Share, , Google Plus, Pinterest,

Print

Posted in:

Han Solo: Uma História de Star Wars

de Ron Howard

mediano

Depois de uma produção atribulada, Ron Howard cumpriu a data de estreia, mas será que Han Solo: Uma História de Star Wars resistiu aos dramas de rodagem e a um novo actor num papel icónico?

 

Chegados ao momento da estreia de Han Solo: Uma História de Star Wars, estamos perante uma das mais atribuladas produções do universo recente do Star Wars. Escrito pelo veterano da saga Lawrence Kasdan com a ajuda do seu filho Jonathan, o filme, como o próprio título indica, foi pensado como uma aventura do jovem herói popularizado por Harrison Ford, antes de o conhecermos numa cantina manhosa de Mos Eisley em A Guerra das Estrelas. Dada a idade de Ford, seria natural a contratação de um actor mais jovem para o papel, e o oportuno anúncio de Alden Ehrenreich na sequência da sua interpretação vistosa em Salve, César!, a mais recente comédia dos irmãos Coen, parecia fazer todo o sentido. O mesmo se poderá dizer da ideia de génio de colocar o papel do sedutor Lando Calrissian nas mãos do ultra-talentoso Donald Glover. E a cereja em cima do bolo parecia ter sido o recrutamento para a cadeira de realizador da dupla Phil Lord e Christopher Miller, responsáveis pelos sucessos Chovem Almôndegas, Agentes Secundários e, mais relevante ainda, O Filme Lego. 

A sensibilidade dos realizadores adivinhava-se como perfeita para lidar com a personalidade mais descontraída e pragmática do pirata espacial, além de que tudo em que Lord e Miller tinham tocado até então se tinha transformado em ouro. Ao fim de apenas três ou quatro meses de rodagem, as tensões criativas entre Kathleen Kennedy, o cérebro responsável pelos destinos da Lucasfilm depois da venda à Disney, e a dupla de realizadores tinha vindo a crescer, com o veterano argumentista Lawrence Kasdan a demonstrar-se também insatisfeito com o resultado das filmagens. Lord e Miller não tinham a liberdade criativa pretendida e, além do mais, as suas expectativas de que estariam a rodar uma comédia com lugar para improvisação estavam desencontradas com as vontades do poderoso estúdio, que apenas pretendiam um toque cómico numa rodagem que respeitaria o guião original. Por esta altura, o editor original Chris Dickens foi substituído pelo experiente e oscarizado Pietro Scalia, e o actor principal viu a sua performance como Han Solo colocada em causa pela contratação de um professor de interpretação para o ajudar a melhorar o seu desempenho. No mês seguinte, o impensável aconteceu e os realizadores foram afastados do projecto com três quartos das filmagens concluídas, sendo rapidamente substituídos por Ron Howard, que prometeu honrar o legado de George Lucas e cumprir a data de estreia para Maio do 2018, menos de um ano depois. Considerado como um tarefeiro por muitos, Howard ofereceu a Kennedy a confiança e segurança de um autor experiente e competente com grandes produções e efeitos especiais, capaz de seguir sem sobressaltos as intenções da máquina produtora, dando ao mesmo tempo um passo atrás na intenção de injectar sangue novo para vitalizar a saga. 

No faroeste espacial que resulta da mão opressiva exercida pelo império galáctico, o combustível coaxium é um bem precioso cobiçado por criminosos, piratas espaciais e escumalha em geral. No planeta Corellia, governado pela tirania de Lady Proxima, Han, um jovem que sonha vir a ser um piloto, e a namorada Qi’ra, interpretada por Emilia Clarke, tentam escapar da escravatura de Proxima na busca da liberdade e de uma vida de aventura, mas acabam por ser separados e só Han consegue escapar. Determinado a voltar para resgatar Qi’ra, o «rebaptizado» Han Solo inscreve-se na academia de pilotos do Império. Porém, passados três anos, acaba na infantaria por causa da sua rebeldia a lutar em perigosos campos de batalha. Aí o seu destino cruza-se com um ameaçador wookiee chamado Chewbacca e uma companhia de mercenários encabeçada por Tobias Beckett, o sempre fiável Woody Harrelson, que prepara um assalto a um comboio que transporta coaxium a soldo do perigoso barão do crime Dryden Vos, a tardia adição ao elenco  Paul Bettany. No seu futuro, espera-o também um jogo de cartas que poderá colocar em sua posse uma veloz nave-espacial pertencente a um tal Lando Calrissian.

