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[Queer Lisboa 2018] Los Días Más Oscuros de Nosotras

de Astrid Rondero

mau

Os momentos iniciais de “Los Días Más Oscuros de Nosotras” são marcados pelo retorno de Ana (Sophie Alexander-Katz) a Tijuana, a cidade onde cresceu e viu a irmã morrer. A oportunidade de trabalho parece irrecusável, embora o destaque atribuído pela realizadora Astrid Rondero aos terrenos montanhosos e isolados, pontuados pelo calor, a presença do mar (que tanto remete para uma sensação de libertação como de clausura) e a ausência de figuras femininas permitam explanar desde uma fase prematura o ambiente algo hostil que a arquitecta encontra no regresso a casa. Note-se a violência que diversos trabalhadores cometem sobre um cão, ou a descoberta de um corpo no interior do cimento. É neste território que a protagonista tem de enfrentar as tormentas provocadas por um trauma do passado, enquanto procura lidar com o machismo e a desobediência de alguns trabalhadores da obra que está a liderar.

Um dos poucos elementos que parece ser menos hostil a Ana é Salvador (Adolfo Madera), com quem esta manteve um romance no passado. Ainda chegam a aproximar-se, mas a falta de química entre os intérpretes e o argumento pueril raramente contribuem para que sejamos compelidos a acreditar que existiu algo de verdadeiramente forte entre os dois. Diga-se que um dos pontos fracos do filme é precisamente o argumento, com este a ser muitas das vezes incapaz de incutir densidade psicológica à protagonista ou de abordar com a devida complexidade as tormentas que permeiam a mente desta mulher. É certo que Sophie Alexander-Katz não ajuda. Com uma gama de expressões tão limitada como o stock de um supermercado em dia de greve de camionistas e de repositores, a intérprete precisa regularmente de se expressar com recurso aos gestos e aos olhares, algo que não consegue. Na maior parte das vezes nem as palavras a ajudam, embora pontualmente exiba uma ténue competência, sobretudo a expressar a procura da sua Ana em impor-se junto dos homens. Observe-se quando procura que deixem a electricidade ligada durante a noite, embora logo a questionem e desobedeçam às suas ordens, com Astrid Rondero a aproveitar para abordar temáticas relacionadas com o machismo e a hostilidade de alguns homens em relação à presença das mulheres em certos lugares de poder.

Se Sophie Alexander-Katz ainda conta com alguns momentos de destaque, já Adolfo Madera pouco ou nada tem para trabalhar no seu Salvador. É um nome irónico se pensarmos que o argumento não concede salvação ao personagem, ou não estivéssemos perante uma figura que se limita a ser menos hostil a Ana e a demonstrar que continua a sentir algo forte por ela. Mas, o pior está mesmo reservado para Florencia Ríos. Esta interpreta Silvia, uma empregada de cozinha que trabalha à noite como stripper e é inquilina da protagonista. Silvia insiste em comprar a casa da arquitecta. Mais tarde descobrimos as razões para a insistência e somos surpreendidos com a gritante falta de desenvolvimento das subtramas relacionadas com esta mulher e as figuras que a rodeiam. Note-se o caso do esposo (Carl Dillard) desta, um indivíduo que se limita a surgir como alguém ameaçador, com a sua unidimensionalidade a não contribuir para atribuir densidade aos ingredientes que envolvem o divórcio da cozinheira. Aos poucos, esta forma uma relação de proximidade com Ana. Esta parece ver em Silvia algo da sua falecida irmã, com as duas a formarem laços que nem sempre são construídos e desenvolvidos na justa medida, embora seja possível acreditarmos nesta ligação.

O rumo do texto pode indicar que “Los Días Más Oscuros de Nosotras” é um filme medíocre. Por vezes anda lá perto, mas também possui uns quantos elementos relativamente acima da média. Veja-se o trecho em que um vidro é partido em pedaços, enquanto a protagonista observa atentamente e efectuamos um paralelo entre os cacos e o estado da sua alma, ou a precisão de Ximena Amann (directora de fotografia) a captar as características do território. Já a banda sonora de Lambert pauta-se pela repetição e pela intrusão, quase que a parecer estar constantemente mais preocupada consigo do que com as imagens que acompanha. Na sua estreia como realizadora de longas-metragens, Astrid Rondero deixa-nos perante uma obra algo irregular, por vezes demasiado insípida, embora com um ou outro momento acima da média que fazem com que “Los Días Más Oscuros de Nosotras” não seja totalmente descartável. Esperamos mais da sua segunda longa-metragem.

Review overview

Summary

Uma obra algo irregular, por vezes demasiado insípida, embora com um ou outro momento acima da média.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
2 10 mau

Comentários

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