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Neste Canto do Mundo

de Sunao Katabuchi

muito bom

 Tendo maioritariamente como pano de fundo os territórios japoneses de Kure e Eba entre 1933 e 1946, “Kono sekai no katasumi ni” (Neste Canto do Mundo) deixa-nos perante aqueles que lidam de perto com os efeitos da Segunda Guerra Mundial. O contexto histórico que envolve os personagens poderia contribuir para que o realizador Sunao Katabuchi decidisse enveredar por caminhos excessivamente melodramáticos. No entanto, aquilo que este consegue é algo bem mais fascinante e impressionante, com o cineasta e a sua equipa a conseguirem construir um filme de animação dotado de esperança, que balanceia com enorme acerto os momentos mais dramáticos com as situações de maior leveza. Pelo caminho, Sunao Katabuchi explana a realidade deste período, seja através do guarda-roupa ou dos hábitos dos personagens, ou do modo como a entrada do Japão na II Guerra Mundial começou a afectar o quotidiano de cada um e do território. Alguns episódios são pontuados por uma enorme delicadeza e subtileza, embora, em vários momentos, os bombardeamentos ou a entrada em cena de um clarão tragam consigo a destruição e o perigo, com os acontecimentos históricos a serem expostos e incluídos de forma precisa no interior da história dos personagens

No centro do enredo está Suzu (Rena Nônen), uma jovem sonhadora. Esta tem um grande talento para o desenho, uma afabilidade contagiante e uma aparente fragilidade que esconde uma enorme força interior. A partir do momento em que se foca em algo, Suzu esquece praticamente tudo aquilo que a rodeia, enquanto deixa a sua mente viajar pelos meandros da ilusão. Os momentos iniciais do filme servem para apresentar algumas destas características da protagonista, bem como o meio em que habita, em particular, a sua casa, em Eba (Hiroshima), onde vive com os pais (Masumi Tsuda como Kiseno e Tsuyoshi Koyama como Juro) e os irmãos. Esta mantém uma relação algo afastada com Yoichi, o irmão mais velho, embora seja próxima de Sumi (Megumi Han), a irmã, algo notório quando as encontramos a partilharem alguns momentos de maior leveza, ou proximidade. Em Abril de 1943, ainda com dezoito anos de idade, Suzu é pedida em casamento por Shusaku (Yoshimasa Hosoya), um indivíduo um pouco mais velho, com quem partilhara um episódio peculiar, embora já nem se lembre do semblante deste último. Embora não conheça bem o noivo, a jovem aceita o pedido de casamento, indo viver para a casa do primeiro e dos sogros, em Kure (também em Hiroshima), onde se depara com um espaço muito marcado pela presença da marinha e das embarcações militares, algo exposto com acerto. 

Shusake trabalha como oficial de justiça no tribunal militar de Kure, tem uma personalidade calma e ama a esposa. Esta começa a formar uma proximidade notória com o marido, com “Kono sekai no katasumi ni” a desenvolver a relação do casal de forma delicada e a despertar a nossa simpatia para com estes dois elementos. Quem também passa boa parte do tempo com estes personagens é Keiko (Minori Omi), a irmã mais velha de Shusake, uma viúva com uma personalidade forte e uma independência pouco vista na época (algo que permite expor um Japão entre a tradição e a modernidade). De salientar ainda que Keiko é mãe de Harumi, uma jovem com cerca de seis anos de idade, bem como de Hisao, com quem passa pouco tempo, já que o rapaz vive com os avós paternos. As dinâmicas desta família são expostas e desenvolvidas com eficácia e credibilidade, com Sunao Katabuchi a colocar-nos perante diversos momentos do quotidiano destes elementos e dos esforços que estes efectuam para lidar com as transformações que afectam as suas rotinas diárias, algo que permite a criação de uma certa sensação de proximidade entre o espectador e os personagens. Diga-se que essa afinidade e simpatia que sentimos pelos personagens a espaços também contribui para a formação de uma sensação de receio ou angústia, nomeadamente, devido a sabermos que a passagem do tempo simboliza um aumentar dos perigos para Suzu e a sua família.

