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[LEFFEST’17] I Love You, Daddy

de Louis C. K.

muito bom

I Love You, Daddy é uma comédia dramática de Louis C. K. onde o nível de desconforto do espectador dependerá da sua relação com as revelações polémicas sobre a conduta do autor.

 

I Love You, Daddy nunca será visto sem o contexto dos acontecimentos que transpiraram na véspera da sua estreia e que acabaram por ditar a sua sorte. Louis C. K., o escritor, realizador e actor principal, é um comediante genial que encontrou a sua voz nas performances de comédia stand-up e em séries televisivas como Louie que serviam como uma extensão da sua personalidade narcísica e condescendente de percepção apurada, visão cínica do mundo e uma aptidão para comentar de forma acutilante a realidade que o rodeia. Nunca se coibiu de olhar para o umbigo e explorar o seu lado mais negro e problemático, confrontando os seus defeitos e limitações. Por isso, a sua comédia é muito específica e corajosa e anda sistematicamente de mãos dadas com a melancolia própria de quem reconhece tão bem o fracasso como o sucesso, bem como a efemeridade da nossa curta passagem por este globo azul.

Acontece que a (justa e inevitável) purga que tem vindo a expor abusos de natureza sexual (e de poder) no universo do entretenimento norte-americano, e que se tem espalhado num verdadeiro movimento revolucionário por outras áreas da sociedade, veio a revelar como verdadeiros os rumores antigos sobre condutas impróprias de C. K. em relação a colegas e outras mulheres no passado. O choque e consternação, apesar do pedido de desculpas público do comediante, acompanharam a realização que, não só os ídolos têm mesmo pés de barro, como há uma linha muito clara que não deve ser ultrapassada em circunstância alguma: a perversão, cuja exploração pela arte é aceitável, e saudável até, não deve nunca traduzir-se na vida real à custa de vítimas involuntárias. As sentenças terão de ser passadas pelos tribunais; entretanto os juízos de valor serão com certeza passados por cada um à medida da sua própria consciência. No imediato, a primeira consequência para C. K. foi mais uma variante do que temos assistido com outros casos: desvinculação profissional por parte das cadeias televisivas com quem mantinha projectos e, no caso de I Love You, Daddy, um recuo na intenção de comercializar o filme por parte da distribuidora The Orchard, que o tinha comprado depois da estreia no TIFF com intenção de o exibir globalmente. Acontece que I Love You, Daddy parece ecoar antecipadamente e de forma sinistra os acontecimentos recentes, e por certo haverá muitas leituras superficiais que apontarão uma simples correlação entre as preocupações temáticas do seu autor e o seu comportamento. E foi inegável o frisson sentido no seio do público com que assisti ao filme que reagiu em certos momentos em função da narrativa real e não simplesmente daquela que se desenrola no ecrã. Mas farei o meu melhor por, daqui em diante, limitar-me a avaliar a obra por si só, tarefa impossível a que, não obstante, me proponho.

Glen Topher, Louis C. K. no papel central, é um escritor e produtor televisivo de sucesso divorciado que apaparica China, a filha de 17 anos interpretada por Chloë Grace Moretz, que optou por viver com o pai na recta final da escola secundária para grande consternação da mãe Aura, Helen Hunt num breve papel. As suas decisões parentais são postas em causa pelo amigo Ralph, o também comediante Charlie Day, e Maggie, a colaboradora habitual Pamela Adlon. Ao aceitar uma encomenda de uma estação televisiva para uma nova série, apesar de não ter um único argumento escrito, Glen é confrontado pela sócia Paula, encarnada por Edie Falco, a contraparte pragmática que contrabalança o lado criativo e caprichoso de Glen. Os seus problemas de inspiração para escrever uma nova série sobre enfermeiras são agravados quando decide ponderar a substituição da sua actriz principal por Grace Cullen, uma vedeta de cinema grávida interpretada por Rose Byrne por quem se apaixona. Numa festa organizada por esta, China conhece e envolve-se com Leslie Goodwin, um lendário realizador e ídolo de Glen com fama de ter uma predilecção por raparigas mais novas interpretado por John Malkovich. A falta de rumo e imaturidade da filha, bem como o desconhecimento sobre a real natureza da sua relação com Leslie, passam rapidamente a ser o foco das preocupações de Glen.

