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[MOTELx 2016] O Segredo das Pedras Vivas

de António de MAcedo

muito bom

Numa aldeia alentejana, um arquitecto prepara a construção de uma casa num terreno onde existem milenares megálitos. Tal vem trazer instabilidade à região, apegada às tradições e crente em crenças pagãs, num filme de António de Macedo, reconstruído a partir da sua série televisiva de 1992, O Altar dos Holocaustos.

 

Em 1992, a RTP produzia a série de três episódios O Altar dos Holocaustos, realizada por António de Macedo, como uma rara incursão do cinema português no mundo do fantástico. O resultado tinha mais de 150 minutos, mas fora sempre intenção do realizador torná-la um filme para cinema. Sendo a gestão do espólio da RTP um assunto mais fantástico que qualquer obra de ficção, só muito recentemente houve luz verde para se voltar a olhar para o material de então.

Foi isso que António de Macedo fez, trabalhando sobre a fita original, refazendo a sua obra, que estreou agora sob o título O Segredo das Pedras Vivas (2016), após um delicado trabalho de montagem e restauração de som e imagem.

Proveniente do chamado Cinema Novo Português, António de Macedo, que se estreou com um dos filmes-chave desse período, Domingo à Tarde (1965), seria co-fundador das cooperativas Centro Português de Cinema (1970) e Cinequanon (1974), que marcaram o cinema português dos anos 70. Nunca foi, no entanto, um realizador que se deixasse prender às correntes mais formais que levavam ao cinema de arte de então, diversificando a sua carreira, logo desde o seu policial Sete Balas para Selma (1967), filmando obras que passam pelo romance histórico, fantástico, e ficção científica. Caro a António de Macedo, foi sempre a investigação sobre a religiosidade, nomeadamente na etnografia portuguesa, tema que viria a ser explorado nalguns dos seus filmes.

É o caso de O Segredo das Pedras Vivas, uma obra que olha para o megalitismo do Alto Alentejo, e funciona como um ensaio sobre a presença de alguns desses monumentos pré-históricos na vida das populações, seja como identidade cultural, como veículo de algo místico que antecede a nossa nacionalidade, ou como obstrução às intenções dos proprietários.

Com o enredo centrado sobre a construção de uma mansão pelo arquitecto Júlio Veiga (Manuel Cavaco) criam-se vários pólos opostos. De um lado o rico proprietário José Vitorino (Carlos Coelho), que quer despedregar os seus campos, à revelia das autoridades, para plantar eucaliptos, do outro a população, desde a benévola Augusta (Fernanda Alves), dona da pensão local e que ajuda a população com rezas e mezinhas, quando o posto de saúde mais próximo fica a dezenas de quilómetros, passando às suas filhas Rosália (Eugénia Bettencourt) e Rosinda (Maria d’Aires) querendo tomar em mãos rituais pagãos, até ao Professor Januário (Rui Pedro), estudioso da superstição local. No meio está o padre Cunha (Luís Lucas), condenando a superstição, mas tentando ajudar o povo. Uma relação ilícita entre o filho de José Vitorino (André Gago) e Rosinda, escondidos nas antas, e sob disfarces teatrais, ajuda a aumentar o lado de mistério que toma conta do trabalho do arquitecto, entretanto acompanhado pela sua esposa (Helena Isabel).

A situação complica-se perto do Solstício de Inverno, quando uma estranha maleita parece querer vitimar todas as crianças da região, a qual fica isolada do exterior. Só a conjunção de esforços, respeito mútuo e pela tradição dos megálitos poderá salvar a aldeia.

Padecendo de alguns males, sente-se em O Segredo das Pedras Vivas como que uma fuga para uma caricaturização telenovelesca. As consequências da nova montagem que tornam também algumas histórias supérfluas, como por exemplo as mágoas de Henriqueta, a relação de Mário e Rosinda e o aparecimento do irmão do padre Cunha. Mas no que tem de melhor, ficam os diálogos, o ritmo de mistério, e um olhar honesto para a etnografia e uso de tradições (e até pessoas e lugares) populares.

O resultado é uma história empolgante, e ainda actual, da luta pela preservação do património contra interesses económicos, não esquecendo o paganismo ainda enraizado, mesmo que envergonhadamente disfarçado, nas tradições de algumas regiões do país.

Resumo da crítica

Summary

Mesmo padecendo de alguns males dada a sua vocação televisiva, O Segredo das Pedras Vivas é um importante marco no cinema fantástico português, com um pé no levantamento etnográfico, e a pertinência do tema ainda actual da preservação do património e identidade cultural.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários

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