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[MOTELX 2019] Midsommar – O Ritual

de Ari Aster

mediano

Reputado como o novo The Wicker Man, o mais recente filme de Ari Aster segue-lhe as pisadas, sem trazer nada de novo, a não ser um catálogo de macabro que parece não ter fim.

 

Depois da aclamação geral que teve pelo filme Hereditário (Hereditary, 2018), Ari Aster – convidado de honra da edição de 2019 do MOTELx – tornou-se um nome a seguir, pelo que o seu recente Midsommar – O Ritual (2019) é um dos filmes mais esperados deste ano, continuando na senda do chamado folk horror, isto é um subgénero de terror ligado a cultos ou bruxarias que remete para lendas rurais pejadas de folclore e tradicionalismo.

Passa-se Midsommar – O Ritual (festividade sueca que celebra o solstício de Verão), como o título indicia, na Suécia rural, numa comunidade isolada, onde alguns estudantes americanos e ingleses vão passar uns dias, seja em busca de material para teses de antropologia, seja simplesmente para acompanhar os amigos num Verão diferente. Mas, como não poderia deixar de ser, o ar idílico, de comunhão com natureza, de regresso a uma vida simples e a muita generosidade dos anfitriões, depressa começam a ganhar contornos estranhos que vão evoluir para o macabro à medida que os dias passam.

Com clara inspiração em clássicos como O Sacrifício (The Wicker Man, Robin Hardy, 1973), Ari Aster construiu um filme que remete imediatamente para o sentido de estranheza de quando cidadãos da grande cidade viajam para o remoto campo, e tentam aceitar as peculiaridades locais. Com o pedigree que o género tem, estamos, desde o início, despertos para o facto de que nem tudo será tão idílico como o prometido no início da narrativa, e de que aos poucos o macabro se tornará corriqueiro na vida de uma comunidade diferente, e por isso ameaçadora.

Nesse sentido fica sempre a pergunta se este subgénero não será ele próprio um resultado de um preconceito urbano e “moderno”, onde a nossa dissociação da natureza se tornou tal ao longo dos últimos dois séculos, que tudo o que lembre as nossas origens deva ser renegado com tendo bases criminosas. Seja como for, está aí pasto fértil para uma renovada corrente de terror, e Aster (que também é autor dos seus próprios guiões) viu nela uma forma de actualizar a mensagem que nos anos 60/70 ganhou popularidade graças ao fenómeno hippy que tinha a sua forma peculiar e alienante de procurar o regresso à natureza.

Mas se Midsommar – O Ritual começa bem, explorando um grupo de amigos algo disfuncional que vai para a Suécia sem saber bem no que se irá meter, a meio sente-se que Aster perde um pouco o pulso ao objecto que está a criar. Se as discussões iniciais, criação da história pessoal e chegada à Suécia, com toda a fotografia lindíssima e o quase workshop de planos que Aster nos dá (veja-se os planos-sequência em que há revoluções de 360 graus sempre em movimento) é aceitável na criação de algo que se quer emblemático, aos poucos vamos sentindo que a forma e a necessidade de empacotar sempre algo mais tornam o filme um manancial de fórmulas, imagens e momentos, onde a narrativa já se perdeu, e parecemos estar a construir um compêndio exaustivo do que pode ser um culto, em todos os seus mais absurdos e patéticos momentos.

Fazendo jus ao seu subtítulo português, o filme parece querer tornar-se ele próprio um ritual, onde tudo nele é exagero e folclore, como se Aster estivesse a criar um culto, mais que um filme.

Repita-se que a fotografia impecável, o ritmo lento, a criação de tensão e o macabro não decepcionarão quem disso for à procura, mas Ari Aster apaixonou-se demais pela sua obra, perdendo-se em dinâmicas adolescentes que parecem ser de uma série da MTV, e não sabendo quando parar nem como equilibrar quando tinha sempre mais um exemplo sinistro para mostrar. Foi pena, pois assim corre o risco de se juntar a parceiros como Christopher Nolan ou Darren Aronofsky, capazes das melhores ideias e das técnicas mais originais, para depois as afogarem por não dominarem essa qualidade tão elusiva que é a subtileza.

Review overview

Summary

Prosseguindo a sua visão pessoa de folk horror, Ari Aster dá-nos em Midsommar – O Ritual um filme que tenta ser um compêndio do género, apaixonando-se tanto pela forma e pelas formas de gerar o macabro que se esquece da narrativa ou da subtileza necessária para criar o clássico que tanto procurou.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
2.5 10 mediano

Comentários