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No Coração da Escuridão

de Paul Schrader

muito bom

O regresso à forma de Paul Schrader, por entre Bergman, Bresson… e Taxi Driver.

 

Paul Schrader é um daqueles autores de quem se espera sempre mais do que aquilo que nos apresenta. Ficando marcado como figura de proa da Nova Hollywood, assinando argumentos de peso para realizadores como Martin Scorsese – Taxi Driver (1976) e Touro Enraivecido (Raging Bull, 1980) – e Brian De Palma – Obsessão (Obsession, 1976) –, Schrader nunca atingiu o mesmo brilho como realizador, mesmo que nos tenha dado um dos filmes mais icónicos dessa geração, American Gigolo (1980), mas após um início de carreira interessante, veio-se perdendo em projectos muito abaixo das expectativas, como é exemplo o decepcionante Como Cães Selvagens (Dog Eat Dog, 2016).

É por isso, quase uma surpresa que, quando é anunciado um novo filme que pode ser o relançamento da estrelinha de Schrader… as expectativas se confirmam.

Mais uma vez escrito pelo próprio, No Coração da Escuridão (First Reformed) leva-nos para uma pacata comunidade do Estado de Nova Iorque, onde se respira ainda a influência dos pioneiros que construíram a América, em nome da pureza religiosa. Aí, numa igreja em estilo colonial holandês, que celebra os 250 anos, vive, retirado do mundo, o pastor Ernst Toller (Ethan Hawke), o qual carrega muitos demónios do seu passado, materializados numa doença que ele se recusa a aceitar. Quando uma paroquiana (Amanda Seyfreid), o põe em contacto com o marido (Van Hansis) em depressão por causa do estado do mundo, o pastor deixa que tudo isso o contagie, e entre desastres ambientais, hipocrisia humana, relações ambíguas entre quem está acima de si e, claro, a tristeza que carrega por perdas no seu passado, Toller vai pôr tudo e todos em causa.

Com uma estética que lembra de imediato Luz de Inverno (Nattvardsgästerna, 1963), de Ingmar Bergman – note-se a arquitectura da própria igreja, os seus interiores lúgubres, e o enredo da esposa que quer ajuda espiritual para o marido –, e um tom de austeridade confessional que recorda Diário dum Pároco de Aldeia (Journal d’un curé de champagne, 1951), de Robert Bresson, No Coração da Escuridão vai-se revelando uma espécie de Taxi Driver dos nossos dias, de preocupações ambientalistas, onde, mais uma vez, demónios internos, e um desajuste a um mundo que caminha num sentido muito questionável, vão lançar o protagonista na necessidade de uma redenção catártica e de natureza trágica.

Com um Ethan Hawke visceralmente doentio e uma narrativa onde a aparente beatitude e a beleza natural nos conduzem para um lado silenciosamente sombrio, a Schrader consegue um filme que é um verdadeiro murro no estômago, oprimindo e sufocando o espectador à medida que a história avança.

Rejubile quem sempre o esperou. O grande Paul Schrader está de volta.

Review overview

Summary

Retratando uma comunidade onde o rigor religioso esconde a hipocrisia humana, No Coração da Escuridão é um murro no estômago que nos fala de um padre em ruptura com o sistema, e com afinidades com o Travis Bickle de Taxi Driver.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

Comentários