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O Boneco Diabólico

de Lars Klevberg

mau

Chucky, o diabólico boneco assassino, era um raro sobrevivente da década de oitenta que ainda não tinha sido alvo de remake ou reboot. Até agora, com uma reinvenção da responsabilidade da Metro-Goldwyn-Mayer, detentora dos direitos do filme original — mas não das sequelas —, a contra-gosto de Don Mancini, autor original e mentor da saga até aqui.

 

Tudo começou com o sucesso de bilheteira de Chucky, o Boneco Diabólico (Child’s Play, no original), realizado em 1988 por Tom Holland com base num argumento do próprio em colaboração com John Lafia e Don Mancini, o cérebro por trás do conceito original. A premissa era interessante: colocar um boneco de criança benigno como o agente de morte e destruição num violento filme de terror. A narrativa era pouco importante e a “transferência” da alma do criminoso interpretado pelo lendário Brad Dourif acontecia imediatamente no decorrer do genérico inicial. Estava lançado o fenómeno. Logo passados dois anos, Lafia salta para a cadeira de realizador de uma sequela que emulava a papel químico a fórmula do filme original, novamente escrito por Don Mancini, que nunca mais largaria o papel de argumentista da saga. Chucky, o Boneco Diabólico 2 (Child’s Play 2, 1990), tem alguns motivos de interesse, nomeadamente o facto de contar com a musa dos anos setenta Jenny Agutter. Ainda assim é um filme menor que o anterior, tal como seria um ano depois Chucky, o Boneco Diabólico 3 (Child’s Play 3, 1991) que, apesar de fazer crescer a sua personagem principal enviando-o para uma academia militar, esgotava a fórmula ao fim de duas sequelas.

Quando a saga é retomada em 1998, Gritos (Scream) de Wes Craven tinha revitalizado o género virando-o de pernas para o ar com o seu comentário metafísico ao próprio cinema de terror. A Noiva de Chucky (Bride of Chucky), realizado por Ronny Yu é um produto desta nova vida que o terror ganhou na segunda metade da década de noventa. Além de trazer para grande plano o humor que era usado parcimoniosamente pelo boneco, introduz uma nova “personagem” que marcaria o futuro da saga: Jennifer Tilly. Esta veia irónica e cómica só seria retomada seis anos mais tarde em A Semente de Chucky (Seed of Chucky, 2004) pela mão do próprio Don Mancini. Contando com John Waters num pequeno papel e com Jennifer Tilly interpretando uma versão exagerada de si própria num cenário de filme dentro de filme — ainda heranças da saga Gritos —, esta é, no entanto, a pior entrada da saga. Apesar do aumento dos níveis de violência, a tentativa de humor é um tiro completo ao lado, levando novamente o boneco e companhia para um beco sem saída. Em 2013, Don Mancini opera com A Maldição de Chucky (Curse of Chucky) um soft reboot produzido directamente para o mercado de vídeo nos EUA e o resultado é, provavelmente, o melhor filme da série, para logo a seguir dar um passo atrás com Cult of Chucky, mais violento e cruel que qualquer capítulo que o precedeu, revertendo novamente ao humor para disfarçar um argumento bastante fraco.

Na sequência da indecisão quanto ao rumo da série depois de Curse of Chucky, a Metro-Goldwyn-Mayer, detendo os direitos do filme original, aposta num remake de Child’s Play, entre nós, O Boneco Diabólico, recuperando o talento vocal de Mark Hamill — que na travessia pelo deserto entre aventuras inter-galácticas ganhou popularidade dando a voz a Joker em animações do Batman — para dar vida a Chucky. Desta vez, no lugar do espírito de um assassino em série à procura de nova forma corpórea, temos uma pretensa sátira à omnipresença da tecnologia nas vidas modernas. Chucky é um boneco da popular marca Buddi que se conecta à “nuvem” para se sincronizar com mil e uma aplicações que gerem o nosso dia-a-dia, incluindo a televisão, ou mesmo um serviço de boleias sem necessidade de condutor, ou até mesmo tomando conta de sortudos bebés com a sua câmara de vigilância. Claro que, por obra-e-graça de um argumento de Tyler Burton Smith muito pouco preocupado com subtilezas ou motivações relevantes, Chucky tem um defeito e, se ao princípio é um brinquedo inocente que a mãe solteira Karen Barclay (Aubrey Plaza) oferece ao filho, Andy (Gabriel Bateman), rapidamente vai aprendendo as lições erradas e começa a agir de forma ameaçadora quando vê o seu laço com o miúdo ameaçado.

O Boneco Diabólico vive muito à custa da mitologia iniciada pelo original, bem como da boa-vontade do público que tem uma vaga ideia da sua premissa. No entanto, onde o filme de Holland se levava a sério, a abordagem do realizador norueguês Lars Klevberg é a de jogar com o humor gerado pela dicotomia de ver uma figura artificial e inofensiva a interagir inocentemente com futuras vítimas incautas das tendências homicidas que o público ansiosamente antecipa. Quando estas chegam, são sangrentas e agradarão aos fãs de cinema gráfico, porém à custa de qualquer sentido de tensão ou perigo real. Também não ajuda que as acções das personagens, tal como o seu desenvolvimento, sejam apenas esboços suficientes para impelir a narrativa para caminhos previsíveis, antecipando-se a cada momento os desenvolvimentos de uma história da qual se vêm as costuras e os pontos de colagem, tal como num boneco de fraca qualidade.

Aubrey Plaza coloca de lado a sua persona e tenta construir uma personagem verosímil com muito pouco, Brian Tyree Henry é uma presença reconfortante em cena, mas fugaz e quase inconsequente, e Mark Hamill diverte-se notoriamente a dar voz a Chucky. Infelizmente, O Boneco Diabólico não está interessado nas suas personagens nem na possibilidade de sátira que a própria premissa promete mas não cumpre. Na verdade, é difícil perceber em que é que estará interessado, fora o óbvio, como os segundos finais dão a entender.

Review overview

Summary

"O Boneco Diabólico" não está interessado nas suas personagens nem na possibilidade de sátira que a própria premissa promete mas não cumpre. Na verdade, é difícil perceber em que é que estará interessado.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
2 10 mau

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Written by António Araújo

António Araújo

Cinéfilo, mascara-se de escritor nas horas vagas, para se revelar em noites de lua cheia como apaixonado podcaster.

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