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O Herói de Hacksaw Ridge

de Mel Gibson

muito bom

Trazendo a violência da Segunda Guerra Mundial de uma forma chocante, Mel Gibson conta-nos uma história de fé e abnegação do homem que mostrou que se pode ser herói de guerra sem disparar um único tiro.

 

Depois do recente e pouco mais que execrável Sniper Americano (2014), de Clint Eastwood, o homem que já nos tinha dado o brilhante Cartas de Iwo Jima (2006), fica desde logo o medo, quando se fala de um novo filme americano sobre a guerra, de estarmos em território propagandístico despudorado, de afirmação da superioridade norte-americana e da sua auto-atribuída legitimidade para decidir quem são os bons e os maus.

Não se pode dizer que não haja um pouco disso no novo filme de Mel Gibson, um autor que já se celebrizou pelas suas visões polémicas de acontecimentos históricos importantes (Braveheart, A Paixão de Cristo, Apocalypto), mas seria demasiado inocente pensar que alguma vez se fez um filme de guerra sem intenções ulteriores que não fossem a de apenas contar uma história.

O Herói de Hacksaw Ridge começa na América profunda, nos campos da Virginia, onde se respira aquilo que os locais chamam «ser americano», essa essência com tanto de inocentemente idílico como de assustadoramente provinciano. E é essa combinação, entre fé religiosa e propensões violentas, que Mel Gibson nos mostra desde o início, no crescimento do jovem Desmond Doss (Andrew Garfield), que mais não quer que uma vida na natureza, amando a mais bonita das mulheres da região (Teresa Palmer), enquanto testemunha a violência caseira e a educação com base no ódio, incutida por um pai déspota (Hugo Weaving), torturado por uma outra guerra.

Há algo de Sargento York (1941), de Howard Hawks, no personagem de Desmond. Onde o York de Gary Cooper, qual pateta alegre dos campos selvagens do interior americano, se tornou herói por usar na guerra a sua prática de caça aos perus, o Desmond de Garfield vai, com igual alegria, tentar mostrar que é possível cumprir o seu papel sem disparar qualquer tiro. Essa é a mensagem de Gibson, que foi beber na história real do primeiro objector de consciência dos Estados Unidos, para nos levar a Okinawa, na Segunda Guerra Mundial, quando entre Abril e Junho de 1945, os Aliados tentavam tomar a ilha, com enormes baixas sofridas.

Dividindo-se em dois actos (um em território norte-americano, outro em japonês), aquilo de que todos falarão é da extrema violência de O Herói de Hacksaw Ridge, de um realismo chocante, que encontra ecos no exemplo que nos vem desde que Steven Spielberg nos desconcertou com a sequência inicial de O Resgate do Soldado Ryan (1998). Tal como então, Mel Gibson consegue fazer-nos sentir como se estivéssemos no meio das rajadas de tiros, entre explosões e feridos. Quase sem uma história para contar que não seja a contagem de corpos, o filme de Gibson tem o mérito de manter a tensão plano a plano, num exercício alucinante de momentos de acção e suspense.

Filmando com uma acutilância e fôlego incríveis, O Herói de Hacksaw Ridge, vai ser criticado pelos erros da sua própria grandeza, um argumento demasiado simples, um exibicionismo da acção e mutilação humana (a que Gibson chamou manifesto pacifista), e essa sempre presente piscadela de olhos à tacanha crença de supremacia norte-americana na legitimação, ainda hoje, de acções militares no mínimo questionáveis. Mas certamente agradará a quem procura uma reconstrução realista de uma guerra horrível, e a quem se quiser deixar inspirar pelo exemplo de abnegação e luta do homem que mostrou que se pode ser herói sem disparar um tiro. No final, também no espectador, talvez fique essa luta entre a fé e a violência, na qual progride o personagem de Andrew Garfield. Não são sempre os heróis de Gibson mártires que pela primeira aceitam as consequências extremas da segunda?

Resumo da crítica

Summary

Vítima da sua própria grandeza, e da missão de mostrar a superioridade moral os Estados Unidos, o novo filme de Mel Gibson destaca-se pelo realismo e beleza técnica das sequências de acção, e pela história verídica e inspiradora do primeiro objector de consciência.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários

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