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Nico, 1988

de Susanna Nicchiarelli

muito bom

Em diversas ocasiões de “Nico, 1988” é possível observarmos a personagem do título a tragar cigarros, inclusive durante a preparação ou a realização de concertos. É algo que adensa o mistério em volta desta figura, bem como a sua apetência pelos prazeres efémeros ao mesmo tempo que realça a fugacidade da vida e exacerba uma sensação de finitude. Essa sensação de término é assinalada desde logo pelo título do filme, pronto a realçar o último ano da vida de Christa Päffgen (Trine Dyrholm), mais conhecida como Nico. Diga-se que nos momentos iniciais do filme encontramos a artista em Ibiza, a fumar, enquanto o fumo dos cigarros esvoaça pelo cenário e desaparece, quase que a realçar que estamos perante o aproximar do final da vida da artista. O enredo logo recua para 1986, com a realizadora Susanna Nicchiarelli a acompanhar os últimos dois anos da vida da cantora, enquanto vagueia pelas franjas do road movie e do filme biográfico. É uma decisão que permite fugir às convenções dos biopics que procuram abordar um período demasiado alargado da vida das figuras retratadas, enquanto deixa que Trine Dyrholm componha uma Nico dotada de complexidade, personalidade e presença em palco. 

Trine Dyrholm foge à mera mimetização e constrói uma personagem aparentemente pouco preocupada com aquilo que pensam de si, que prefere falar do presente e não reverencia o passado, enquanto viaja de território em território em busca de um som ideal e de se reencontrar com o filho (Ari, interpretado por Sandor Funtek). Susanna Nicchiarelli é fiel aos ideais e ideias da protagonista ao não focar as atenções no período Velvet Underground, ou nos homens que marcaram a vida desta mulher e foram marcados pela mesma. Não faltam trechos de Nico a expor o seu enfado perante as entrevistas que se focam excessivamente no passado, ou a dessacralizar os tempos em que foi modelo e fez parte dos Velvet Underground. Diga-se que Susanna Nicchiarelli não tem problemas em expor o lado mais errático da protagonista, seja o vício pelas drogas, ou alguns actos problemáticos nos concertos, algo que atribui espessura a esta personagem que apresenta uma postura que varia entre a vulnerabilidade e a arrogância, que tanto tem de sensível como de egoísta, ou seja, é uma protagonista complexa e dotada de humanidade. 

Estamos diante de uma figura intrincada, que nem sempre desperta empatia e procura evitar o glamour do passado, algo que a conduz a descurar a imagem de modelo, enquanto viaja acompanhada pelos elementos da sua banda, bem como por Richard (John Gordon Sinclair), o seu agente e amigo pessoal. John Gordon Sinclair incute um tom calmo a este personagem, um indivíduo que admira Nico e procura agendar alguns concertos para esta mulher. Entre viagens por Inglaterra (Manchester), França (Paris), Itália (Anzio), Checoslováquia (Praga) e Alemanha (Nuremberga), “Nico, 1988” deixa-nos diante de alguns fragmentos da fase final da vida da cantora, bem como destes espaços. Diga-se que nem todos estes cenários distintos são aproveitados na justa medida, embora os episódios em Praga funcionem com enorme precisão, ou não ficássemos perante as especificidades políticas da época, bem como de um enérgico momento musical em que a música (a canção “My Heart is Empty” é conjugada na perfeição com o estado de espírito da personagem principal), a euforia do público e o facto das autoridades locais pretenderem cancelar o espectáculo contribuem para trazer alguma verve a este pedaço magnífico da obra. 

A saída de Praga e da República Checa é marcada ainda por outro dos momentos mais marcantes do filme, nomeadamente, quando Nico e a sua equipa abandonam o território de carro. A música “Big in Japan” sai do veículo para o filme, enquanto os rostos cansados e ressacados de elementos como Nico exibem uma profusão de sentimentos, sobretudo quando se deparam com os rituais do dia dos mortos, algo que os confronta com a mortalidade e realça as preocupações da cantora em relação a Ari. Se em Praga encontramos Nico a exibir que aprecia ser acarinhada pelo público e consegue expressar-se através da música, já em Itália somos colocados perante outra vertente da artista, com esta a apresentar uma atitude pouco profissional e irascível ao terminar abruptamente um concerto devido a estar irritada com a banda. Os vários elementos da banda são expostos com poucas pinceladas, um pouco à imagem das dinâmicas destes com a cantora, com o elenco secundário a nem sempre ter grande espaço para compor personagens dotados de dimensão. Um desses casos é o de Sylvia (interpretada pela talentosa Anamaria Marinca), a violinista do grupo, uma artista que sabemos que é talentosa devido a ouvirmos alguns elogios ao seu trabalho, embora isso raramente seja exibido na prática.

É certo que ainda encontramos Sylvia a envolver-se com Alex, um membro da banda completamente viciado em drogas, bem como com o filho de Nico, embora as duas subtramas por vezes pareçam dois corpos estranhos que nunca são totalmente integrados e desenvolvidos no interior do enredo. Uma das excepções de personagens secundários com algum espaço de destaque é Domenico (Thomas Trabacchi), um italiano que admira Nico e forma com esta uma ligação de alguma proximidade ao ponto de se juntar à equipa e ao grupo. Pelo caminho ficamos ainda na presença de uma série de espectáculos musicais, com a iluminação, o guarda-roupa e a cinematografia a procurarem aludir ao ambiente da época. Um dos momentos musicais que ficam na memória tem lugar quando Nico canta “Nature Boy”, com a canção a remeter para os sentimentos da cantora e a ser habilmente colada com o trecho seguinte, nomeadamente, a reunião da protagonista com o filho no hospital (os raccords sonoros são utilizados de forma sublime durante o filme).

Os diversos episódios são entrecortados em alguns momentos por trechos do passado de Nico, muitos deles expostos com recurso a imagens de arquivo que permitem colocar em contacto dois tempos distintos da vida da cantora. Note-se as cenas que envolvem os ensaios de Nico em França, com estas a serem eficazmente cruzadas quer com flashbacks de Ari a ingerir bebidas alcoólicas quando ainda era um petiz, quer com vídeos de arquivo. Diga-se que a pouca atenção que Nico deu ao filho e as preocupações com as tendências suicidas do jovem são assuntos que assolam a mente da protagonista e são abordados com algum acerto ao longo do filme, tal como o vício que esta tem pelas drogas e a sua postura despreocupada com o visual e com as regras de etiqueta. Veja-se os episódios em que a encontramos a injectar-se, ou um momento em que nos deparamos com a cantora a falar enquanto mastiga esparguete à bolonhesa. Dotado de algumas liberdades criativas e uma estrutura fragmentada, “Nico, 1988” é filme com imensa personalidade, que conta com o toque pessoal de Susanna Nicchiarelli e beneficia imenso da interpretação notável de Trine Dyrholm.

Review overview

Summary

Dotado de algumas liberdades criativas e uma estrutura fragmentada, "Nico, 1988" é filme com imensa personalidade, que conta com o toque pessoal de Susanna Nicchiarelli e beneficia imenso da interpretação notável de Trine Dyrholm.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários

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