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mãe!

de Darren Aronofsky

muito bom

Vendido como thriller sobrenatural, mãe! é mais uma página do obsessivo mundo alegórico-transcendente de Darren Aronofsky, assim como que um Cisne Negro ainda mais intenso e surreal.

 

Com apenas sete longas-metragens realizadas, Darren Aronofsky tem já uma obra tão cheia – e controversa –, que dir-se-ia ser mais extensa. Tal deve-se a uma presença autoral muito vincada no seu cinema, que faz com que, goste-se ou não da sua obra, Aronofsky não possa ser acusado de ser apenas mais um, no repetitivo espectro de cineastas norte-americanos. Prova desse cunho autoral, e da controvérsia a ele associado, é a sua mais recente obra mãe! (mother! – com inicial minúscula, e ponto de exclamação no título), com a qual Aronofsky se tenta redimir do fiasco do anterior Noé (Noah, 2014), e que começou por dividir violentamente as audiências do Festival de Veneza, onde o filme estreou.

Pretensiosamente alegórico, exercício de estilo forçado, irritantemente obsessivo, desnecessariamente complexo e sobretudo tremendamente excessivo, são alguns dos epítetos com que as críticas mais negativas têm brindado o filme, acusando o autor de um desmedido ego e mania de grandeza. Todos esses reparos são merecidos, mas seja-se ou não adepto das vias narrativas e estéticas de Aronofsky, uma coisa é certa, mãe! não deixará ninguém indiferente, nem fará ninguém negar que é um filme que ousa, arrisca, e manda o cinzento realismo às urtigas, o que é salutar vindo de uma major de Hollywood (Paramount), numa altura em que o cinema parece necessitar de explicar tudo e não ser mais fantasioso que um impresso das finanças.

Mas o que torna mãe! um objecto de interesse, tão contra-corrente no cinema norte-americano dos grandes estúdios? Em primeiro lugar a rédea solta para mais um explorar da espiritualidade segundo Aronofsky, aqui de mãos dadas a algum surrealismo, não hesitando em tornar a alegoria religiosa como tema central, ou em mascarar a sua história de camadas que devem ser descascadas pelo espectador, muito para além das duas horas da duração do filme. Nada disto é novidade em Aronofsky. A espiritualidade, a alteração da realidade, a obsessão e a alegoria são figuras centrais na sua obra. Só que aqui elas surgem ainda mais confiantes e proeminentes. Imagine-se o oscarizado Cisne Negro (Black Swan, 2010), mas mais intenso, mais surreal e mais alegórico. Quem dele gostou, irá provavelmente gostar de mãe!, quem não o apreciou, afaste-se do novo filme de Aronofsky!

Dizer mais que isto é correr o risco de dar spoilers. Só que, num filme desta natureza, os spoilers não estragam necessariamente a experiência. Diga-se portanto que mãe!, funciona a diferentes níveis. Começando pelo título, conduz-nos à eterna dicotomia masculino-feminino, onde a personagem de Jennifer Lawrence (sublime) é a proverbial mulher, força telúrica, de motivações prosaicas, ligada à casa, família, amor e vida, ao passo que o homem (Javier Bardem) representa a conquista, a necessidade de reconhecimento e a busca abstracta.

Num sentido mais transcendente, a «mãe» é a própria Terra (onde a cor amarela domina, do remédio de Jennifer Lawrence à cor que escolhe para a casa, e à própria fotografia), onde a casa que ela habita é o mundo (note-se que tudo se passa nela, e tudo nela se reflecte), e onde será responsável por vida, a qual provirá de Ele (maiúsculo de contornos divinos nos créditos finais), o criador, figura celestial que habita mais acima, naquele Olimpo de entrada proibida a todos. Neste sentido temos metáforas de falta de inspiração criadora, fogos mais ou menos divinos, e contínuos desrespeitos da mãe-natureza de consequências ambientais.

Mas há mais. Com referências judaico-cristãs, temos os primeiros ocupantes (Ed Harris e Michele Pfeiffer, como Adão e Eva), carnais, brutos, seres sexuais, cujos filhos parecem ser versões de Caim e Abel. Temos a adoração e martírio do Filho do Homem, o nascer transviado de uma religião e um apocalíptico fim do mundo, no que pode ainda ser visto como uma histeria de massas de natureza política. Se quisermos ainda, voltando ao título num dos ciclos que o filme encerra, mãe! é somente o ponto de vista materno, de quem sofre para criar um lar, uma vida, lutando pelo núcleo familiar quando tudo à volta parece incompreensão, distância e hostil invasão.

Temos tudo isto e muito mais, filmado com uma câmara sempre em movimento quase a lembrar o Dogma 95, em ângulos fechados, sugestão de terrores que são puramente psicológicos, e poucos planos que não tenham no seu enquadramento o rosto em close-up de Jennifer Lawrence, ou a sua perspectiva subjectiva (que ainda assim inclui quase sempre a sua nuca, ou uma mão ou braço quando se dirige a um objecto). Com uma claustrofobia crescente, uma tensão que, sem compreendermos, nos aflige, e um mar de acontecimentos que, se surreal, nos oprime, Darren Aronofsky não nos dá um segundo de descanso, quer graças à inquietude dos acontecimentos quer ao labirinto de ideias que eles nos sugerem a cada momento.

Desengane-se quem acredita em trailers e vai à procura de um banal thriller sobrenatural. Mas quem abrir um pouco mais o olhar, verá também isso, numa surreal invasão doméstica que parece começar em Buñuel e acabar em Dante. mãe! é excessivo – o seu maior defeito –, imperfeito, de uma pretensa grandiosidade onde nem tudo sempre resulta, com Aronofsky a querer meter demasiado dentro de um só filme. Mas ousa, arrisca e provoca, deixando-nos interpretações que não se fecham num só visionamento ou perspectiva. Como o mundo que alegoricamente ele encerra.

Review overview

Summary

Thriller psicológico alegórico-espiritual excessivo, o novo filme de Darren Aronofsky provoca e desafia, irritando quem não gosta da sua linguagem, mas passível de agradar a quem se deliciou com os universos paranoico-obsessivos de filmes como A Vida não é um Sonho ou Cisne Negro.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

Comentários