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[Queer Lisboa 2018] Inferninho

de Pedro Diogenes e Guto Parente

muito bom

O bar que empresta o título a “Inferninho” é um espaço marcado por paredes descarnadas de tinta e recheadas de humidade, mesas desgastadas, uma míngua de luxos materiais, poucas condições e uma panóplia de clientes e funcionários que se destacam pela diversidade. É aqui que se reúnem todas as diferenças e semelhanças. O teatro e o cinema. A Marvel e a DC. O sonho e a realidade. A ilusão e a desilusão. A Wonder Woman aparece com um bigode de fazer inveja a Conchita Wurst, o Mickey Mouse bebe com afinco, tal como o Superman e o Spider-Man. A identidade de cada um é respeitada, bem como as suas especificidades, qual contraste com uma boa parte da nossa sociedade, embora Deusimar (Yuri Yamamoto), a dona deste espaço, sonhe em sair deste lugar e viajar pelo Mundo. Para além de Deusimar, o bar conta ainda com a presença do Coelho (Rafael Martins), o empregado de mesa; Luizianne (Samya De Lavor), a cantora; Caixa-Preta (Tatiana Amorim), a empregada de limpeza, e Richard (Paulo Ess), o pianista. As rotinas do Inferninho são alteradas logo numa fase inicial do filme, em particular, com a chegada de Jarbas (Demick Lopes), um marinheiro que desperta os sentimentos mais calorosos da dona e a desconfiança do empregado de mesa. Este traz consigo uma aura de mistério e o símbolo de uma libertação ansiada por Deusimar, com a dupla a envolver-se e a iniciar uma relação, enquanto lidam com possíveis compradores do bar, mafiosos e outras figuras que entram pelo estabelecimento.

Deusimar pretende vender o bar. Jarbas quer permanecer no mesmo. Por sua vez, os vários funcionários procuram manter este espaço, sobretudo o Coelho, com Rafael Martins a explanar a lealdade que o seu personagem tem à dona do Inferninho e ao estabelecimento. O guarda-roupa e a maquilhagem contribuem e muito para a faceta peculiar deste espaço e destas figuras. Note-se o fato de coelho cor-de-rosa que Rafael Martins utiliza, ou as roupas que parecem saídas de um “cospobre” dos vários clientes que povoam o cenário, ou o vestido vermelho da protagonista, uma tonalidade que reforça as inquietações desta figura. Também a decoração contribui para o ambiente muito próprio que percorre este bar, seja pelos elementos mencionados no início do texto, ou pelo espaço recheado de cortinas roxas onde Luizianne protagoniza números que sobressaem pelo entusiasmo da artista e pelo ambiente amorfo do público. A maioria dos personagens não prima pela complexidade ou densidade, tal como as suas dinâmicas estão longe de serem desenvolvidas com afinco, embora Yuri Yamamoto conte com uma figura que conta com algum relevo. O actor exprime a mescla de receio e desejo de arriscar da sua Deusimar, bem como o seu desapego aos bens materiais, sobretudo quando se vê confrontada com a possibilidade de vender o bar.

Com camisolas de manga de cava, um passado nem sempre claro e uma afeição notória por Deusimar, o Jarbas de Demick Lopes é um personagem que, longe de ser complexo, ou de contar com diálogos memoráveis, encaixa no interior do grupo de desajustados que povoam o Inferninho. O bar surge praticamente como o grande protagonista do filme, o palco onde todas as diferenças se reúnem e aqueles que parecem à parte da sociedade encontram o seu espaço. Aqui dialogam, bebem as suas cervejas, trabalham, procrastinam, namoram, sonham, desiludem-se, embora contem em algumas ocasiões com a companhia de elementos que aparecem de fora e mexem com as suas dinâmicas. Note-se o caso dos criminosos que procuram por Jarbas, ou a chegada deste último. Os realizadores Pedro Diógenes e Guto Parente atribuem credibilidade a este universo narrativo, quase sempre sem procurarem incutir um realismo excessivo no mesmo, com os sentimentos bem reais a aparecerem muitas das vezes a partir da artificialidade. Observe-se um diálogo emotivo do Coelho com a patroa, com as vestimentas peculiares do primeiro a remeterem para as características surreais da obra, embora as emoções e os sentimentos presentes neste trecho sejam bem reais.

A mise-en-scène remete em alguns momentos para a origem teatral deste projecto, com o bar a surgir quase como o palco por onde tudo e todos se movimentam. É nas divisórias deste espaço em que quase tudo tem lugar, onde personagens entram, partem, regressam e exibem as suas emoções e inquietações. A música faz parte do quotidiano deste espaço e da narrativa, seja ela diegética, oriunda da cantoria de Luizianne, ou não diegética, como aquela que podemos ouvir num momento de maior libertação da protagonista. Sem medo de arriscar e de entrar por caminhos mais surreais, “Inferninho” conta com um competente trabalho de decoração dos cenários e um figurino que rapidamente desperta à atenção, enquanto aborda temas como a amizade, a identidade, as expectativas frustradas e os sonhos por concretizar, o direito à diferença e coloca-nos perante diversos personagens peculiares, que possuem personalidades muito próprias e anseios extremamente universais.

Review overview

Summary

Sem medo de arriscar e de entrar por caminhos mais surreais, "Inferninho" conta com um competente trabalho de decoração dos cenários e um figurino que rapidamente desperta à atenção, enquanto aborda temas como a amizade, a identidade, as expectativas frustradas e os sonhos por concretizar, o direito à diferença e coloca-nos perante diversos personagens peculiares, que possuem personalidades muito próprias e anseios extremamente universais.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.15 10 muito bom

Comentários

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