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Três Recordações da Minha Juventude

de Arnaud Desplechin

muito bom

Poderemos sobreviver à nossa juventude, reinventando-nos depois de ela nos ter consumido? Esta parece ser a pergunta a que Arnaud Desplechin procura responder no seu mais recente filme Três Recordações da Minha Juventude, vencedor do recente César para melhor realizador, prequela (e de certo modo também sequela) do seu segundo filme Comment je me suis disputé… (ma vie sexuelle), de 1996.

 

Habituado a questionar a psicologia das relações pessoais nos seus filmes, Desplechin conta-nos a história de Paul Dédalus (Quentin Dolmaire no papel de jovem; Mathieu Amalric no papel de adulto), sob a forma de longos flashbacks. O filme parte da frase, repetida como um mantra, «Je me souviens» (eu recordo-me), como se nos quisesse levar para o campo das lendas, por ser assim que tantas vezes recordamos o nosso passado, o que visualmente é sugerido com as várias sequências em que temos a abertura da imagem em íris, como numa velha história do cinema mudo.

A propósito de uma confusão de identidades, Paul Dédalus (cujo apelido remete para James Joyce, e é sinónimo de labirinto) vai ser interrogado sobre quem é (o verdadeiro, ou o duplo), levando-nos numa viagem ao seu passado. Esta mostra-nos vários momentos na vida do jovem Paul, dos conflitos familiares a uma atitude política que justifica a citada confusão de identidades. Mas das três recordações nomeadas, o filme centra-se na terceira, «Esther», o nome daquela (Lou Roy-Lecollinet) que vai, talvez, mudar para sempre a vida de Paul, numa relação amorosa complicada, como o são sempre as da juventude, e as escolhas, difíceis de fazer, vão deixar sempre uma parte de si para trás (ele ou o duplo?).

Escrito a meias com Julie Peyr, Três Recordações da Minha Juventude é um retrato de juventudes conturbadas (há algo propositadamente nervoso e inquieto em todo o filme) de um conjunto de jovens de Roubaix, na região Lille, que atravessa os anos 80, simplesmente sendo aquilo que a idade pede deles, mas já sob o espectro de uma mudança que sabem estar a chegar, tal como a que vêem na televisão, com a queda do muro de Berlim.

Com uma banda sonora discreta, e uma realização que destaca a energia e impulsividade da juventude, Três Recordações da Minha Juventude, seduz pelo mosaico de flashbacks de índole realista e crua (no início chegamos a lembrar Os 400 Golpes de Truffaut), pecando por alguma dispersão que lhe quebra ritmo. São sempre e apenas Paul e Esther que nos interessam, em interpretações interessantes de Quentin Dolmaire e Lou Roy-Lecollinet (imperfeitas em dois jovens estreantes, mas já com bastante carisma), ele eternamente em busca de algo que não tem, ela eternamente insegura daquilo que sempre julgou ter. É com eles, a natureza confessional e epistolar da sua relação, e uma certa tragédia anunciada de um amor destinado a falhar, que a câmara de Desplechin ganha vida, parecendo enamorar-se do rosto de Roy-Lecollinet, central e dominador em cada plano que integra até ao freeze final (de novo Os 400 Golpes).

Em duas horas de desencontros, escolhas e consequências, percebemos que uma juventude marca alguém para sempre. É essa uma conclusão inovadora? Longe disso. E de que modo se concretiza? Nesse aspecto o filme parece incompleto, pois não sabemos de que mal padece o adulto Paul. Isto se não tivermos visto o anterior Comment je me suis disputé… (ma vie sexuelle).

Review overview

Summary

Prequela de Comment je me suis disputé… (ma vie sexuelle), que ilustra de modo apaixonado e realista as paixões da juventude, com Quentin Dolmaire e Lou Roy-Lecollinet a surpreenderem, num filme bem construído, mas com pouco de inovador.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários

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