Share, , Google Plus, Pinterest,

Print

Posted in:

O Workshop

de Laurent Cantet

muito bom

Uma oficina de escrita destinada a jovens que contam com um passado escolar problemático serve como ponto de partida para “L’ atelier” (O Workshop) abordar temáticas relacionadas com a intolerância, a sensação de insegurança provocada pelos atentados, a violência, a solidão, a escrita, as mutações de uma cidade, a mescla de culturas que existem no interior da França, as ansiedades dos jovens e a incerteza que estes têm em relação ao futuro. O workshop do título decorre durante o Verão, em La Ciotat, uma comuna francesa com um forte passado industrial, um espaço marcado por uma enseada que reúne diversos personagens e pela presença de um estaleiro naval que foi encerrado há mais de vinte anos e convertido num local destinado à manutenção e reparação de iates. A liderar este atelier encontra-se Olivia (Marina Foïs), uma escritora experiente, oriunda de Paris, que procura ensinar os seus sete pupilos a criarem algo em grupo, a desafiarem o ócio e a ganharem ferramentas que sirvam para o futuro de todos, embora lide com a rejeição inicial de boa parte destes elementos, pelo menos até começarem a trabalhar na história.

O enredo do romance policial que estes jovens começam a desenvolver tem de se desenrolar em La Ciotat e abordar elementos sobre este espaço citadino, um recurso que é utilizado pelos idealizadores desta oficina de escrita para colocarem os membros do grupo em contacto com a cidade e consigo próprios. Laurent Cantet consegue explorar as dinâmicas destas reuniões com uma autenticidade notável, com boa parte dos diálogos e ideias trocadas a permitirem abordar diversos temas mencionados no inicio do texto, bem como as divergências que existem entre estes elementos, o modo como encaram o meio que os rodeia e as suas inquietações. A decisão de escolher intérpretes não profissionais ou estreantes joga a favor de Cantet, um pouco à imagem do que já tinha acontecido em “Entre les murs”, sobretudo pelo cineasta conseguir retirar dos mesmos uma genuinidade que reforça a credibilidade das interacções entre os personagens e os seus gestos e acções. De “Entre les murs” encontramos ainda a capacidade do realizador para abordar temáticas sobre a sociedade francesa e a sua heterogeneidade, bem como o desenvolvimento de assuntos relacionados com os jovens e as suas dinâmicas com um professor, ou os diálogos improvisados e a presença de um grupo.

A compor esta turma encontram-se Antoine (Matthieu Lucci), Lola (Mélissa Guilbert), Bouba (Mamadou Doumbia), Etienne (Florian Beaujean), Malika (Warda Rammach), Benjamin (Julien Souve) e Fadi (Issam Talbi). Todos apresentam características relativamente distintas, embora aquele que adquire mais destaque e complexidade seja Antoine. Matthieu Lucci incute uma faceta simultaneamente intensa e frágil ao seu personagem, um jovem que parece constantemente perdido nas incertezas e no tédio que marcam as suas rotinas e o seu futuro. Antoine tanto desperta a nossa curiosidade como repele a nossa atenção, algo transmitido pelo intérprete, sobretudo quando encontramos o protagonista a confrontar os colegas, muitas das vezes com comentários de foro xenófobo, ou a hostilizar a professora. Nos seus tempos livres, este gosta de jogar computador, ir à praia, praticar exercício físico e ver vídeos na internet, sobretudo de um guru de extrema-direita, com esse tipo de discurso populista a parecer gerar lastro na mente do jovem. Diga-se que Antoine é um jovem extremamente solitário, que pouco fala com os pais e parece estar inadaptado em todos os locais e em todos os grupos, seja o da oficina de escrita, ou o de Teddy (Olivier Thouret), o seu primo.