Tal como já tinha demonstrado em Lucky Louie, a comédia de 2006 cancelada ao fim de treze episódios, C. K. tem um fascínio por cinema e televisão de outros tempos, partindo de conceitos antiquados apenas para experimentar formalmente e os subverter. Em I Love You, Daddy, o ponto de partida são as comédias screwball e românticas das décadas de trinta e quarenta — basta atentar ao genérico e às composições musicais que lhe servem de banda sonora. Mas o outro título que se torna inevitável invocar é Manhattan, o clássico de 1979 realizado por Woody Allen, apesar de o próprio o ter querido destruir depois de o completar — ainda hoje o autor, que é tão celebrado como olhado de soslaio, considera que este é o título cuja execução mais dista da sua concepção inicial. As comparações mais óbvias são de natureza técnica — o preto e branco — e temática — o envolvimento de um artista mais velho com uma rapariga adolescente. Além disso, apesar de a manter em segundo plano, C. K. também enquadra a sua história no coração de Nova Iorque.

Mais discutível, mas não menos válida, é a percepção que a personagem de Leslie Goodwin é inspirada no próprio Allen e na sua história de vida, ou pelo menos no olhar público sobre as alegações feitas no passado sobre o autor. Este dispositivo narrativo veicula uma exploração do contraste entre a persona pública e a vida privada das celebridades. O envolvimento de China com Leslie irá obrigar Glen a confrontar a sua racionalização das supostas alegações sobre o seu ídolo com a possibilidade destas serem verdadeiras, em virtude do potencial alvo dos interesses de Leslie se focarem agora em China. Neste questionar da moralidade e do julgamento dos olhares alheios é veiculado o ponto de vista de Leslie sobre a superioridade moral da perversão do intelectual, racionalização retórica de um artista que não nega o prazer do seu olhar sobre jovens belezas num processo de sedução intelectual sobre a ingénua China.

China é o reflexo simbólico de todas as limitações de Glen, neste caso traduzindo-se na angústia de quem quer ser um bom pai e não compreende a fronteira entre a educação e a necessidade egoísta de ver o seu amor reciprocado. Parafraseando Maggie, «se a tua filha de 17 anos te diz constantemente “Amo-te, papá”, é porque estás a fazer algo de errado». Num momento entre pai e filha, China tenta impor a sua visão de feminismo e a reacção de Glen — mais tarde contraposta com a reação conhecedora e manipuladora de Leslie em relação ao mesmo tema — é de escárnio, abrindo mais o fosso entre os dois. Noutro momento em aparente diálogo com a situação actual, e na sequência da linha temática do confronto entre a natureza feminina e masculina, Glen pede desculpa a todas as mulheres. Por ter sido adúltero — daí o seu estado civil — e pela hipocrisia das suas acções — não quer ser julgado pelos outros, mas é o primeiro a julgar a filha.

No final, como nos melhores momentos do seu trabalho, a comédia esbate-se para dar lugar à realização verosímil e dolorosa do fracasso de Glen. Não só atravessa um período de deriva e falta de inspiração em que a sua carreira entrou numa rotina criativa — também aqui, o seu lamento que o melhor ficou para trás parece ter um peso maior que a narrativa em que se insere —, como num raro momento de diálogo honesto com China, esta lhe revela que o seu desnorte é consequência da falta de presença parental, aludindo a um passado de sucesso profissional fruto de uma personalidade egocêntrica que ignorou o crescimento da filha até ao momento em que o seu comportamento despertou, não os melhores instintos paternais, mas sim os piores impulsos produtores de juízos morais.

Como tinha dito, o futuro da exibição de I Love You, Daddy é incerto. Neste momento fala-se da possibilidade de Louis C. K. o distribuir na sua página pessoal de internet, como já havia feito com a sua inclassificável e genial série Horace And Pete. No dia em que isso acontecer, vai ser difícil para muita gente processar algum do conteúdo temático deste filme, incluindo a cena em que Ralph, num momento de incontornável brejeirice masculina, simula no escritório de Glen uma exagerada masturbação sem que interrompa a brincadeira depois de Paula entrar na divisão. Este é mais um dos muitos momentos que fazem desta obra um infeliz comentário metafísico sobre as acções do seu autor, mas que está longe de, por si só, manchar mais uma obra de acutilante inteligência e irreverente e permanente questionamento sobre a nossa natureza, perversões incluídas.

Nota: pouco depois da publicação deste texto foi anunciado pela Medeia Filmes que I Love You, Daddy será exibido no cinema Medeia Monumental a partir de 30 de Novembro. 

Review overview

Summary

Uma obra de acutilante inteligência, irreverência e questionamento sobre a nossa natureza num processo de permanente e infeliz comentário metafísico sobre as acções do seu autor

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários

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