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[Kino 2017] Stefan Zweig – Adeus à Europa

de Maria Schrader

bom

Numa altura em que se discute a desagregação da Europa e crises de refugiados, surge com actualidade Stefan Zweig – Adeus à Europa, um filme de Maria Schrader, retrato de um amargurado escritor exilado austríaco, que em 1934 previu o que a Alemanha Nazi faria à liberdade de expressão.

 

Estreado em 2016, e presente no Festival de Locarno, Vor der Morgenröte (literalmente «Antes do Amanhecer»), para o qual, nalguns mercados se acrescentou o subtítulo Stefan Zweig in Amerika, e em Portugal se chama Stefan Zweig – Adeus à Europa, parece iniciar-se logo com um problema de afirmação ou objectivo. Mostrando que a vida imita a arte, é como se a distribuição desta produção conjunta entre Alemanha, Áustria, França e Portugal tivesse o mesmo pudor do homem retratado em relação às ilações a tirar das suas palavras.

Stefan Zweig (no filme interpretado por Josef Hader) foi um escritor austríaco, nascido em 1881, e dos primeiros a aperceber-se do que o advento do nazismo faria à liberdade de expressão. Escolheu por isso o exílio, logo em 1934, ainda antes de outros serem perseguidos, condenados a fugir ou a serem aprisionados. Tal fez dele quase um profeta, ostentado nos países de acolhimento (Estados Unidos, Argentina e Brasil) como voz de oposição nazismo. Mas tal foi um papel que Stefan Zweig sempre repudiou. Avesso a insurgir-se contra a sua pátria, mesmo que estivesse desgostoso com os acontecimentos, Stefan Zweig lembrava que falar com a protecção de um oceano de distância, para uma plateia que queria ouvir essas palavras de condenação, não era uma acto de coragem, mas sim uma chamada de atenção sobre si mesmo.

São essas contradições que o segundo filme realizado pela actriz Maria Schrader, procura trazer, numa produção faustosa, a roçar o tom épico, que nos coloca em hotéis de Buenos Aires, fazendas brasileiras, e apartamentos nova-iorquinos (com a estranha opção de ter um elenco recheado de actores portugueses – Virgílio Castelo, João Lagarto, João Cabral, João Didelet, Carla Vasconcelos, Maria Vieira, Márcia Breia e Nicolau Breyner – que se fazem passar por personagens brasileiros), com filmagens a passarem por São Tomé e Príncipe e Lisboa.

Nas mãos de Schrader, o Stefan Zweig de Josef Hader é um homem abatido, que procura continuar a escrever, mas se vê preso entre solicitações das entidades dos países de acolhimento, a esperança jornalística do chamariz das palavras polémicas, e os pedidos de ajuda daqueles que ficaram para trás. Sentindo-se num mundo demasiado grande para si, preferindo paz, e não a guerra, a literatura como arte, e não a intervenção política, Zweig tenta acreditar na sorte que tem, por entre as paisagens paradisíacas do Brasil, na companhia da sua jovem esposa Lotte (Aenne Schwarz). Mas a tristeza e a nostalgia da pátria perdida nunca o abandonam.

Num momento em que a Europa parece voltar a desunir-se, e que o problema dos refugiados domina os noticiários, Stefan Zweig – Adeus à Europa torna-se actual, num olhar para uma Europa causadora de guerra e de exílio, nos olhos tristes de quem o escolheu e com isso sofreu.

O quotidiano de Stefan Zweig em Buenos Aires, no Estado do Rio de Janeiro, em Nova Iorque e em Petrópolis é-nos trazido numa série de vinhetas que, quase sem história, são capturas de momentos banais. Uma participação numa convenção do PEN Club, uma viagem pelas plantações de cana-de-açúcar, uma visita à ex-mulher (Barbara Sukowa) e filhas em Nova Iorque, e alguns momentos na sua terra de exílio em Petrópolis, no dia do seu aniversário, pouco antes do seu suicídio, parecem-nos quase documentais, procurando-se, através do olhar, comportamento, e algumas palavras de Zweig, adivinhar o que lhe ia na alma.

O filme é por isso algo disperso, nem sempre mantendo o foco, onde se deixa a câmara rolar, por entre discursos e diálogos longos, por vezes sem interesse para a própria história, contrastando com momentos contemplativos, e alguns anedóticos, passados em fundo. Pelo meio fica sempre a bonita fotografia, sem dúvida um dos pontos mais altos do filme, aliada à interpretação sentida de Josef Hader, que mesmo entre os problemas de montagem, nos transmite a dor serena e tristeza difusa do seu personagem sem pátria.

Resumo da crítica

Summary

Difuso e algo disperso nas vinhetas quase documentais que apresentam alguns dos dias de um amargurado exílio, Stefan Zweig – Adeus à Europa conta com uma bonita fotografia e uma sentida interpretação de Josef Hader, numa produção com muito de Portugal.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3 10 bom

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