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A Paixão de Van Gogh

de Dorota Kobiela e Hugh Welchman

muito bom

O primeiro filme do mundo inteiramente pintado à mão. O rótulo inescapável que vende A Paixão de Van Gogh (Loving Vincent, 2017) como um produto cinematográfico único na sua essência. Inicialmente filmado com actores, este peculiar filme foi posteriormente pintado frame-a-frame por mais de 100 artistas treinados consoante o estilo de Van Gogh. Produzido no decorrer de 6 anos, A Paixão de Van Gogh resulta em 62450 frames pintados que tomaram como referência directa a rodagem de acção real.

Num filme que prima em ser uma experiência, o argumento vê-se remetido para plano secundário. Partia-se da vontade de fazer nascer um estilo, sendo que o argumento actua como a resposta possível, terra-a-terra e que não defrauda a memória do artista que lhe dá origem. Acompanha-se o percurso de uma personagem na sua interacção com as demais. Base segura que não se propõe a grandes coloridos. Todas as personagens enquadradas no filme, não mais congeladas no tempo, viram-se retratadas em determinada altura pelo próprio Van Gogh. Percamo-nos na liberdade de referenciar o artista pelo primeiro nome, tal é a intimidade suscitada no filme. Vincent é o esqueleto do argumento, a incógnita que move a personagem principal, levando-o a questionar a vida e morte do artista. Pedia-se uma escrita que almejasse um pouco mais, uma maior aproximação da inovação visual que lhe é carapaça. Ao invés, caminha-se em terreno seguro com diálogos um tanto ou quanto comuns.

Para lá da (mais bela) distracção visual, há a constante certeza de se poderem reconhecer os rostos que há cerca de 6 anos deram vida às personagens que posteriormente viriam a ser pintadas. Um casting primoroso na selecção de actores que se aproximassem ao máximo daqueles retratados por Vincent. São presenças corpóreas como a de Helen McCrory que conferem ainda mais humanidade à animação que aqui se desbrava.

A Paixão de Van Gogh entra e sai da sombra com maravilhosa suavidade, resultando numa fluidez que é espelho natural. Os flashbacks concebidos a preto-e-branco, sem quadros que lhes sirvam de base, são a escolha óbvia e ainda assim mais acertada para contrastar com a vivacidade no presente da acção. Homenagem laboriosa que em momento algum ofende a obra de Vincent.

À semelhança de um qualquer outro filme, cuja forma lhe é mecanismo-chave (como o seria, por exemplo, uma produção inteiramente concebida num só plano-sequência),A Paixão de Van Gogh chama as atenções para si mesma durante toda a sua duração. Não há abstracção possível daquilo que de melhor tem a apresentar. Ou há? Findada a totalidade dos 88 minutos, fica a sensação de que se jogou no limiar do cansativo. Um pouco mais e o deslumbre cessava. Trata-se de um filme que se fica pela primeira visualização, não contendo a profundidade e/ou emoção que traga o espectador a posteriores rondas.

Independentemente de uma escrita que se contrai com medo de manchar a memória de Vincent,A Paixão de Van Gogh será relembrado como um monumental exercício que aproxima pintura e imagem em movimento.


Leia também a nossa entrevista aos realizadores:

Review overview

Summary

A Paixão de Van Gogh é exercício-mor ao mesclar cinema e pintura. Ao ser homenagem a Vincent, acaba por se contrair no argumento com receio de não lhe ser fiel.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

Comentários

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