Teddy trabalha como pedreiro, tem um filho, é adepto de discursos de extrema-direita e pratica algumas actividades que ficam no limite da lei e da ilegalidade. Antoine tenta inserir-se no grupo deste indivíduo, embora nunca pareça totalmente integrado no mesmo. Olivia fica estranhamente intrigada pelo jovem, com ambos a formarem uma ligação deveras peculiar, muito baseada numa incompreensão e curiosidade mútua e num desejo raramente declarado. Existe alguma tensão a envolver a relação destes dois personagens, seja quando Antoine confronta as ideias da professora, ou nas ocasiões em que esta contraria ou questiona o aluno, com Marina Foïs e Matthieu Lucci a expressarem a inquietação e a complexidade que envolvem uma miríade de momentos entre os personagens que interpretam. A actriz insere uma faceta questionadora e ponderada à sua personagem, uma escritora que vem de fora e procura conhecer os seus alunos e o meio que os rodeia. Também Olivia conta com uma faceta algo solitária, tendo na oficina de escrita um desafio imenso, com o grupo a contar com membros que contam com ideais e sensibilidades muito distintas, algo que conduz a escritora a tentar manter uma postura aglutinadora. 

Malika pretende inserir elementos sobre o passado do território e do avô no interior do romance policial que está a ser preparado pelo grupo. Por sua vez, Fadi chegou há cinco anos ao território e não tem grande conhecimento das raízes deste espaço, enquanto Benjamin inicialmente não apresenta qualquer interesse em escrever. Já Lola quer evitar inserir muita violência no enredo, ao passo que Antoine está pouco interessado no passado e parece ser atraído por sangue e vísceras. Existe sempre alguma inquietação em volta das ideias do personagem interpretado por Matthieu Lucci, seja pela sua incapacidade em discernir os ideais do autor e das figuras ficcionais criadas pelo mesmo, ou pela sua propensão para fazer comentários xenófobos e verbalmente violentos. Nem sempre parece acreditar naquilo que diz, embora também não seja totalmente óbvio que não crê nas suas palavras, com Matthieu Lucci a aproveitar as qualidades do argumento de Laurent Cantet para compor um personagem dotado de ambiguidade e espessura, que mexe e muito com o grupo de escrita e o enredo. As dinâmicas do grupo são bem trabalhadas, com as especificidades de La Ciotat a influenciarem e muito o comportamento de alguns elementos, sobretudo de Olivia e Antoine. 

Se Olivia encara este espaço com alguma curiosidade, já Antoine sente um enorme tédio e incapacidade para descobrir algo de novo na cidade. Laurent Cantet explana eficazmente os perigos que esse tédio pode provocar, bem como a falta de rumo que permeia a mente do protagonista, com o workshop e a escritora a parecerem mexer com o jovem. A certa altura do filme, a relação entre estes dois personagens conhece episódios mais tensos, quase a aproximar “L’ atelier” de um thriller, com a confusão de Antoine e o desejo para fugir à inacção a colocarem-no por caminhos perigosos. É um personagem complexo, que se encontra a lidar de forma muito própria com as incertezas e as emoções típicas da idade, bem como com o seu corpo e aqueles que o rodeiam. Antoine permite ainda que Laurent Cantet aborde a facilidade com que os discursos de extrema-direita despertam aderência junto de elementos que se sentem mais à parte, com as falas do guru populista a dialogarem com algumas das inquietações do protagonista e do seu primo.  

Boa parte do enredo de “L’ atelier” desenrola-se em pleno Verão, com Laurent Cantet e a sua equipa a explanarem eficazmente o calor que percorre os cenários, os corpos e os sentimentos, enquanto expõem com precisão as características de La Ciotat, seja o mar onde o protagonista nada, ou as rochas onde este apanha sol e faz exercício, ou o estaleiro naval que já não conta com a actividade de outrora, ou a marina. No entanto, aquilo que mais sobressai em “L’ atelier” é a capacidade do cineasta para abordar uma série de temáticas a partir da oficina de escrita do título, enquanto explora as dinâmicas dos personagens, bem como as suas incertezas e a forma como se relacionam com o território e aqueles que os rodeiam.

Review overview

Summary

Aquilo que mais sobressai em "L'atelier" é a capacidade do cineasta para abordar uma série de temáticas a partir da oficina de escrita do título, enquanto explora as dinâmicas dos personagens, bem como as suas incertezas e a forma como se relacionam com o território e aqueles que os rodeiam.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

Comentários

Share, , Google Plus, Pinterest,