A dupla argumentista não desperdiçou a oportunidade de oferecer a Han Solo uma história de origem com um apropriado travo de coboiada no espaço. Verdade seja dita, essa era a opção lógica dadas as inspirações originais para a criação de George Lucas popularizada pela interpretação arrogante e convencida de Harrison Ford. Mercenários, assaltos a comboios, duelos em cenários áridos estão todos correctamente presentes. Lamentavelmente, estão em falta alguns elementos para consolidarem esta premissa aparentemente vencedora e para, no final, o herói poder «cavalgar» em direcção ao pôr-do-sol com o sentimento de dever cumprido. Se é verdade que o guião está recheado de referências e piscares de olhos a elementos bem conhecidos dos fãs da saga — por vezes subvertendo as expectativas, como a cena em que Han afirma que «tem um bom pressentimento» em relação a uma manobra de pilotagem, ou mesmo um momento crucial da narrativa que parece dialogar directamente com a polémica sobre quem terá disparado primeiro na cantina de Mos Eisley—, há opções questionáveis no que respeita à caracterização das personagens que minam o estatuto mitológico do seu herói, oferecendo uma explicação supérflua sobre o apelido Solo e, pior ainda, o de Chewbacca, caracterizado como uma espécie de rancor acéfalo e assassino miraculosamente reabilitado num esfregar de olhos.

Passemos, então, ao elefante no meio da sala. Alden Ehrenreich tenta emular os trejeitos do antecessor, mas na procura de recriar o seu estilo gabarola, porém lacónico ao mesmo tempo, acaba por cair na armadilha de uma interpretação minimalista que se confunde facilmente com falta de carisma, o que é contraproducente quando se pretende que Han Solo seja a personagem central desta aventura. Se Emilia Clarke não destoa deste registo, quando o ecrã é partilhado com actores do calibre de Woody Harrelson, Paul Bettany ou Donald Glover — este último, porventura, também desperdiçando o seu talento numa personagem desenhada a traços grossos — torna-se óbvio que o desempenho esforçado de Ehrenreich nunca chega a convencer como a versão mais jovem da personagem que tão bem conhecemos.

Ao segundo spin-off do universo Star Wars, temos um vislumbre das potencialidades oferecidas por esta criação ainda por explorar no grande-ecrã. Planetas escravizados por tiranos ainda piores que os responsáveis pelo império, mundos subjugados aos caprichos de organizações criminosas, povos enredados na sobrevivência diária, incapazes sequer de ter a perspectiva global sobre os meandros da política galáctica. Mas o constrangimento de contar uma história assente em personagens já estabelecidas — uma «prequela», se assim o quisermos definir —, aliado à necessidade de costurar o enredo com elementos reconhecíveis pelos fãs mais aguerridos — há um cameo que irá deixar muita gente em polvorosa, mas que, sofrendo do mesmo mal da franchise irmã Marvel, nada acrescenta à presente narrativa —, revela uma crónica falta de coragem para se partir para novas paragens nestes episódios que se queriam independentes e de antologia. As composições de John Powell colam-se menos à memória da música de John Williams que as de Michael Giachinno em Rogue One, no entanto, a emoção é sentida mais à flor da pele precisamente quando os temas originais do veterano compositor são utilizadas.

(Uma nota sobre a exibição em IMAX 3D: esta apresentou uma iluminação uns furos abaixo do ideal, prejudicando nitidamente a experiência, no que espero sinceramente ser uma questão da projecção e não da fotografia original de Bradford Young.)

Qualquer vestígio da assumida comédia iniciada pelo seu par original de realizadores limita-se, no resultado final, às ocasionais, e nem sempre eficazes, graçolas — veja-se como exemplo o primeiro momento em que o herói da fita comunica com o seu futuro melhor amigo peludo na sua própria língua. As mais valias de Han Solo acabam por ser as suas emocionantes sequências de acção — e perdoem-me se esperavam ansiosamente por testemunhar finalmente a Corrida de Kessel, mas o prémio para a melhor cena vai mesmo para o assalto ao comboio no planeta gelado. Fora isso, o que sobra deixa a sensação equivalente àqueles livros amarelos de resumo de uma narrativa mais rica e elaborada, contada aqui de forma resumida, superficial e omissa. 

Enquanto que Os Últimos Jedi partia o molde e, se bem que um pouco atabalhoadamente, mas de forma sincera, provocava uma cisão com o passado e abria uma infinidade de possibilidades para o futuro, Han Solo: Uma História de Star Wars volta a enredar-se na reverência ao que veio antes, jogando pelo seguro e, muito embora oferecendo um bom entretenimento, dando um passo atrás na promessa da expansão deste riquíssimo universo.

Review overview

Summary

Han Solo: Uma História de Star Wars enreda-se na reverência ao que veio antes, jogando pelo seguro e, muito embora oferecendo um bom entretenimento, dando um passo atrás na promessa da expansão deste riquíssimo universo.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
2.5 10 mediano

Comentários

Share, , Google Plus, Pinterest,