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[LEFFEST’17] The Disaster Artist

de James Franco

muito bom

The Disaster Artist é uma realização de James Franco sobre The Room, o pior filme de sempre que inspira animadas exibições desde a sua estreia em 2003

 

Para os iniciados que possam não conhecer a inspiração para The Disaster Artist, convém falar primeiro do filme The Room, de 2003. Escrito, produzido, realizado e interpretado por Tommy Wiseau, The Room tornou-se célebre — ou infame, dependendo do ponto de vista — pela gritante falta de competência a todos os níveis com que foi produzido, levando-o a ser distinguido com o duvidoso epíteto de «O pior filme de todos os tempos». No epicentro deste desastre está Wiseau, o cérebro responsável pelo projecto e uma figura enigmática e desprovida de talento que conseguiu reunir elenco e equipa para executar um filme que vai muito para além da sua falta de qualidade. Citando Tom Bissell, mais tarde co-autor do livro que relata os bastidores das filmagens e que serviu de base ao filme de James Franco: The Room «é como um filme feito por um extraterrestre que nunca viu um filme, mas a quem explicaram o conceito do que é um filme». Os diálogos não fazem sentido e os comportamentos das personagens nada devem à realidade. Bissell adianta: «Não é todos os dias que todas as decisões tomadas na realização de um filme aparentam ser a decisão errada.»

O nível de incompetência que se pode testemunhar em The Room é de tal forma transcendental que, em sessões regulares em Los Angeles, começou a formar-se uma pequena comunidade de espectadores que transformaram as exibições do filme em autênticos cultos a The Room, executando rituais decalcados das incompreensíveis cenas do filme. Em resposta ao aparecimento em cena de misteriosas molduras com fotografias de colheres, os espectadores atiravam colheres de plástico ao ecrã. Ou, em homenagem à cena em que o grupo de amigos vestidos de smoking troca uma bola de futebol americano entre si, espectadores levavam bolas para a sala de cinema e recriavam o constrangedor momento. Estas experiências tornaram The Room num genuíno objecto de culto, à imagem de Festival Rocky de Terror (The Rocky Horror Picture Show, Jim Sharman, 1975), neste caso transformando a sua mediocridade e incompetência numa celebração camp em que os intervenientes repetentes declamam todas as incongruentes linhas de diálogo em comunhão com a película.

Tommy Wiseau, que já foi apelidado de cajun, ciborgue croata, possivelmente belga ou dinamarquês, ou até talvez de outro mundo ou outra dimensão, nasceu na Polónia (isto na versão do IMDb; o próprio diz ter nascido em Nova Orleães, mas na verdade ninguém tem a certeza sobre a sua real origem) e carrega um sotaque tão carregado e indistinto que só os mais distraídos o poderiam confundir com o americano de gema por que se faz passar. No decorrer dos anos, abraçou o culto que se formou à volta do seu filme, afirmando agora tratar-se de uma comédia metafísica, o que contraria a seriedade e empenho com que pagou um reclamo gigante a publicitar o filme numa movimentada avenida de Los Angeles durante cinco anos, nem sequer o facto de, depois da reação atónita do público na estreia da película, Wiseau ter pago aos donos da sala para que o mesmo fosse exibido pelo menos durante duas semanas para se poder qualificar para as nomeações aos Óscares.

Dez anos depois da estreia de The Room, Greg Sestero, creditado como actor, produtor e um dos cinco(!) assistentes de Wiseau, lançou o livro escrito a meias com Tom Bissell The Disaster Artist: My Life Inside The Room, the Greatest Bad Film Ever Made. Não só este relato em primeira mão dos bastidores das filmagens e da sua relação com Wiseau veio contribuir para o culto contínuo do filme, como lançou os holofotes sobre o actor que passou a participar em sessões de exibição do filme ao nível mundial — por exemplo, Sestero esteve presente em Lisboa para as três exibições de The Room no cinema Nimas organizadas por Filipe Melo no passado mês de Outubro, onde participou em leituras de excertos do seu livro, em leituras do guião do filme e sessões de perguntas e respostas com o público. Ao adaptar o livro, James Franco e a dupla de argumentistas Scott Neustadter e Michael H. Weber adoptam o ponto de vista de Sestero, transformando-o no avatar do espectador numa tentativa de levantar, nem que só um pouco, o véu sobre o enigma Tommy Wiseau.

Greg Sestero, aspirante a actor, conhece Tommy Wiseau numa aula de interpretação. Sestero está perplexo pela técnica exagerada de actuação de Wiseau, pela sua aparência física invulgar, pelo seu sotaque não identificável e pelo comportamento excêntrico, que inclui um fascínio por uma visão algo ingénua da Americana, bem como uma recusa hostil em discutir o seu passado e as suas posses e recursos financeiros. Todavia, Sestero admira o entusiasmo genuíno de Wiseau pela vida e pela arte performativa. Os dois formam um vínculo estranho, mas genuíno, que floresce apesar das muitas contradições da personalidade de Wiseau. Depois de tentarem a sorte em Los Angeles, onde Wiseau não consegue disfarçar a inveja que sente pelos sucessos profissionais e pessoais de Sestero, os dois decidem produzir o seu próprio filme. Assente num misterioso, e aparentemente infinito, abastecimento de dinheiro, Wiseau escreve, produz, realiza e interpreta The Room, apesar de não ter qualquer conhecimento técnico de cinema.

