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O Caderno Negro

de Valeria Sarmiento

bom

Depois de Mistérios de Lisboa (2010), a aclamada adaptação cinematográfica do romance de Camilo Castelo Branco por Raoul Ruiz, surge agora O Caderno Negro. O filme de Valeria Sarmiento tem por base a obra que, no papel, é justamente a continuação da outra: O Livro Negro de Padre Dinis (personagem que Adriano Moreira interpretou nos Mistérios). Se bem que Sarmiento assina uma adaptação muito livre do romance, é percetível a tentativa de concretizar uma variação da estrutura que deu ao filme de Ruiz uma tão grande notoriedade.


O Caderno Negro
fala de paixões tipicamente camilianas, maiores do que a vida, e sempre levadas até às últimas consequências, numa intriga feita de relações de poder onde o dito caderno é uma espécie de macguffin. O desfecho é o culminar da tragédia, talvez ridícula e risível para o leitor/espetador atual, mas emocionalmente forte se nos quisermos deixar levar por este espírito quase fatalista.

Impera aqui uma austeridade visual e episódica na narrativa, onde as cenas se sucedem de uma forma muito correta e “certinha” (e por isso, pouco apelativa, no que diz respeito ao cinema), aliada àquele sabor inconfundível de filme de época com todos os itens da to-do list efetuados. A sensação que fica é que, tal como a maioria das produções nacionais que padecem do problema designado “filme-que-também-será-minissérie”, há algo que falta – talvez por algumas sequências terem ficado guardadas para o pequeno ecrã (e será que ninguém percebe que o potencial de um filme em sala sai prejudicado ao anunciar em simultâneo a sua exibição televisiva?).

Fica a sensação de estarmos a ver um filme em folhetins, onde sobressai o ótimo leque de atores que ainda vai dando mais vida do que a estrutura permitiria. E o conformismo que sentimos em todo O Caderno Negro não chega a ser suficiente para desprezar totalmente o poder emocional da história que nos é contada – e é também por isso, e por um argumento de Carlos Saboga com as suas singularidades, que temos aqui algo mais do que “um filmezinho de época”, onde sobressai o retrato certeiro de algumas personagens – como Rufo (Stanislas Merhar), impecável na sua frieza e subtil variedade de camadas psicológicas, a curta mas ótima aparição de Joaquim Leitão, e a protagonista (Lou de Laâge) no seu amor maternal pela criança que não é sua.

Não é uma adaptação feita para promover um livro famoso, que segue rigidamente as palavras do autor e rejeitando o cinema que está escondido no livro, nem é um pretexto para levar as escolas ao cinema, como aquelas adaptações tiradas a ferros das “leituras obrigatórias” que por vezes aparecem na nossa praça. Valeria Sarmiento tem algo a dizer (ou filmar) sobre a história que conta. E se bem que isso não seja tão evidente, é algo que nos ajuda a gostar um pouco mais de O Caderno Negro – que, talvez nas mãos de um outro realizador, poderia resultar num objeto mais marcante e duradouro.

Review overview

Summary

O Caderno Negro é uma adaptação austera de Camilo Castelo Branco com os seus momentos acutilantes.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3 10 bom

Comentários

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