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A Forma da Água

de Guillermo del Toro

excelente

A Forma da Água conseguiu as proezas de arrecadar treze nomeações para os Óscares, incluindo melhor filme, e vencer o Leão de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza no ano passado. Tudo isto sem Guillermo del Toro se desviar um centímetro do seu universo de fantasia e celebração da alteridade, numa obra intimamente pessoal alinhada com o seu registo habitual.

 

Há muito que sabemos que Guillermo del Toro gosta mais de monstros do que de nós. Ou melhor, para o realizador mexicano, os verdadeiros monstros somos nós e a expressão da nossa monstruosidade é a intolerância perante a diferença, o outro. Depois de Cronos, a promissora estreia em 1993 no seu país de origem com um filme de terror de baixo orçamento que acabou premiado numa série de festivais internacionais, incluindo o prémio dos críticos em Cannes, del Toro foi mastigado quatro anos depois pela máquina da Miramax na produção de Predadores de Nova York, a estreia em Hollywood que repetiu a estafada história em que uma voz criativa e original é contratada para depois ser normalizada pelo sistema, acabando o filme por ser apenas uma curiosidade relativamente banal. Em resposta a esta experiência, e filmando em Espanha, o autor cria em 2001 a sua primeira obra maior, Nas Costas do Diabo, um filme assombrado e assombroso que desenterra os fantasmas da Guerra Civil Espanhola. No ano seguinte, embora o seu regresso às produções norte-americanas aparente ser pela porta pequena com uma sequela de um filme de super-heróis da banda desenhada, Blade II demonstra como um projecto comercial pode ter a marca autoral do seu timoneiro. No embalo deste triunfo, del Toro ataca a sua verdadeira paixão dos livros aos quadradinhos e realiza entre 2004 e 2008 o díptico Hellboy, a criação de Mike Mignola que permite ao realizador colocar no centro das suas narrativas um grupo de desajustados heróis que protegem a humanidade de criaturas inspiradas nas obras de Lovecraft e Tolkien, respectivamente no primeiro e segundo filmes. Pelo meio, é celebrado por O Labirinto do Fauno, um irmão espiritual de Nas Costas do Diabo que regressa à Guerra Civil Espanhola para desenhar uma homenagem gótica a Alice no País das Maravilhas e reforçar a ideia que o Homem, apesar das aparências, é o verdadeiro monstro que assombra e destrói qualquer sonho e ilusão da inocência infantil. Depois de ter, por momentos, contemplado mergulhar no universo do Hobbit, e de em 2013, brincar às bulhas entre mechas e kaijus em Batalha do Pacífico, del Toro regressou em 2015 ao gótico e aos fantasmas com Crimson Peak: A Colina Vermelha, um exercício de estilo de pendor feminista em cenário vitoriano que reclamava uma libertação da clausura doméstica da mulher e da sua sujeição à autoridade patriarcal.

Com A Forma da Água, Guillermo del Toro afirma ter finalmente realizado o seu primeiro filme adulto. Depois de ter passado nove filmes a revisitar medos e sonhos de infância, o realizador, apesar de continuar a focar-se na questão da alteridade, decidiu abordar temas como a confiança, o sexo, o amor, o rumo da humanidade, em suma, preocupações que não tinha em criança. Ainda assim, as suas inspirações remontam a esse tempo, pois foi inspirado pelas memórias de ver em tenra idade O Monstro da Lagoa Negra, o clássico filme de 1954 realizado por Jack Arnold, e de torcer, na altura, pelo sucesso do romance entre a criatura e Kay, a personagem interpretada por Julie Adams.

Elisa é uma empregada de limpeza muda que vive uma vida solitária num apartamento por cima de uma enorme sala de cinema. Os seus únicos amigos são Giles, o vizinho ilustrador com dificuldades em arranjar trabalho que mora na porta ao lado com quem partilha o gosto por filmes musicais, e Zelda, a expansiva e faladora colega de trabalho que todas as manhãs lhe guarda um lugar na fila para picar o ponto a horas e que acaba por ser a voz de Elisa na comunicação com terceiros. Ambas trabalham num laboratório governamental em Baltimore algures na década de sessenta, em plena Guerra Fria. Quando chega às instalações uma criatura aprisionada num tanque cheio de água capturada na América do Sul pelo Coronel Strickland, a curiosidade de Elisa leva-a a aproximar-se em segredo da criatura anfíbia de traços humanos, com quem vem a conseguir comunicar, formando com ela uma relação estreita de contornos românticos.

O onírico genérico de abertura, pautado pela música de Alexandre Desplat e pela narração de Richard Jenkins como Giles, não deixa margem para dúvidas: estamos em mais um universo de fantasia do seu autor. Apesar do cenário remeter para um local e um tempo da nossa história real, esta é uma versão estilizada da realidade. E é também, sem sombra de dúvida, um conto de fadas adulto. Sally Hawkins, para quem del Toro escreveu especificamente o papel de Elisa, é perfeita na encarnação de uma personagem aparentemente despreocupada, possivelmente ignorada pelos demais pela sua incapacidade de falar, mas com uma vida interior feita de sonhos e desejos. E que refrescante é ver um filme comercial que não tem pudor em mostrar a masturbação como um dos momentos rotineiros do dia-a-dia eternamente repetitivo de alguém para quem a solidão é sentida como uma condição crónica e perene. Aliás, esta é a condição transversal do grupo de amigos de Elisa. Apesar da falta de subtileza, o tom fantasista minimiza os traços largos da caracterização de Giles, o fabuloso Richard Jenkins em mais uma prestação de imediata empatia no papel do vizinho homossexual que tem de esconder a sua escolha perante uma sociedade intolerante e que sofre de amores pelo empregado de balcão da cafetaria que serve horríveis tartes de limão, bem como de Zelda, interpretada com a habitual desenvoltura por Octavia Spencer, uma afro-americana na américa dos anos sessenta — penso que não preciso adiantar mais nada sobre a sua condição neste contexto — que, apesar de casada, é ignorada pelo marido que a trata como uma empregada.