O primeiro (e previsível) milagre de The Disaster Artist é a interpretação de James Franco como Wiseau. Ultrapassada a inevitável caricatura superficial — e não caracterizaríamos Tommy Wiseau como uma figura caricata? —, esta é uma daquelas performances onde, à falta de parecenças físicas entre o actor e o sujeito que recria, a verosimilhança e o espírito da personagem são conseguidas através de uma encarnação sistemática e metódica apenas possível pela interiorização de uma personagem de carne e osso por trás dos trejeitos e afectações. Não menos importante, é também a interpretação de Dave Franco como Greg Sestero, a nossa âncora para esta história de amizade interpretada por dois irmãos actores «na vida real». E aqui começa o efeito metafísico e encantatório do filme sobre o filme.

Claro que, quem chegar a The Disaster Artist sem conhecer The Room vai encontrar uma história inacreditável e hilariante sobre a persistência de uma personagem sem talento para atingir os seus sonhos. Vai ficar a saber como Wiseau decidiu comprar o equipamento de filmagem quando a prática da indústria é o aluguer. Ou como a indecisão sobre o formato em que filmar levou à decisão inédita de filmar em película de 35 mm e vídeo de alta definição ao mesmo tempo, montando as câmaras lado-a-lado. Ou como o realizador-estrela insistiu na necessidade de mostrar o traseiro (para garantir o sucesso comercial do filme) na cena de sexo em que decidiu também humilhar a actriz com quem contracenava por causa de uma borbulha no ombro — alegando depois que Hitchcock e Kubrick também não era simpáticos com os seus actores. Ou até mesmo como a sua insegurança e necessidade de afirmação o levou a contratar um documentarista para captar imagens de bastidores com a intenção de perceber o que a equipa de filmagens pensava e dizia sobre a sua pessoa. Estas e outras cenas verdadeiramente divertidas e incríveis vão por certo funcionar sem reservas para o espectador iniciado.

Mas para quem conhece o filme de culto, The Disaster Artist serve com um espelho que reflecte sobre uma nova perspectiva cenas impressas de forma perene na memória, convidando a uma viagem pelos bastidores e pelos momentos de caótica criação que lhes deram origem. O que se torna evidente é a sinceridade e disponibilidade emocional com que Wiseau investiu no seu filme, bem como o facto de este ser o reflexo perfeito da sua conturbada personalidade. Assim, a sequência final, que recria a noite de estreia de The Room, é o culminar, não só da ligação entre duas almas tão distintas como Wiseau e Sestero, como do jogo de espelhos onde o inseguro autor tem a confirmação do pior dos seus receios ao perceber que o mundo não o entende, reagindo à projecção, primeiro com estupefação, depois com uma desenfreada gozação do seu trabalho. E é neste misto de empatia e escárnio que a nossa relação com o filme de Wiseau é colocada em cheque e as gargalhadas transcendem a zombaria e transformam-se numa celebração da diferença e da perseverança. Esta é uma história do sucesso de um fracasso, apenas possível pela total entrega artística do seu autor, independentemente do seu talento. Torna-se assim evidente perceber o fascínio de Franco por esta narrativa, também ele um artista dos sete-ofícios destemido e com inclinação para se entregar sem reservas aos seus projectos.

Que cheguemos ao fim de The Disaster Artist sem conhecer melhor Tommy Wiseau não é um desprimor perante o trabalho de James Franco, mas um verdadeiro testamento do enigma do seu sujeito. No genérico final, temos a oportunidade de assistir a alguns dos momentos mais célebre de The Room lado-a-lado com as recriações minuciosas levadas a cabo para este filme e o efeito é, passe a expressão, duplo: por um lado valida e renova a dedicação dos fãs de longa data, por outro vai por certo aguçar a vontade de muita gente de procurar ver um dos piores filmes de sempre. Não devem haver muitos filmes que se possam orgulhar de celebrar o falhanço de forma tão eficaz.

The Disaster Artist estreia-se em Portugal no próximo dia 4 de Janeiro com o título Um Desastre de Artista.

Review overview

Summary

Esta é uma história do sucesso de um fracasso, apenas possível pela total entrega artística do seu autor, independentemente do seu talento. Torna-se assim evidente perceber o fascínio de Franco por esta narrativa, também ele um artista dos sete-ofícios destemido e com inclinação para se entregar sem reservas aos seus projectos.

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  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

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