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[Queer Lisboa 2018] Cartas para um ladrão de livros

de Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini

bom

A ocasião faz o ladrão. Laéssio Rodrigues de Oliveira levou o ditado à letra e aproveitou a falta de segurança no interior das bibliotecas e museus do Brasil para furtar livros e revistas que fazem parte do património histórico do país. Este antigo estudante de biblioteconomia é a figura central de “Cartas para um ladrão de livros”, um documentário realizado por Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, com a dupla a acompanhar a figura do título ao longo de um período de cerca de cinco anos (entre 2012 e 2017). Quais os motivos que conduzem alguém a roubar obras de arte? O documentário procura responder a esta questão e apresentar-nos ao maior ladrão de livros raros do Brasil, um epíteto atribuído pelas autoridades brasileiras que agrada de sobremaneira ao protagonista, ou este não pretendesse deixar a sua marca e fugir à irrelevância a que parecia destinado.

“Cartas para um ladrão de livros” acompanha Laéssio, seja pelos espaços que este frequenta, ou quando se encontra sentado numa cadeira a falar para a câmara (inclusive na prisão), ou através das suas cartas ou telefonemas. Esperamos a revelação de planos elaborados, ou de esquemas que surpreendam a nossa imaginação. No entanto, aquilo que mais surpreende é a facilidade com que este furtava material de espaços que tinham a obrigação de proteger e conservar as obras de arte. O momento mais inspirado do filme remete para a exposição do primeiro grande furto de Laéssio, em particular, uma revista de 1944 que tinha Carmen Miranda na capa. Não falta um vídeo de arquivo de Carmen Miranda a cantar, uma breve e delirante entrevista com Lana Miranda, um antigo colega de trabalho do protagonista, a descrição bem viva de Laéssio e a exposição do apreço que o assaltante tem pela artista nascida em Marco de Canaveses. Na época, este era um funcionário de uma padaria, mas cedo percebeu que a venda de material roubado poderia trazer-lhe o desafogo financeiro que nunca teve, algo notório quando o encontramos a questionar: “Não sei o que é que é pior. Se é ter um dinheiro e estar preso, ou ser livre e estar totalmente fodido”.

O tom livre de pudores e a genuinidade fazem parte do discurso de Laéssio, um indivíduo aparentemente inteligente, que não tem problemas em roubar o Estado e expor o descaso do Governo para com a arte. “(…) Agora, tirar coisas do Estado eu acho de bom grado. A gente tem um Estado tão desmoralizado, que não cuida do acervo, que não cuida da educação, que não cuida da cultura, que eu sinto é prazer de tirar essas coisas dos ambientes públicos. O Governo depois que se vire para se explicar” diz num tom despudorado, em um dos vários momentos em que exibe o seu peculiar modo de pensar. Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini não elevam o criminoso a herói, mas também não o retratam como uma figura unidimensional, ou reduzem-no a um mero assaltante. Note-se os trechos onde este explana a sua paixão por Leandro, ou exibe o apreço que nutre pela progenitora, ou demonstra a forma ingénua como se deixou fascinar quer pelo convívio com os poderosos, quer pela ilusão de um poder que nunca teve, ou revela as partidas peculiares que efectua com recurso a malas de viagens e garrafas com urina. Diga-se que a personalidade bastante cinematográfica de Laéssio e as suas diferentes camadas ajudam e muito a manter o interesse no documentário, mesmo quando este ameaça resvalar para caminhos sinuosos.

Quando se afasta de Laéssio, ou avança por terrenos redundantes, ou deixa que a informação inserida quebre o seu ritmo, “Cartas para um ladrão de livros” perde o fôlego. Observe-se quando ficamos perante as falas de Beatriz Kushnir (directora do arquivo geral do Rio de Janeiro), ou de Alexandre Saraiva (delegado da polícia federal), que visam dar outra perspectiva do caso, nomeadamente, o lado da lei, embora estes elementos sejam encaixados de forma pouco harmoniosa no interior do filme. O que falta em fluidez e verve a “Cartas para um ladrão de livros” sobra em informação sobre o protagonista e o quanto os seus actos e as suas falas permitem dialogar com o Brasil e as suas instituições, tais como o Museu Nacional. Filmada antes do incêndio que devastou o local, a longa-metragem expõe a falta de condições de segurança no interior deste espaço e um certo desmazelo para com uma instituição que alberga património histórico valiosíssimo, algo que recentemente resultou num desastre de proporções elevadas.

Se o protagonista foi preso, já aqueles que beneficiaram com os seus crimes conseguiram proteger-se, com o anonimato em volta dos elementos que compraram as obras de arte a permitir espelhar o poder destes indivíduos e a incapacidade das autoridades. Nesse sentido, Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini partem de Laéssio para abordarem, ainda que superficialmente, a incapacidade que o Brasil apresenta para preservar o património, as assimetrias sociais brasileiras e a facilidade com que alguns poderosos conseguem escapar à justiça, enquanto nos apresentam um criminoso que não se reduz à designação do título, uma figura deveras peculiar que contribui para elevar este documentário.

Review overview

Summary

Quais os motivos que conduzem alguém a roubar obras de arte? "Cartas para um ladrão de livros" procura responder a esta questão e apresentar-nos ao maior ladrão de livros raros do Brasil.

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  • Produção
  • Realização
3 10 bom

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