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Julieta

de Pedro Almodóvar

mau

Nos últimos anos, a filmografia de Pedro Almodóvar tem sofrido alguns tropeções, e depois das más críticas recebidas pela comédia anárquica Os Amantes Passageiros (2013), o realizador espanhol voltou ao melodrama com Julieta que, infelizmente, não marcou ainda o desejado regresso à velha forma.

Com uma vida aparentemente estável em Madrid, Julieta (Emma Suárez) prepara uma mudança para Portugal com o seu companheiro, quando um encontro inesperado na rua lhe traz à memória fantasmas de um passado que esta julgava enterrados. Recusando a mudança para Portugal, Julieta prefere permanecer sozinha, mudando-se para um prédio onde aparentemente já havia vivido, e começa a escrever uma carta para a filha que não vê há muito, na qual promete contar-lhe tudo o que lhe escondeu no passado. Tem assim início um longo flashback no qual uma Julieta mais jovem (agora interpretada por Adriana Ugarte, e muito parecida com a Melanie Griffith de Testemunha de Um Crime, de Brian De Palma), nos irá pôr a par da situação.

A estrutura de Julieta obedece àquela que tem sido a de muitos dos seus filmes mais recentes, feita de saltos temporais, muitas vezes com uma personagem a contar a história na primeira pessoa, revelando aos poucos os segredos escondidos. Mas ao contrário do que sucedia, por exemplo, no excelente A Pele Onde Eu Vivo (2011) onde as revelações, além de surpreendentes, acrescentavam realmente alguma coisa à narrativa e às personagens, aqui tudo parece acontecer quase em piloto automático e a promessa de grandes e chocantes revelações feita em carta por Julieta, acaba por se revelar bastante insípida e pouco emocionante. Estamos mais no caminho do melodrama almodovariano do que no do thriller propriamente dito mas, talvez como mecanismo de defesa por não ter uma história particularmente cativante para contar, Almodóvar quer fazer-nos acreditar que Julieta vai enveredar por caminhos bem mais sinuosos do que aqueles que realmente trilha. É possível que tal estrutura esteja já presente na obra de Alice Munro que Almodóvar aqui adapta, mas a verdade é que não funciona da melhor forma, e até outro dos seus menos interessantes títulos recentes como Abraços Desfeitos (2009) consegue jogar com esse dispositivo a seu favor.

Não é que Julieta seja um rotundo fracasso, porque Almodóvar é já um realizador cujos instintos naturais lhe permitem manter sempre um nível mínimo de qualidade, mas aqui nunca se vai para além disso mesmo: os mínimos. Chegados ao final, o filme parece nunca ter arrancado verdadeiramente, e todas aquelas características que nos habituámos a dar como adquiridas no seu cinema nunca aparecem realmente. Visualmente, tudo é demasiado limpo, a nível cromático e de texturas, fazendo lembrar a espaços uma iluminação mais televisiva do que cinematográfica. Depois, mesmo o melodrama parece demasiado manso e a pulsão sexual, que aparece brevemente no início, desvanece rapidamente, não havendo sofrimento e desejo suficientes que justifiquem a assinatura de Almodóvar. A amargura que envolve todo o filme está, como o realizador, contaminada por um certo marasmo que, por arrasto, se alastra para os próprios actores, sem espaço para grandes rasgos, excepção feita para algumas cenas com a habitual Rossy de Palma.

É uma pena este passo tão desconsolado por parte de Almodóvar depois de dois títulos que, embora com resultados distintos, pareciam pelo menos apostados em recuperar as excentricidades do seu autor. Julieta não é, definitivamente, aquilo que nos habituámos a esperar de alguém com uma mão tão segura e um talento tão distinto, ficando como uma oportunidade desperdiçada. Esperemos que este aparente conformismo seja apenas passageiro e que depressa volte ao seu melhor. O cinema não está preparado para prescindir de alguém como Pedro Almodóvar.

Resumo da crítica

Summary

O regresso de Pedro Almodóvar ao melodrama não é ainda, infelizmente, o desejado regresso à velha forma, e desilusão continua como a palavra de ordem que se arrasta ainda do seu filme anterior.

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