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São Jorge

de Marco Martins

muito bom

Portugal, 2011. Jorge (Nuno Lopes) é um operário fabril que, como muitos outros portugueses, se encontra numa posição difícil: a fábrica onde trabalha está prestes a abrir falência, agravando uma condição financeira pessoal já de si complicada. Com um filho (David Semedo) para criar, Jorge faz de tudo para o manter, tentando convencer a mãe da criança (Mariana Nunes) a voltar para sua casa em vez de regressar ao Brasil. Para conseguir o dinheiro que escasseia e sair da degradada casa do seu problemático pai (José Raposo), Jorge participa igualmente em combates de boxe clandestino, até descobrir que alguém com o seu físico pode ganhar algum extra a trabalhar numa das muitas empresas de cobranças difíceis que apareceram acompanhadas da crise económica, intimidando indivíduos endividados e incapazes de fazer cumprir as suas obrigações.

Quem conhece a obra de Marco Martins saberá certamente duas coisas: que o realizador não irá virar as costas à realidade que nos apresenta, mesmo que isso possa ser desagradável para o espectador, e que o que realmente lhe interessa é seguir a luta interna do seu protagonista, mais do que se emaranhar numa narrativa complexa. Assim, somos convidados a seguir Jorge pelos recantos mais sombrios e degradados de uma Lisboa cinzenta, onde se sente a cada momento a sombra da crise, seja nos cenários pobres por onde passa, seja nos rostos dos actores, profissionais ou amadores, que carregam no olhar um desencanto que soará bastante familiar a qualquer português que não tenha vivido os últimos anos fechado num condomínio de luxo.

De certa forma, São Jorge recorda-nos muito Eu, Daniel Blake, o filme de Ken Loach que no ano passado passou pelas nossas salas e dava também conta de um trágico círculo vicioso do qual as personagens não conseguiam sair. Mas se esse filme era acima de tudo um grito de revolta, este é uma espécie de balão que se vai enchendo de desespero, que ficamos à espera de ver rebentar a qualquer momento. Marco Martins, no entanto, recusa entrar naquilo que poderíamos chamar de onda do ‘cinema-coitadinho’. As suas personagens podem ser vítimas de um sistema que os engole, mas também têm falhas e cometem erros. E mesmo centrando-se neste ambiente de pobreza não esquece, de forma mais ou menos subtil, que todos estamos no mesmo barco, e que qualquer um pode ser conduzido ao desespero. A sua câmara não julga nem é condescendente, e acompanha de perto os corpos dos actores, mas nunca esquece o espaço que os envolve, mergulhando-nos totalmente no seu mundo.

Se o filme se apoia essencialmente numa personagem, seria inevitável falar do actor que lhe dá corpo. Nuno Lopes, que se começou a destacar a sério no cinema em Alice, parece ser feito para o cinema de Martins. Apesar da visível dedicação física que ofereceu ao papel, Lopes não cai nunca em exageros ou em tiques vistosos para mostrar trabalho. A sua mera presença física é suficiente para percebermos que aquele homem carrega aos ombros o peso de uma situação que se tornou demasiado grande mesmo para alguém com a sua envergadura. Nos diálogos e nos silêncios, o actor vende-nos sem qualquer dificuldade a sua personagem. Outros, como José Raposo, Mariana Nunes ou Gonçalo Waddington deixam igualmente de lado qualquer sombra de vaidade e entregam-se totalmente, muitas vezes acompanhados por amadores que conferem um realismo cru a cada cena (o jovem David Semedo, por exemplo, é brutalmente comovente). Além de todas as suas qualidades cinematográficas, São Jorge é também mais um excelente argumento para aqueles que torcem o nariz sempre que alguém os tenta convencer de que as telenovelas são o retrato do mundo real. Porque para o ver, é necessário abrir os olhos e estar atento para que este não nos esmurre à primeira tentativa.

Resumo da crítica

Summary

Marco Martins regressa com o seu estilo seco, cruel e soberbo, São Jorge é um grande filme para estômagos fortes, sem qualquer intenção de acomodar o espectador com histórias de encantar.

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