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O Filme Lego 2

de Mike Mitchell

bom

Emmet e Lucy estão de volta para mais uma aventura no universo LEGO, mas será que tudo continua a ser espectacular?

 

Nota: esta é uma análise à versão de O Filme Lego 2 dobrada em português.

Depois do sucesso inesperado em 2014 de O Filme Lego, um projecto que à partida parecia uma oportunidade cínica para meter a mão no bolso das audiências, aproveitando o gigantesco reconhecimento da marca de brinquedos de construção dinamarquesa, era inevitável que surgissem mais títulos a aproveitar o filão. Porém, ao invés da tradicional sequela, 2017 ofereceu-nos dois spin-offs com distintas qualidades. O primeiro, Lego Batman, O Filme, tirava proveito da calorosa recepção à hilariante participação do “Cavaleiro das Trevas” no primeiro filme. O segundo, Lego Ninjago – O Filme, apontava a um nicho mais infantil oferecendo uma aventura cinematográfica de uma linha de sucesso do sistema de construção que contava já com uma presença regular no pequeno ecrã. Foram, então, precisos cinco anos para que a sequela oficial e directa visse a luz do dia. Muito embora a realização tenha ficado ao cargo de Mike Mitchell – realizador com uma carreira curiosa que conta com algumas animações, bem como com a comédia de 1999 interpretada por Rob Schneider Gigolo Profissional –, o duo criativo responsável pela surpresa original, Phil Lord e Christopher Miller, regressa com responsabilidades na produção e escrita desta segunda parte.

Passaram-se cinco anos desde a aventura do Mestre Construtor Emmet, resultado das brincadeiras de Finn. Entretanto, a irmã mais nova deste, Bianca, também quer participar na diversão e invade as construções do irmão com o seu sistema infantil LEGO Duplo. O resultado, na realidade do mundo LEGO de Bricksburgo, é uma série de invasões alienígenas que, com o passar do tempo, transformam a pacata existência da cidade numa violenta terra sem lei ao estilo de qualquer narrativa pós-apocalíptica. No entanto, o eterno optimista Emmet não se deixa afectar pela nova ordem das coisas, para desespero de Lucy, que tenta ensiná-lo a mudar e a tornar-se mais duro, perante a ameaça do iminente evento cataclísmico, Armamagedão. Tudo se complica quando um grupo de amigos, onde se inclui a Lucy, é raptado e levado para o sistema Sistelar, cabendo a Emmet partir para os salvar. Na sua demanda, conhece o aventureiro Rex Dangervest, que se prontifica para o ajudar.

Logo à partida será injusto comparar O Filme Lego 2 com o seu predecessor pois é impossível voltar a tirar proveito do enorme factor surpresa que foi descobrir uma animação que, não obstante ser um veículo comercial para uma marca de brinquedos, era também um filme com um apurado sentido de humor e um coração enorme que cometia a proeza de satisfazer miúdos e graúdos sem condescender com nenhum dos dois, disparando piadas a um ritmo frenético sem nunca perder a noção da narrativa bem montada – trocadilho completamente intencional – que culminava num final com uma reviravolta metafísica que funcionava como a cereja em cima do bolo. Dando continuidade a esta fórmula, esta sequela começa no momento exacto em que o filme anterior acabava, reforçando desde o início o conceito metafísico guardado para a surpresa final naquele. Sem o factor surpresa, o sucesso fica então ao cargo da eficácia do humor momento a momento, e não tanto da solidez narrativa, desta vez mais previsível, onde o conflito tem origem na tensão entre a vontade de uma irmã mais nova querer brincar com o irmão que se considera crescido demais para lhe dar atenção.

No capítulo das novidades, Rex Dangervest tem um papel central. Descrito como defensor da galáxia, arqueólogo, caubói, e treinador de dinossauros velociraptor, Rex funciona como uma piada descarada à carreira de Chris Pratt, piada essa que se torna mais afiada com o avançar da história. Outra novidade digna de nota é a rainha Watevra Wa’Nabi, um prodígio de animação em que a personagem em constante mutação apresenta a cada momento uma variante resultante de diferentes combinações das peças que a constituem. No que respeita aos repetentes, a grande surpresa é o protagonismo novamente dado ao Batman depois do seu próprio filme. O que funcionava bem em pequenas doses, e resultou no contexto da sua própria história, podia ter sido aqui usado de forma mais parcimoniosa.

A música continua a ter um papel preponderante: O Filme Lego 2 oferece vários momentos musicais, incluindo a subversão do orelhudo e incontornável Everything is Awesome, uma nova música que promete literalmente colar-se à nossa cabeça e um genérico final – novamente um momento de inspirada animação – acompanhado ao som de uma composição de Beck com a participação de Robyn e dos The Lonely Island. Demonstrando a amplitude da cultura melómana dos seus criadores, numa das muitas piadas dirigidas aos mais adultos – incluindo um cameo recorrente de um celebrado herói de acção – os Radiohead são citados em referência a um momento de inesperada tristeza.

Se a qualidade e eficiência do humor não se repete nesta sequela, o seu charme é inegável, bem como a relevância dos seus temas, especialmente para os mais novos. Numa crítica muito oblíqua à realidade que se vive nesta recta final da segunda década do século XXI, em que a verdade, honestidade e ingenuidade parecem ser cada vez mais qualidades em desuso, por oposição ao cinismo e à agressividade, O Filme Lego 2 oferece um sub-texto que promove a união e o optimismo, não só como forma de encarar tempos difíceis como também como ingredientes vitais para o bem-estar e a harmonia. Como não gostar de um filme que diverte, dispõe bem e, pelo caminho, transmite este tipo de valores aos mais novos tratando-os com respeito?

Review overview

Summary

O Filme Lego 2 não repete o sucesso do primeiro, mas como não gostar de um filme que diverte, dispõe bem e, pelo caminho, transmite valores positivos aos mais novos tratando-os com respeito?

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3 10 bom

Comentários

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Written by António Araújo

António Araújo

Cinéfilo, mascara-se de escritor nas horas vagas, para se revelar em noites de lua cheia como apaixonado podcaster.

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