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[Segunda dose] A Cor do Dinheiro (1986)

de Martin Scorcese

E se certos filmes nunca tivessem continuação? Algumas sequelas enriquecem o original e transformam um filme isolado no primeiro capítulo de uma saga popular. Outros, não só matam qualquer hipótese de uma franchise de sucesso como, inclusivamente, diminuem os originais. Mas será que merecem a fama que ganham? Proponho a análise a alguns destes casos, desde A Mosca II, passando por O Exorcista II: O Herege, até Speed 2: Perigo a Bordo. Hoje, um filme pouco lembrado de Martin Scorcese que recupera a personagem de A Vida É Um Jogo, “Fast” Eddie Felson, interpretado por Paul Newman.

 

O original: A Vida é Um Jogo, realizado por Robert Rossen, onde Paul Newman interpreta um jogador de bilhar fura vidas com muito talento, mas com uma atitude autodestrutiva.

Quem voltou: Paul Newman.

O veredictoVinte e cinco anos depois de A Vida é Um Jogo Martin Scorcese recupera a personagem de Paul Newman “Fast” Eddie Felson para A Cor do Dinheiro em 1986. Mais que uma sequela tradicional onde se continua diretamente a narrativa anterior A Cor do Dinheiro é, como na tradição literária, uma nova história com a mesma personagem.  E na realidade esta é uma adaptação do livro de 1984 escrito por Walter Tevis, também o autor do livro que deu origem ao filme original.

Um envelhecido Eddie ganha a vida a vender bebidas alcoólicas quando tropeça no talento natural para o bilhar de Vincent, interpretado por um Tom Cruise a voar nas asas da popularidade de Top Gun – Ases Indomáveis, do mesmo ano. Acompanhado pela sua namorada ambiciosa Carmen, interpretado por Mary Elizabeth Mastrantonio Vincent faz despertar a chama pelo jogo a Eddie, que o convida para uma digressão em caminho a um campeonato em Atlantic City, passando por salões de bilhar no caminho de forma a ganharem dinheiro com apostas. Vincent, apesar do talento, precisa da orientação do experiente Eddie para rentabilizar a sua habilidade através de elaborados atos de vigarice. Entretanto Eddie pega novamente no taco e resolve voltar a jogar apenas para descobrir que a idade lhe roubou a perícia de antigamente. Quando Eddie é enganado num esquema semelhante aos que ensina a Vincent decide deixá-lo e resolve entrar ele próprio no campeonato.

Martin Scorcese é elétrico na encenação dos jogos. O dinamismo do seu estilo assenta que nem uma luva nas cenas à volta da mesa de bilhar, com a utilização de zooms, e panorâmicas rápidas, bem como em algumas montagens com cortes rápidos que ilustram a progressão da ação. Um ponto fraco a apontar é a música original composta por Robbie Robertson mas Scorcese poupa-nos misericordiosamente da mesma recheando a banda sonora com mais uma coleção de músicas que variam entre canções populares da década de oitenta e seleções de clássicos do blues. O argumento de Richard Price é conciso e objetivo oferecendo cenas de diálogos com muito sumo para o talento do elenco onde, além dos protagonistas principais, encontramos em pequenos papéis John Turturro, Forest Whitaker e, inexplicavelmente, Iggy Pop.

Tom Cruise é uma escolha inspirada para Eddie, um fala barato espalhafatoso mais interessado em jogar e sentir o prazer da vitória do que em saber trabalhar os outros jogadores pacientemente para obter resultados no longo prazo. Mary Elizabeth Mastrantonio, que depois deste filme e de O Abismo parecia encaminhada em direção do estrelato, é eficaz como a parceira de Vincent, em igual medida independente, motivada e inexperiente, claramente fora do seu elemento, mas com capacidade de aprender depressa. E Paul Newman é magnético no regresso de “Fast” Eddie. Com um charme tranquilo transborda sabedoria e experiência até ao ponto em que a sua própria natureza competitiva vem ao de cima. E quando o feitiço se vira contra o feiticeiro a sua frustração e inconformismo são palpáveis, bem como o aumento da sua motivação para se voltar a provar.

A Cor do Dinheiro é um tratado sobre a idade, confrontando a impetuosidade da juventude com a experiência e melancolia dos anos mais maduros. É também sobre competitividade e sobre o desejo de vencer e de procurar validação através do controlo total de um jogo onde, ainda assim, não se pode descontar totalmente o elemento da sorte no seu desfecho. Ou seja, correndo o risco de analisar demais, é como o jogo da vida. Por tudo isto é mais um filme fantástico de Martin Scorcese, independente do filme original, que enriquece a filmografia diversificada de um dos maiores realizadores americanos vivos.

 

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