Muito antes de aparecer em cena o sinistro vilão Michael Shannon, como o Coronel Richard Strickland, com a sua presa, o homem anfíbio interpretado pelo eterno colaborador anónimo de del Toro, Doug Jones, o trio de personagens principais é constituído por criaturas humanas oprimidas e rebaixadas na américa dos anos sessenta e que contrariam a natureza do Homem tal como criado à imagem de Deus. Esta é a crença de Strickland, condescendente com Zelda, intolerante perante a ameaça da diferença da criatura e, inevitavelmente, hipócrita face à aparente perfeição do verniz da sua família modelo e do seu modo de vida americano. Sentindo-se atraído sexualmente por Elisa tenta concretizar as suas fantasias com a esposa, calando-a durante o sexo pouco romântico entre os dois, e, mais tarde, insinuando-se à própria Elisa de forma sinistra, revelando-lhe um desejo egoísta nada interessado nos desejos dela ou sequer no respeito que lhe deveria merecer. A mutilação que sofre às mãos da criatura anfíbia, não só corrompe a sua artificial integridade, como é o oposto do tratamento que o suposto monstro reserva para Elisa. Desde o primeiro momento, esta estende-lhe a mão num gesto corajoso de aceitação e empatia, e a sua linguagem gestual vai servir como uma ferramenta de ensino e comunicação que permitirá que, ultrapassando a superfície, veja a criatura como uma alma gémea que lhe oferece um sentido para a vida inexistente até então. A machadada final de comentário político que Guillermo del Toro esforça-se pouco por disfarçar nesta fantasia é a introdução de uma narrativa secundária envolvendo espiões russos através da personagem de Michael Stuhlbarg, o Dr. Robert Hoffstetler, cientista infiltrado nas operações americanas que, independentemente das convicções políticas e nacionalistas, acaba por revelar mais que um interesse científico isento no homem anfíbio, mostrando uma humanidade ausente do aparelho militar que desumanizou Strickland.

Pouco disfarçadas também, são as inspirações e referências cinéfilas de del Toro, além da óbvia já mencionada. O mexicano faz de A Forma da Água também a sua declaração de amor ao cinema em geral, e ao género musical americano em particular. Não só Elisa e Giles moram por cima de um cinema que exibe Os Amores de Ruth, um filme bíblico de 1960, como vemos na televisão do ilustrador amargurado pela passagem do tempo — além de perder o cabelo arrepende-se de todo o sexo que não teve na sua juventude — filmes musicais que inspiram Elisa: Shirley, a Mascote do Regimento, filme com Shirley Temple de 1935, dá origem a um pequeno momento de cumplicidade dançante entre os amigos, e mais tarde a um sapateado no corredor dos apartamentos, enquanto que Meu Coração Canta (1943), através de You’ll Never Know, cantada por Alice Faye, é responsável por um interlúdio de sonho acordado em que o silêncio de Elisa se transfigura numa declaração de amor cantada e dançada ao jeito de Fred Astair e Ginger Rogers em Siga a Marinha (1936).

Guillermo del Toro revela-se aqui como um incurável romântico, mas continua fiel ao seu afecto pelos «monstros» e pelo outro. Talvez a caracterização das personagens de A Forma da Água seja tão óbvia como as suas referências cinéfilas, e, possivelmente, o sublinhar a grosso da origem da verdadeira monstruosidade no seu centro seja pouco subtil. Mas, num mundo em que tememos o que não entendemos, e numa indústria cinematográfica que tende para a normalização e homogeneidade, é de aplaudir a subversão e a heterogeneidade da aceitação e da tolerância que o realizador mexicano nos propõe. Tê-lo feito colocando em causa a validade dos valores do país que lhe produziu o filme, e correndo o risco de ser recompensado por isso na mais importante cerimónia de prémios desse mesmo país, é só a cereja em cima do bolo e mais uma razão forte para querermos destruir muros em vez de os erguer.

Review overview

Summary

Guillermo del Toro revela-se aqui como um incurável romântico, mas continua fiel ao seu afecto pelos "monstros" e pelo outro. Num mundo em que tememos o que não entendemos, e numa indústria cinematográfica que tende para a normalização e homogeneidade, é de aplaudir a subversão e a heterogeneidade da aceitação e da tolerância que o realizador mexicano nos propõe.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4.5 10 excelente

Comentários

Written by António Araújo

António Araújo

Cinéfilo, mascara-se de escritor nas horas vagas, para se revelar em noites de lua cheia como apaixonado podcaster.

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