black Lodge?

O interesse, entretanto, foi crescendo à medida que as novidades foram sendo reveladas. Grande parte do elenco original está de volta, incluindo Kyle MacLachlan, ao qual se juntam nomes tão intrigantes como Monica Bellucci, Jeremy Davies, Trent Reznor, Laura Dern, Robert Forster, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, Ashley Judd, Tom Sizemore, Amanda Seyfried, Matthew Lillard, Sky Ferreira ou Naomi Watts. Lynch, que não realiza um filme desde 2006 (Inland Empire) explicou que este regresso deve ser encarado como um longo filme dividido em dezoito partes, ao invés de uma terceira temporada. Será escrito na integra pela dupla Mark Frost e David Lynch, e realizado exclusivamente por este. Para aguçar o apetite dos fãs mais exigentes, foi publicado em Outubro do ano passado o livro The Secret History of Twin Peaks, escrito por Frost, que enquadra os fenómenos ocorridos em Twin Peaks no âmbito de uma história mais ampla e complexa, com início nos diários de Lewis e Clark e terminando com os eventos chocantes do final da série.

É muito difícil prever o que o novo Twin Peaks nos reserva. Uma coisa é certa. Este é um evento a não perder, especialmente para quem acompanhou a série na sua exibição original. Produzido pelo canal norte-americano Showtime, este regresso vai ter um lançamento de quatro episódios à cabeça, para depois cada episódio ser exibido semanalmente. Aparentemente, em Portugal, vamos ter o formato tradicional de um episódio por semana. Dia 28, às dez da noite, lá estaremos colados ao TV Séries para descobrir e para nos deixarmos enredar mais uma vez pelos mistérios que borbulham mesmo por baixo da superfície da, aparentemente, idílica cidade de Twin Peaks.

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Written by António Araújo

António Araújo

Cinéfilo, mascara-se de escritor nas horas vagas, para se revelar em noites de lua cheia como apaixonado podcaster.

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