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A Guerra dos Tronos

Uma retrospectiva - Introdução

É já no próximo dia 17 — logo no dia seguinte à estreia nos EUA — que A Guerra dos Tronos, um dos maiores fenómenos actuais das produções norte-americanas para o pequeno ecrã, regressa às televisões portuguesas através do canal SyFy. Até lá, vamos fazer uma retrospectiva das primeiras seis temporadas na expectativa da sétima (e anunciada penúltima) temporada da saga épica de fantasia nascida da pena de George R. R. Martin.

 

No texto que se segue fala-se abertamente dos desenvolvimentos narrativos das primeiras seis temporadas de A Guerra dos Tronos por isso contém spoilers abundantes e indiscriminados.

Na dita época de ouro da televisão norte-americana, quando a oferta de ficção narrativa supera largamente a procura, tanto em quantidade como em qualidade — na verdade não há horas suficientes no dia para ver tudo o que é produzido —, e a relação dos espectadores com os conteúdos televisivos mudou radicalmente em função dos serviços de streaming, video-on-demand e lançamentos de temporadas completas de uma só vez, A Guerra dos Tronos é um fenómeno de popularidade por qualquer prisma que se analise. Baseado na saga de fantasia escrita por George R. R. Martin, As Crónicas do Gelo e Fogo, a série tomou para a sua designação genérica o título do primeiro capítulo, A Guerra dos Tronos, e, como fogo em caruma seca, alastrou o culto fervoroso que Martin gozava a uma popularidade de dimensão mundial. Os espectadores mais incautos depressam descobriram aquilo que os fiéis leitores há muito sabiam: aqui não se aplicam as habituais lógicas narrativas e tudo pode acontecer. Os heróis não estão a salvo e os vilões por vezes (muitas vezes?) saem vitoriosos. As intrigas políticas e as traições são tão, ou mais, empolgantes do que batalhas. E as línguas mais afiadas e mortíferas que espadas. A guerra dos tronos é um jogo. E neste jogo ou se morre ou se vive. Não há meio termo.

Em retrospectiva, a adaptação televisiva de A Guerra dos Tronos parecia uma aposta óbvia e ganhadora. Mas quando David Benioff e D. B. Weiss se lançaram nesta aventura nem tudo correu bem à primeira. Depois de convencerem Martin que eram verdadeiros fãs da sua obra ao responderem acertadamente à pergunta sobre a verdadeira identidade da mãe de Jon Snow — uma das personagens centrais mais populares —, a dupla optou pela televisão para garantir que podiam desenvolver devidamente a escala épica dos livros e manter as copiosas quantidades de sexo, violência e profanidade existentes no texto original. O canal que acolheu o projecto foi o HBO. Em 2009, é filmado um piloto que foi muito mal recebido numa projecção privada para os executivos do estúdio. Estes ordenaram filmagens adicionais e extensivas alterações, incluindo no elenco. O resultado é um piloto praticamente novo — apenas sobreviveram dez por cento das filmagens originais. Desta vez os executivos ficaram satisfeitos e confiantes.

Esboçar uma sinopse de A Guerra dos Tronos é uma tarefa ingrata e virtualmente impossível. O número de personagens é vasto e a complexidade das suas relações e dos acontecimentos dificultam uma resenha económica. Esta é a minha tentativa. A Guerra dos Tronos apresenta-nos o reinado fictício de Westeros, numa era inspirada na Idade Média. Um conjunto de nobres famílias milenares vive um período de ténue paz sob o reinado de Robert Baratheon. O rei é casado com a incestuosa Cersei, que mantém um caso com o irmão Jaime, e que odeia o outro irmão, Tyrion, em parte por este ser anão. Os irmãos pertencem a uma das mais ricas e implacáveis famílias do reinado, os Lannister, encabeçada pelo pai, Tywin Lannister. Quando o Mão do Rei — uma espécie de conselheiro — morre, Robert viaja até à nortenha Winterfell para convidar o seu amigo pessoal de longa data Eddard «Ned» Stark a ocupar o cargo. Ned, um homem honrado, aceita relutantemente. Desta forma é despoletada uma cadeia de acontecimentos que vão colocar um conjunto de personagens e famílias numa guerra pelo Trono de Ferro que governa os cinco reinados unidos sob o mesmo estandarte. Entre os vários pretendentes estão Stannis e Renly, irmãos do rei, e Daenerys Targaryen, a filha do Rei Louco a quem Robert usurpou o trono numa aliança com os Stark e os Lannister. Daenerys procura reclamar o trono do seu pai e faz renascer das cinzas os extintos e míticos dragões que tinham acompanhado os seus antepassados em inúmeros triunfos. Entretanto, para lá da muralha imensa que delimita o norte do reino, guardada pela outrora gloriosa, mas agora decadente, Patrulha da Noite — à qual pertence Jon Snow, filho bastardo de Ned — surge uma desconhecida ameaça na forma de criaturas que se pensavam existir apenas em lendas e mitos.

