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[Queer Lisboa 2018] A Moça do Calendário

de Helena Ignez

muito bom

“A Moça do Calendário” efectua uma série de comentários sobre o Brasil de ontem e hoje, sejam estes relacionados com a exploração laboral, o racismo, a corrupção, a insegurança no espaço citadino, a atitude violenta de alguns representantes das autoridades, a reforma agrária, o direito à propriedade, as relações matrimoniais, a sexualidade, a alienação no espaço urbano, o capitalismo e as especificidades de São Paulo, sempre com um tom mordaz, acutilante, dotado de humor e uma dose assinalável de criatividade à mistura. A banda sonora sublinha na justa medida o tom romântico, caótico ou enérgico de alguns dos episódios que marcam o enredo, enquanto a fotografia deambula entre as cores quentes que pontuam diversos sonhos de Inácio (André Guerreiro Lopes), o preto e branco que define a oficina onde este trabalha e as tonalidades muito próprias de São Paulo. Antigo varredor de rua, o protagonista trabalha na Barato da Pesada (um nome extraordinário para um negócio), uma oficina liderada por Celso Patrão (Claudinei Brandão), um “pré-capitalista primário”, explorador, peculiar e caricato, que apenas pensa no lucro e na produtividade.

Com um espaço relativamente diminuto, o estabelecimento conta com uma série de funcionários, tais como Grande Otelo (Geraldo Mário), um indivíduo bastante articulado que gosta de abordar questões filosóficas sobre o tempo. Num determinado momento de “A Moça do Calendário” somos colocados perante Celso a liderar de forma entusiasta uma série de exercícios destinados a “incentivar” o trabalho e o desempenho dos seus trabalhadores. A banda sonora exacerba o ritmo enérgico e singular do episódio, enquanto as expressões propositadamente exageradas de Claudinei Brandão sublinham a personalidade intensa deste indivíduo que representa o capitalismo desenfreado, a corrupção e a exploração laboral. É um momento vivaz, dotado de comentários precisos, acutilantes e cheios de humor sobre a “sociedade do cansaço”, com o ensaio homónimo de Byung-Chul Han a parecer funcionar como uma das fontes de inspiração do argumento. O trecho mencionado é exposto a preto e branco, tal como várias cenas que decorrem neste espaço, uma decisão estética que exacerba a opressão à criatividade e à liberdade que ocorre na Barato da Pesada.

A única excepção à regra no interior da oficina é o calendário dotado de cores vivas onde está presente a moça do título (Djin Sganzerla), com este recurso a exacerbar quer o fascínio que o protagonista sente pela figura que o acompanha pelos seus sonhos, quer a capacidade que esta imagem tem para soltar o mecânico dos grilhões desta realidade desprovida de vivacidade. André Guerreiro Lopes transmite eficazmente a faceta simples e sonhadora do seu personagem, um mecânico que se encontra desmotivado com o trabalho e mantém um casamento pontuado pela monotonia com Cidinha (Zuzu Leiva), uma activista que percebe que os sentimentos do esposo em relação a si são cada vez menos calorosos. Note-se quando ela fala sobre o feminismo e ele apenas procura ver televisão e jantar descansado, com ambos a parecerem sintonizados em antenas diferentes. Filho de um latifundiário com quem deixou de manter contacto, o protagonista labora ainda como bailarino suplente, algo que permite a André Guerreiro Lopes exibir uma faceta distinta e mais intensa do seu personagem. Este raramente chega a tempo à oficina, ou apresenta um semblante de alegria, com os sonhos onde convive com a “moça do calendário” a contribuírem para que a sua existência ganhe uma cor distinta.

As dinâmicas entre o mecânico e a moça surgem como um dos pontos fortes do filme. Existe uma química saliente entre Djin Sganzerla e André Guerreiro Lopes, com o desejo constante do protagonista a ser contrastado com a capacidade da moça para refrear os ânimos do interlocutor e expor os seus pontos de vista. Com batom e roupas de tonalidades quentes, que salientam a sensualidade da personagem do título e o desejo que esta provoca no mecânico, Djin Sganzerla consegue traduzir a personalidade muito própria desta mulher, com a actriz a ter ainda espaço para sobressair como Iara, uma figura deveras semelhante à moça do calendário (ou não fossem interpretadas pela mesma actriz). Esta é uma activista que pertence a um movimento que luta pela democratização do acesso à terra no país, sendo sobrinha de Luiz (Eduardo Chagas), o dono do café frequentado pelo mecânico, um indivíduo que acredita em Lula da Silva e na capacidade do PT poder expurgar a corrupção da política. Já Inácio apresenta uma atitude mais desencantada no que diz respeito à política e à vida, com o seu quotidiano a ser marcado por rotinas aparentemente banais, mas que preenchem o enredo de vigor.

O enredo conta ainda com uma série de elementos que se cruzam directa ou indirectamente com o protagonista, com Helena Ignez a sair em alguns momentos da história de Inácio para embrenhar-se por outros terrenos. Observe-se o caso da Professora Sônia (Naruna Costa), uma activista que foi vítima de discriminação racial e vive num apartamento comunitário, ou a já mencionada Cidinha. Veja-se o episódio em que encontramos a esposa do protagonista no interior de uma ONG, onde são discutidos assuntos como o colonialismo e a discriminação racial, algo que reflecte o forte cunho político e social do filme. Temos ainda figuras como um médico vestido de marinheiro que expressa as suas falas de modo bem vivo, ou Airtu (Mário Bortolotto), um intelectual. Nem todos os personagens são desenvolvidos com acerto, ou as suas histórias encaixadas de maneira harmoniosa no interior do enredo, mas é praticamente impossível não ficar preso a estes elementos que marcam “A Moça do Calendário”.

Outra das figuras de relevo do filme é a narradora, com Helena Ignez a proferir falas que não só reflectem a eficácia do argumento como concedem informação e a espaços contam com alguma espirituosidade. O argumento contribui para esta personalidade singular de diversos personagens, bem como o talento de boa parte do elenco e o figurino. Diga-se que o argumento foi originalmente escrito por Rogério Sganzerla em 1987, tendo posteriormente sido adaptado por Helena Ignez para a São Paulo de 2017. Não sabemos com precisão o que foi mantido ou alterado pela cineasta, embora seja perceptível que existem temas que tocam profundamente quer na actualidade do Brasil, quer no passado deste país. Entre sonhos e delírios que tomam conta da realidade, comentários de foro político e social, personagens que não saem facilmente da memória e situações peculiares, “A Moça do Calendário” é um filme que palpita criatividade e mordacidade, que tem algo para dizer e consegue.

Review overview

Summary

Filme que palpita criatividade e mordacidade, que tem algo para dizer e consegue.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.45 10 muito bom

Comentários

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