A partir de um determinado momento de “Kono sekai no katasumi ni”, começamos a assistir a uma intrusão cada vez mais alargada da II Guerra Mundial na vida destes personagens. Veja-se os racionamentos, ou a necessidade que a protagonista tem de se deslocar ao mercado negro, ou o modo agressivo como os militares proíbem que Suzu desenhe navios japoneses, ou a partida de diversos elementos para o conflito. Sunao Katabuchi deixa-nos perante aqueles que não pediram para entrar na II Guerra Mundial, que assistem ao conflito a partir do ponto de vista nipónico e lidam com a destruição do território e com a morte daqueles que são próximos, algo que conduz a que a melancolia, o drama e a tristeza estejam muito presentes ao longo do filme. Não faltam disparos inimigos vindos dos céus, notícias de soldados mortos e um clarão que traz consigo a destruição, tal como a presença de bombas ao retardador, ou seja, um conjunto de ingredientes que remetem para os perigos que envolvem os personagens. Tudo é exposto com uma mistura de simplicidade e complexidade, algo particularmente notório quando observamos os sentimentos contraditórios da protagonista em relação à morte de um personagem, ou o episódio em que esta revê Tetsu (Daisuke Ono), um amigo de infância com quem partilhara um momento especial.   

No presente, Tetsu cumpre serviço militar no Aoba, um cruzador japonês, com o reencontro com Suzu a ser marcado por uma enorme carga emocional. Diga-se que o argumento não poupa nos episódios em que os personagens são colocados diante de dilemas intrincados, embora também tenhamos trechos pontuados por alguma ternura. Observe-se o momento em que encontramos a protagonista com o esposo na entrada de um abrigo, ou a terna amizade que a primeira forma com Harumi. Existe sempre alguma candura a envolver os comportamentos e os actos de Suzu, inclusive quando esta está a pintar ou a utilizar a sua imaginação, com estas características da personagem a serem exemplarmente colocadas em diálogo com diversos episódios de “Kono sekai no katasumi ni”, tais como a ocasião em que as ondas tomam a forma de coelhos, ou o momento onde os disparos transformam-se em tinta, entre outros exemplos que exibem ainda o cuidado e a criatividade de Sunao Katabuchi e da sua equipa. Esse cuidado é realçado não só por todo um estilo semelhante às pinturas em aguarela, que contribui para corroborar a delicadeza que envolve o enredo, mas também pela capacidade da equipa de animação em transmitir as características dos territórios e as suas transformações com o avançar da II Guerra Mundial

Como conviver com esta realidade? Será possível manter a esperança diante de um cenário tão desanimador? Suzu começa aos poucos a lidar com as consequências nefastas do conflito e a perder um pouco da sua inocência, embora mantenha o seu lado delicado e afável, algo reforçado pelo trabalho de Rena Nônen. O elenco vocal é bastante competente. Note-se a intensidade e a humanidade que Minori Omi insere a Keiko, ou a segurança e o conhecimento que Mayumi Shintani e Shigeru Ushiyama incutem aos pais de Shusake. Inspirado na manga “Kono sekai no katasumi ni”, o argumento de Sunao Katabuchi e Chie Uratani também tem espaço para sobressair, seja na construção dos personagens e das suas ligações, a inserir os elementos relacionados com a II Guerra Mundial de forma gradual e homogénea no interior do enredo, a explorar as especificidades da época, ou a dosear os diferentes registos do filme. “Kono sekai no katasumi ni” balanceia entre o humor e o drama, a esperança e a desesperança, a euforia que resulta em sorriso e a tristeza que redunda em choro, com Sunao Katabuchi a ter aqui um delicado e envolvente pedaço de cinema.

Observação: Filme exibido na edição de 2018 da Monstra.

Review overview

Summary

"Kono sekai no katasumi ni" balanceia entre o humor e o drama, a esperança e a desesperança, a euforia que resulta em sorriso e a tristeza que redunda em choro, com Sunao Katabuchi a ter aqui um delicado e envolvente pedaço de cinema.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

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