Para dar vida à imensidão de personagens, foi reunido em elenco que juntou um conjunto de actores experientes com nomes menos consagrados que aproveitaram a oportunidade para dar corpo às figuras mais populares do universo literário. Sean Bean foi a escolha perfeita para encarnar o ítegro Eddard Stark, o seu estatuto de veterano a encobrir a manobra de diversão reservada para o final da primeira temporada. Charles Dance, Carice van Houten, Stephen Dillane, Ian Glen ou Diana Rigg eram nomes conhecidos que por certo não defraudariam, mas a passadeira vermelha estendeu-se a um conjunto de nomes que há sete anos eram totais desconhecidos e agora, graças a A Guerra dos Tronos, são nomes reconhecidos mundialmente: Kit Harington, Emilia Clarke, Sophie Turner, Nikolaj Coster-Waldau, Maisie Williams, Gwendoline Christie ou Natalie Dormer não terão dificuldade em arranjar trabalho no dia em que ficar definido o destino de Westeros. Mas os trunfos mais valiosos do elenco acabariam por se revelar ser Peter Dinklage, como Tyrion Lannister, e Lena Headey, como a sua irmã Cersei. Ambos são actores de excepção que elevam todas as cenas em que participam. Apesar do preconceito que persegue Tyrion, Dinklage oferece-lhe uma dignidade e inteligência perante a loucura à sua volta que o torna na personagem que nos âncora sempre que perdemos pedras importantes do elenco ao longo da narrativa. Headey, apesar de não corresponder fisicamente à descrição de Cersei nos livros, é de uma ambição feroz, raiva mal contida e motivações ambivalentes de tal forma que transformou a personagem numa criação onde a sua interpretação é essencial ao ponto de ser agora impossível imaginar Cersei de outra forma.

O objectivo inicial era a adaptação de um livro por temporada — se o leitor acompanhar a saga na sua edição portuguesa da Saída de Emergência tem de converter cada título original em dois livros na nossa língua da seguinte forma: A Game of Thrones (1996) corresponde a A Guerra dos Tronos e A Muralha de Gelo; A Clash of Kings (1998) a A Fúria dos Reis e O Despertar da Magia; A Storm of Swords (2000) a A Tormenta de Espadas e A Glória dos Traidores; A Feast for Crows (2005) a O Festim dos Corvos e O Mar de Ferro; e A Dance with Dragons (2011) a A Dança dos Dragões e Os Reinos do Caos. O desafio com que os responsáveis da série se depararam teve que ver com o famoso ritmo lento da escrita de George R. R. Martin. O autor prometeu mais dois volumes da sua saga, o que significava que ao fim de cinco temporadas a série corria o risco de ultrapassar o material de base. Parafraseando-o, «escrever o novo livro é como construir carris enquanto ouvimos o comboio a aproximar-se». Nos dois primeiros anos o plano foi cumprido, a um ritmo de um livro por temporada constituída por dez episódios cada uma. O épico terceiro volume — e o melhor da série —, A Storm of Swords, foi dividido pelas temporadas três e quatro. Claro que a contabilidade não é exacta pois a cronologia convoluta de Martin não se padece com estas mundanas sistematizações. E à sexta temporada, a mais recente, para além das inúmeras alterações narrativas introduzidas na adaptação à televisão, Benioff e Weiss viram-se na posição de ultrapassar o texto da obra de Martin aventurando-se para território desconhecido.

A adaptação de As Crónicas de Gelo e Fogo seria sempre um desafio, não só pelo fôlego épico da construção do universo, incluindo dezenas de personagens habitando reinos com uma profunda ligação ao seu passado histórico e cultural, como pela complexidade narrativa da estrutura de capítulos criada por Martin onde diferentes linhas da história convivem lado a lado com diferentes ritmos cronológicos. Se a primeira temporada é relativamente fiel ao primeiro livro, com alguns pequenos ajustes, rapidamente a série vai-se afastando do texto original num conjunto de pormenores que vão dando lugar a alterações significativas mais à frente. Mas deixem-me partilhar um segredo: a série é melhor por isso. A verdade é que Martin parece ter-se perdido na imensidão e complexidade do mundo que criou e os argumentistas da adaptação — maioritariamente os dois criadores da série — procuraram sempre encurtar e economizar personagens e acontecimentos de forma a encontrar sinergias previamente inexistentes nas longas páginas dos livros. Houveram alguns sacrifícios, é certo, com os maiores prejudicados a serem os habitantes das ilhas de Ferro e de Dorne. Mas este foi um preço justo a pagar para garantir o fluir dos acontecimentos com um elenco gerível e reconhecível.

Com a série a ultrapassar os livros está na hora de encarar as obras produzidas nos dois meios — livro e televisão — como entidades independentes. Certamente que a série não existiria sem os livros, e que estes beneficiarão do retorno que aquela produz. Mas estamos à beira de um caso raro, se não inédito, de uma adaptação televisiva concluir antes da série de livros em que se baseia. Apesar da proximidade entre Martin e a dupla Benioff e Weiss, e de supostamente estarem alinhados em relação ao destino da história e das suas personagens, os diferentes posicionamentos das peças nos tabuleiros perspectivam caminhos muito diferentes para se chegar à conclusão do épico conto. Além disso, os acontecimentos da mais recente temporada parecem ter servido de correção de curso de todos os devaneios narrativos herdados dos livros e as temporadas sete e oito que agora se avizinham, e que já foram anunciadas como as finais, deixam adivinhar os confrontos decisivos tão ansiados pelos fãs sob o manto gelado do Inverno que, ao fim de tanta promessa, finalmente chegou.

Não percam o próximo artigo onde faremos um resumo analítico da primeira temporada.

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Written by António Araújo

António Araújo

Cinéfilo, mascara-se de escritor nas horas vagas, para se revelar em noites de lua cheia como apaixonado podcaster.

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