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Entrevista | Bob Chinn e a Pornografia como género cinematográfico

Bob Chinn

A Take Cinema Magazine conversou com Bob Chinn, um dos mais importantes realizadores de sempre de filmes pornográficos nos Estados Unidos. Com uma carreira como realizador entre 1970 e 2003 foi realizador de muitos filmes de sucesso entre os quais com John Holmes interpretando a personagem Johnny Wadd, fundamentais no desenvolvimento da indústria de cinema para adultos.


De que forma foi importante na sua carreira a licenciatura em cinema na UCLA?

A licenciatura não serviu para quase nada. Os conhecimentos sobre cinema adquiridos na escola, esses sim foram muito valiosos. O curso de cinema da UCLA permitiu-me ver e estudar uma série de filmes que eu nem sabia que existiam e isso deu-me uma boa cultura cinematográfica. Um dos professores que tive foi o grande realizador Josef von Sternberg que nas suas aulas fez uma retrospectiva dos filmes que realizou à medida que explicava a sua forma como os trabalhou.
Isso deu-me uma perspectiva não só relativamente a iluminação e estilo como me ensinou como um realizador deve criar o seu próprio mundo nos filmes que dirige. De Haskell Wexler e James Wong Howe aprendi direcção de fotografia apesar de na minha juventude já ter filmado curtas-metragens. Hugh Gray ensinou-me as estruturas narrativas de um filme.
A licenciatura em cinema não me garantiu trabalho. Tive que começar por baixo, neste caso como construtor de cenários e aos poucos fui tendo funções mais importantes. Mas só a experiência te ensina como realizar filmes.

Como se estruturava a produção de um filme pornográfico?
Dependia sempre do orçamento. No início da minha carreira fazia um filme num dia, em 16mm com 750 dólares. Com o desenvolvimento da indústria pornográfica tive a possibilidade de filmar em 35mm também embora continuasse a manter um controlo financeiro sobre o meu trabalho. Rodava muitas vezes dois filmes ao mesmo tempo. Assim conseguia usar ao máximo os actores, décors e minimizava o aluguer do material de rodagem. Mais tarde já usava um mapa de rodagem e filmava de acordo com uma planificação. Apesar de tudo para mim era fácil manter a cabeça ocupada com dois filmes diferentes (embora os anotadores não achassem isso assim tão interessante). Mas as filmagens corriam sempre bem pois eu sabia sempre o que queria.

Criava os argumentos para os seus filmes ou improvisava no décor?
No início eu criava uma pequena sinopse e improvisava a acção e os diálogos no décor. Os filmes passavam sobretudo em pequenas lojas de material para adulto que também tinham pequenas salas de projecção também. Havia igualmente salas dedicadas ao ‘softcore’ que depois do sucesso de “Pornography in Denmark” (“Pornografia na Dinamarca”) de Alex de Renzy e “Deep Throat” (“Garganta Funda”) de Gerard Damiano passaram a programar ‘hardcore’ regularmente. Quando os filmes começaram a ter uma exposição maior e mais orçamento passei a escrever os diálogos e em vez do improviso, procurava definir os enquadramentos antes da rodagem. Mas como já te disse só o fazia essencialmente quando rodava dois filmes em simultâneo.
E ensaiava?
Sim, inicialmente com os actores a lerem os seus diálogos e mais tarde, já no décor, antes dos takes. Por vezes não era assim tão fácil pois alguns dos intervenientes não estavam propriamente interessados em ser actores.

Qual é o grau de realismo de filmes como “Boogie Nights” ou “Hardcore”?
Apesar de ser baseado em factos reais, “Boogie Nights” é uma obra de ficção e apresenta uma visão dos filmes para adultos a pessoas que desconhecendo-o, gostariam de pensar que ele era assim. É uma excelente obra e gostei muito dela mas não apresentava as pessoas deste meio nos anos setenta de forma muito exacta ou verdadeira. O que mostra acaba por ser algo mais próximo da segunda metade dos anos oitenta, na época do vídeo.
Relativamente a “Hardcore” digo o mesmo: um excelente filme mas pouco exacto. Neste filme para o tornar mais sensacionalista, Paul Schrader introduz a parte ficcional dos “Snuff movies” (ndr: filmes particularmente violentos com mortes, mutilações e tortura sem recorrer a efeitos especiais, ou seja, filmam a realidade do que acontece no local. Diz-se que não existem…) que pura e simplesmente não existia na indústria do cinema pornográfico.
A parte mais real do filme é quando a filha diz ao pai que entrou nos filmes como forma de se revoltar com a educação dura, conservadora que teve e que essa revolta a levou a conseguir o carinho e atenção que o pai, um fervoroso religioso, nunca lhe tinha dado. Da experiência que tenho e das actrizes que conheci, isto era mais comum do que se pensa.

Penso que o porno na altura era algo de consumo imediato. Alguma vez pensou nos filmes que realizava como futuros clássicos?
No início, isto em 1969-1970, sentia que estava a lutar contra a censura com os filmes que fazia. Sim, na altura pensava que seriam para consumo imediato. Nunca pensei que fossem preservados até aos dias de hoje e surpreende-me ainda mais que as pessoas ainda os vejam e que, ainda por cima, gostem de muitos deles.

Um realizador de filmes pornográficos pode ser um “autor”? Ou isso é impossível?
Bem, isso depende da tua definição de “autor”. Como já te tinha dito, Josef von Sternberg teve muito impacto em mim. Ele considerava-se um “autor” pois nas suas aulas dizia que controlava todos os aspectos dos seus filmes. Pessoalmente nunca me vi como um “autor”. Os meus filmes são de diversos géneros cinematográficos, desde o “porno-noir” (do qual dizem eu ter sido o pioneiro) a comédias e dramas. Mas em todos eles sempre tentei definir um mundo meu, sempre esperando que isso possa ser interessante para os espectadores.

Até que ponto um filme pornográfico se pode tornar pessoal?
Penso que, de uma forma abstracta podemos sempre encontrar nos trabalhos de um realizador alguns elementos que podem ajudar a mostrar um pouco da sua personalidade e das suas crenças.

 

Bob Chinn - The Other Side of Paradise

Para saberem mais sobre o realizador Bob Chinn e o desenvolvimento da indústria de filmes pornográficos nos Estados Unidos podem adquirir em livro a sua autobiografia “The Other Side of Paradise: The Uncensored Memoirs of Bob Chinn”.

A editora Vinegar Syndrome tem igualmente restaurado e transcrito a partir dos negativos dos filmes para DVD e Blu-Ray algumas obras deste autor que podem ser encomendadas a partir do site da companhia.

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