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Rambo – A Última Batalha

de Adrian Grunberg

mau

Como controlar o riso? Este pode aparecer nas mais variadas situações, sejam estas de descontração ou opressão, de alegria ou tristeza. No caso de “Rambo: Last Blood” (Rambo – A Última Batalha) o riso pode surgir esporadicamente em ocasiões nas quais desfrutamos de mais informação do que os antagonistas, ou em episódios de alguma inquietação e nervosismo. O problema é que este também aparece devido a situações que resvalam para o exagero ao ponto de traírem a essência da saga e contribuírem para a fita cair no ridículo. A espaços parece que estamos diante das caricaturas de Rambo ao invés de ficarmos diante da complexidade desta personagem e daquilo que representa. Sim, continua atormentado pelo passado, em particular pela participação na Guerra do Vietname, é um representante das políticas governamentais que o criaram e abandonaram, permanece relativamente solitário e introspectivo. No entanto, essa densidade é esvaziada no interior de um banal filme de vingança que perde o seu pouco fulgor com o avançar do relógio. Quase tudo é sofrível e demasiado literal, sobretudo a partir do desenvolvimento, quando o argumento revela de vez todas as suas fragilidades e o realizador Adrian Grunberg deixa clarividente que não tem a habilidade de fazer muito com pouco. Ou seja, fica quase tudo “nas mãos” de Sylvester Stallone e no seu carisma.

Stallone volta a demonstrar a sua capacidade para atribuir profundidade à mais banal das falas e de captar a nossa atenção. A sua persona confunde-se com Rambo e Rocky, as duas personagens mais marcantes da sua carreira. O actor sabe disso e tem procurado manter vivas duas franquias que permanecem com alguma chama. No caso de “Rambo: Last Blood” esse fogo é demasiado fátuo, com a alma do filme a desencontrar-se constantemente do corpo. Essa alma é visível nas palavras finais da personagem, bem como no início da fita, quando aparece como um “cowboy” solitário, à chuva, com uma capa a fazer recordar um poncho, a tentar salvar vidas. Esta procura de salvar vidas e adormecer os traumas são maioritariamente esquecidos a partir da ocasião em que uma vingança é colocada em prática e os ecos de “Taken” e dos filmes de cerco são sentidos. Como aparece esse desejo de vingança? Recuemos um pouco. Nos momentos iniciais da fita, encontramos John Rambo a viver no interior da propriedade da sua família, tendo a companhia de Maria (Adriana Barraza), a sua empregada e amiga, bem como de Gabrielle (Yvette Monreal), a neta desta última. Em defesa de algumas das parcas virtudes do filme, importa salientar que ligação forte entre estas três personagens é estabelecida com alguma eficácia e concisão, com o protagonista a surgir praticamente como uma figura paterna para Gabrielle.

Quando esta é raptada, em pleno México, Rambo decide partir em direcção a este país tendo em vista a salvar a jovem adulta, algo que o leva a embater de frente com um poderoso grupo criminoso ligado ao tráfico humano. Se o leitor está a pensar que quase todos os mexicanos que estão no território são representados como figuras desumanas, acabou de acertar. O que leva a não podermos fugir do elefante que vagueia pela sala, nomeadamente, as questões políticas. A saga “Rambo” sempre esteve associada a um contexto ou a um momento político da vida dos EUA e não só (os traumas provocados pela Guerra do Vietname, os soldados que ficaram presos neste território, a dedicatória aos Mujahideen na terceira fita). O quinto filme da franquia não é diferente, mesmo que os envolvidos queiram contorcer-se de toda a maneira e feitio. Note-se quando Rambo é obrigado a fazer justiça devido às autoridades dos EUA não se poderem envolver no México, ou a própria escolha do grupo de antagonistas, ou o modo como as autoridades mexicanas são representadas (surpresa das surpresas: como colaboradores do cartel).

Simpatizar com estes antagonistas é tarefa impossível (a não ser que os nossos valores morais estejam em baixa), tal como é complicado esquecer que Stallone escolheu como um dos principais alvos os “bad hombres” de Donald Trump e um dos temas da agenda do antigo apresentador de “The Apprentice”. Claro que os actos destes mexicanos fazem com que seja relativamente fácil que nos revoltemos com os vilões, em particular, os irmãos Martinez (Sergio Peris-Mencheta e Óscar Jaenada) e os seus homens. Não existe dimensão a rodear estes elementos, nem tal é preciso para que os desprezemos. Uma das poucas excepções no território mexicano é Carmen Delgado (Paz Vega), uma jornalista idealista que se cruza com o protagonista. A complexidade das figuras secundárias não é um dos fortes da película (muito menos a coerência no idioma falado pelas personagens). O que Adrian Grunberg não esquece é a acção. Temos alguns trechos que provocam impacto, com “Rambo: Last Blood” a brindar-nos com membros decepados, marteladas, tiros, esfaqueamentos, bem como um plano mirabolante onde a extravagância da violência chega a um cume deveras desagradável: o roçar o ridículo.

É impossível levar Rambo a sério quando este demonstra que não sabe o que é uma metáfora e encara tudo de modo literal, ou esquecer que Adrian Grunberg procura despertar no espectador um sentimento de prazer em relação à violência. Nada contra a violência num filme, mas, a partir de determinado momento de “Rambo: Last Blood” esta deixa de ser utilizada ao serviço do enredo e assume uma faceta de empecilho que retira peso ao sentimento de perda, revolta e solidão de John. Compreendemos as razões do veterano. No entanto, quando este passa a ser o caçador, parece que algo se perde. É o momento em que a aura distinta que o rodeava desaparece e entra em cena uma faceta semelhante a qualquer outra figura de filmes do género. A fita soa a despedida e apela à nostalgia. Em determinadas ocasiões consegue alcançar esse desiderato. Mas nenhum apelo sobrevive à sensação de desperdício. Essa sensação é sobretudo notória quando estamos perante um trecho no interior de um espaço fechado, subterrâneo, dotado de pouca luz, propício a algo sofisticado e a despertar a incerteza. Porém, a sensação de perigo e tensão é substituída pela tentativa de chocar. Stallone quase salva o filme ao atribuir todo o seu carisma a John Rambo, ainda que seja insuficiente para a icónica personagem ter uma obra à altura do legado que guardamos na nossa memória.

Review overview

Summary

Stallone quase salva o filme ao atribuir todo o seu carisma a John Rambo, ainda que seja insuficiente para a icónica personagem ter uma obra à altura do legado que guardamos na nossa memória.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
1.4 10 mau

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