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[MOTEL/X 2018] Entrevista a Oliver Kienle sobre Die Vierhändige (Four Hands)

O realizador Oliver Kienle esteve em Portugal para apresentar “Die Vierhändige” na edição de 2018 do MOTELx. A Take Cinema Magazine teve a oportunidade de entrevistar o realizador e efectuar questões relacionadas com a colaboração de Kienle com Yoshi Heimrath, o trabalho com Frida-Lovisa Hamann e Friederike Becht, entre outras perguntas.

Take Cinema Magazine: Num determinado momento do filme, encontramos a protagonista coberta pela luz vermelha de um carro, em plena noite, diante de uma das assaltantes, com a iluminação e a tonalidade encarnada a acentuarem a inquietação que acompanha o trecho mencionado. Um dos elementos de “Die Vierhändige” que mais despertou a minha atenção é a utilização precisa da iluminação, seja para potenciar a tensão como no exemplo mencionado, ou para atribuir uma atmosfera aparentemente calorosa como no trecho da audição de Sophie. O quanto existe de si e do trabalho de Yoshi Heimrath nesta utilização precisa da iluminação? Pode falar-nos um pouco da construção desta cena em que a tonalidade vermelha assume alguma preponderância?

Oliver Kienle: O Yoshi é um director de fotografia extremamente ambicioso e hábil. Trabalhámos em estreita colaboração para superarmos os desafios financeiros inerentes a este projecto. Precisávamos de soluções muito eficazes para criarmos emoções cinematográficas fortes. As restrições (financeiras) por vezes não só são um desafio, mas também uma oportunidade de encontrarmos novas formas de narração cinematográfica. O nosso objectivo foi criar dois mundos cinematográficos — o de Sophie, a protagonista, que é um mundo quente, com formas arredondadas e arquitectura antiga — e o de Jessica, a antagonista, que é um mundo frio, com formas quadradas e arquitectura industrial. A Sophie representa o género do thriller psicológico, enquanto a Jessica representa mais o género do thriller de vingança. Ao longo do filme, estes dois mundos fundem-se cada vez mais, algo que também podemos observar a partir do guarda-roupa e da maquilhagem.

TCM: As dinâmicas entre Sophie e Jessica são desenvolvidas de forma muito particular e enigmática, sendo pontuadas por ausências que persistem em assumir uma enorme presença. Quais foram os maiores desafios que encontrou a desenvolver esta ligação muito particular entre as duas personagens? O que une e separa este yin e yang?

OK: Para mim, “Die Vierhändige” é a história de uma alma traumatizada. Um trauma pode separar uma mente em duas partes diferentes. As duas irmãs representam os dois lados distintos de uma alma traumatizada. Uma parte pretende esquecer, olhar para o futuro, apaixonar-se e ter uma vida normal. A outra parte está constantemente a olhar para trás, não quer esquecer o trauma horrível, fica paranóica e procura vingança. Penso que o yin e yang nesta história é que esses dois lados estão juntos, eles têm que se aceitar e têm que aprender a comunicar entre si. Só então é que a alma se pode curar. Eu queria dar ao público a sensação de que é impossível separar esses lados ou um ver-se livre do outro.

TCM: Podemos falar de duas almas separadas que se procuram reunir ou de uma personagem que padece de transtorno dissociativo de identidade? Como surgiu a ideia de abordar esta doença?

OK: Bem, acho que ambos. Por um lado temos o aspecto psicológico de uma pessoa agir como se fosse duas pessoas diferentes. Mas, por outro lado, como mencionei anteriormente, também deve ser encarado como uma metáfora relacionada com uma alma dividida. A inspiração para o filme veio da minha própria terapia relativamente a um trauma, algo pelo que tive de passar e contra o qual ainda estou a lutar.

TCM: Tanto a Frida-Lovisa Hamann como a Friederike Becht contam com interpretações muito competentes. O que é que cada uma das intérpretes trouxe às personagens? Pode falar-nos um pouco do processo de construir a Sophie e a Jessica com as duas actrizes?

OK: Uma vez que foi o primeiro filme de Frida-Lovisa (Sophie), foi um trabalho intenso e inspirador. Adoro trabalhar com jovens actores que ainda são moldáveis, curiosos e têm uma atitude própria de quem não tem nada a perder. A Friederike (Jessica) tem muita experiência, mas nunca interpretou uma personagem tão negra, agressiva e repressora. O trabalho com Frida foi muito psicológico, enquanto o trabalho com Friederike foi muito físico. Isso combinou muito com a minha visão do filme: a Sophie (Yin) representa um thriller psicológico, enquanto a Jessica (Yang) representa um thriller de vingança.

TCM: A música e alguns sons específicos contribuem em diversos momentos para acentuar as diferenças dos mundos por onde as duas irmãs se movimentam. Por exemplo, os ritmos cadenciados do piano associados a Sophie em contraste com a música agressiva de uma discoteca onde Jessica procura por clorofórmio. A utilização da música diegética e não diegética e desses sons específicos como um meio para acentuar ou sublinhar estas especificidades foi uma ideia sua desde o início do desenvolvimento de “Die Vierhändige”, ou foi algo que resultou em colaboração com Heiko Maile e Markus Glunz?

OK: Bem, eu tive muitas discussões com o compositor Heiko Maile sobre como os dois mundos deveriam soar e parecer. Temos diversos contrastes como: thriller psicológico vs. thriller de vingança, Mozart (Sophie) vs. Beethoven (Jessica) e, claro, o som da música e como os temas se fundem cada vez mais durante o filme. Heiko começou a compor quando estávamos a filmar o filme. Assim, o nosso editor conseguiu trabalhar imediatamente com as ideias da partitura. Eu odeio trabalhar com música já existente, uma vez que destrói a visão do compositor. Eu gosto das ideias musicais que um compositor obtém quando lê o argumento. Quero a interpretação que os compositores têm da história.

TCM: Tal como você menciona no press kit do filme, a sua obra reúne ingredientes contrastantes como a dureza e a sensibilidade, a melancolia e a esperança. Quais foram os principais desafios que encontrou para reunir estes elementos na justa medida?

OK: Eu não o descreveria como um desafio, mas antes como algo inspirador. Estou convencido de que, se quiseres transmitir uma sensação de violência ao espectador, precisas de atribuir uma sensibilidade especial ao filme. Todo o filme é um narrador, muitas das vezes, mas nem sempre, representado pelo seu personagem principal. Quanto mais sensível é o personagem, mais dolorosa é a violência. Quanto mais melancólico é o personagem, mais libertador se torna quando este experimenta uma sensação de esperança.

TCM: Muito obrigado pelo tempo disponibilizado a responder às nossas questões.

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