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Os Oito Odiados

de Quentin Tarantino

perfeito

As luzes apagam-se e de repente, num plano mais amplo do que o habitual, uma montanha coberta de neve preenche toda a tela. Outros planos se vão seguindo, até nos prendermos durante longos minutos num crucifixo, onde os créditos iniciais passam ao som da épica mas sombria música de Ennio Morricone. Está dado o mote para o “oitavo filme de Quentin Tarantino”, e imediatamente nos recordamos que, goste-se ou não, o seu autor tem uma das mais particulares vozes do cinema actual, e as próximas horas irão ser passadas no seu Mundo. Tarantino tem essa posição no seio da indústria norte-americana: pode fazer o que quer, como quer, quando quer. E desta vez escolheu fazer Os Oito Odiados, recuperando muita da sua equipa de colaboradores de eleição, de técnicos aos actores, com algumas novas e muito bem vindas adições.

Depois de se estender pelos caminhos tortuosos do filme-vingança, Tarantino muda um pouco de direcção, abraçando um mistério à Agatha Christie onde um conjunto de personagens se reúne num pequeno espaço para se proteger do violento nevão que cai lá fora. A peculiaridade é que nenhuma dessas personagens é flor que se cheire, e o que se segue durante quase três horas é precisamente um estudo sobre os diversos graus de perversidade e maldade que fazem parte do ser humano. Daí que Os Oito Odiados esteja impregnado do humor sádico habitual no seu autor, mas pareça ser também um dos seus filmes mais irados, realmente desencantado com a Humanidade. Se quisermos é também um ponto de vista sobre a sua nação, e a verdade é que o grupo de personagens que se reúne no interior daquela cabana mais não é do que um fervilhante microcosmos da sociedade americana, misto de raças, crenças, princípios e ideias políticas – o plano final, com três personagens em posições tão distintas no enquadramento, é sintomático disso mesmo.

Apetece recordar a recente polémica em que o realizador se viu envolvido quando se tornou numa das vozes mais activas na condenação da violência policial sobre a comunidade negra, não porque Tarantino traga para a mesa qualquer espécie de vitimização (nem o negro nem a mulher desta história são pobres vítimas, e são tão violentos e implacáveis como quaisquer outros), mas porque lhe parece realmente interessar explorar os limites do poder bruto da autoridade e as suas linhas morais. E esse talvez seja o único problema do filme (e que se pode tornar grande para alguns espectadores): porque se nota em alguns diálogos uma gravidade pouco comum em Tarantino, uma espécie de “falar a sério de coisas sérias”, que contrasta depois com uma violência quase cartoonesca (e não nos enganemos, há carradas de sangue jorrado em Os Oito Odiados). A aceitação dessa proposta dependerá sempre dos limites morais do próprio espectador, que podem achar a piada de mau gosto. Por outro lado, parece clara a visão do seu autor: a de que a violência e a morte grotesca resultam muitas vezes de meros impulsos individuais e são, na sua maneira especial, tragicamente cómicas.

Cinematograficamente falando, não há como apontar o dedo a esta produção irrepreensível. Tal como Paul Thomas Anderson fez recentemente com O Mentor (2012), Tarantino não só rodou o seu novo filme em película mas também em 70mm e, tal como Anderson, trocou o épico a que o formato era habitualmente associado, pela intimidade, numa narrativa confinada na maior parte do tempo a pequenos espaços interiores. E utilizando também lentes que lhe permitem obter uma largura de enquadramento maior do que o habitual, aproveitou para manter constante uma camada de acção em segundo plano que, podemos apostar, irá revelar-se riquíssima em detalhes em visionamentos posteriores. Robert Richardson, o seu habitual director de fotografia desde Kill Bill, sente-se como peixe na água a explorar tais ferramentas criando, em conjunto com o seu realizador, quadros minuciosamente detalhados. Juntando a isso um regresso de Ennio Morricone às grandes bandas sonoras, temos um deleite audiovisual completo, ao qual se juntam depois os actores, todos eles captando na perfeição o comprimento de onda do filme, algures entre a sátira e a maior seriedade, e se alguns nomes como Samuel L. Jackson, Tim Roth, Michael Madsen ou Kurt Russell já não são novos no universo Tarantino, outros como Jennifer Jason Leigh ou mesmo Channing Tatum (este numa curta participação) mostram que também lá passaram a pertencer por direito próprio. Após explorar as paisagens europeias em Sacanas Sem Lei ou as do Sul dos Estados Unidos em Django Libertado, Os Oito Odiados reduz em larga medida a escala, assume uma dimensão quase teatral, e deixa a palavra, e os jogos de enganos e paranóia (The Thing – Veio do Outro Mundo, de John Carpenter, é uma referência mais do que evidente) tomarem conta dos acontecimentos, até rebentar em tons de vermelho-fúria.

Review overview

Summary

Um fervilhante microcosmos da sociedade americana, misto de raças, crenças, princípios e ideias políticas, que rebenta em tons de vermelho-fúria.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Realização
  • Produção
5 10 perfeito

Comentários

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