Share, , Google Plus, Pinterest,

Print

Posted in:

[MOTELx 2016] Shelley

de Ali Abbasi

bom

Primeira longa-metragem do iraniano Ali Abbasi, Shelley leva-nos para a remota paisagem natural escandinava, onde a ideia de uma gravidez de aluguer é ao mesmo tempo sinal de distância entre dois mundos, e metáfora perturbadora para as transformações viscerais e psicológicas no corpo humano.

 

Produção escandinava, com dinheiro dinamarquês e actores da Suécia, Dinamarca, Noruega e Roménia, dirigidos por um realizador iraniano, Shelley é a primeira longa-metragem do jovem Ali Abbasi. Com nome inspirado na autora de Frankenstein, Abbasi filma, a um ritmo tranquilo, espelho das idílicas paisagens naturais da floresta e lagos escandinavos, um conto perturbante onde é basicamente a nossa imaginação a preencher os pontos de um horror anunciado.

Tudo começa quando a jovem Elena (Cosmina Stratan) é contratada para ajudar na casa de campo de Louise (Ellen Dorrit Petersen) e Kasper (Peter Christoffersen). Imigrante romena, Elena vem disposta a trabalhar no estrangeiro como dona de casa, para ganhar o suficiente para proporcionar uma casa ao filho pequeno que deixou em Bucareste. É acolhida por um casal simpático que a faz sentir parte da família, apesar do isolamento de uma vida na floresta, sem electricidade ou água canalizada. A relação leva a que Louise proponha que Elena carregue o filho que ela não pode gerar no seu ventre. A jovem empregada aceita, e a sua vida mudará daí em diante.

Talvez o mais fantástico que acontece na história de Shelley é que, de certo ponto de vista, nada de fantástico acontece. Isto é, talvez todos os elementos perturbantes sejam simplesmente fruto da nossa imaginação, sugestionada pelo que Ali Abbasi nos quer fazer sentir. Há claras referências a outros filmes. O cão misterioso e recurso ao naturalismo (com protecção de um «xamã») evocam O Génio do Mal (The Omen, 1976) de Richard Donner, a gravidez com estranhos sintomas lembra A Semente do Diabo (Rosemary’s Baby, 1968) e a reclusão no meio do nada, como pasto para crescente paranóia traz à memória Shining (The Shining, 1980) de Stanley Kubrick. Ali Abbasi sabe isso, e usa-o para nos sugestionar algo que talvez nem esteja lá.

Visto por outro prisma, o horror de Shelley é puramente psicológico, proveniente uma ideia tão simples quanto assustadora: as transformações numa mulher (e depois por inerência, numa família) aquando de uma gravidez. Esta é vista como uma invasão e perda de controlo perante uma entidade desconhecida e transformadora, como o é cada novo ser. É com isso que Ali Abbasi joga, aumentando lentamente, cena a cena, o clima de desconforto e paranóia de Elena, a partir de cujos medos passamos a ver a dita gravidez.

Tudo isto é nos é mostrado num ritmo tranquilo, quase nos dessensibilizando pelos afazeres banais do quotidiano, mostrados em flashes de sequências curtíssimas, numa montagem rápida, filmados muitas vezes com handicam, em planos muito próximos dos actores. O resultado é uma crescente sensação de desconforto, para a qual concorre também a excelente mistura sonora, e claro, as interpretações das duas protagonistas femininas, seguras, serenas, mas intensas, num filme que é uma metáfora de desconforto e transformação interna tão psicológica como real e visceral.

Resumo da crítica

Summary

Com uma piscadela de olho a A Semente do Diabo, Shelley é uma perturbadora metáfora de transformação corporal e psicológica proveniente do mistério da gravidez, num drama intenso onde a presença sobrenatural é um dado deixado à nossa imaginação.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3 10 bom

Comentários

Share, , Google Plus, Pinterest,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *