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Entrevista a Guilherme Daniel sobre A Estranha Casa na Bruma

A propósito do lançamento da curta-metragem de terror portuguesa A Estranha Casa na Bruma, vencedora do prémio de curtas-metragens do MOTEL/X 2018, e estreada comercialmente esta semana nas sessões do filme Thelma, a Take Cinema Magazine entrevistou o realizador Guilherme Daniel.

 

Take Cinema Magazine: “A Estranha Casa na Bruma” é a sua segunda curta-metragem como realizador, mas tem já uma vasta experiência noutras funções no cinema. Fale-nos um pouco da sua experiência de como tem sido trabalhar no mundo do cinema até ao momento.

Guilherme Daniel: Tive duas pequenas experiências de realização de curtas-metragens enquanto ainda frequentava a Escola de Cinema, e esta é a segunda sem qualquer contexto académico. Trabalho essencialmente como Assistente de Imagem e Director de Fotografia em Cinema e é uma experiência particular, simultaneamente inspiradora e frustrante, fascinante e aterradora.

É uma arte colectiva que envolve muitas pessoas, que contribuem todas para o Filme. E se estivermos abertos aos outros, cria-se uma dança de criação que faz transcender a soma das partes ao arrancar o Filme ao Mundo.

No entanto, o tamanho do país não permite que tenhamos uma indústria de Cinema, e embora concorde com a política de financiamento público das artes como maneira de desenvolver a mais importante identidade de um país (a cultural), neste momento a manta é muito curta. Vemo-nos portanto constantemente a tentar fazer omeletes sem ovos, e embora os desafios façam emergir a criatividade, ao mesmo tempo também há pessoas talentosas que se cansam da tarefa sisifiana, afastam-se do Cinema e deixam-no mais pobre.

Mas, apesar das dificuldades, sou um privilegiado em trabalhar no meio do Cinema e não conseguiria fazer outra coisa.

 

TCM: “A Estranha Casa na Bruma” é uma adaptação de um texto de H. P. Lovecraft. Qual a sua relação com a obra deste autor, e o que o motiva ao querer filmá-lo?

GD: Qualquer fã do Fantástico e do Terror deve ler Lovecraft, um dos grandes mestres do género. Não é no entanto uma escrita muito cinematográfica – os horrores cósmicos que excedem os limites da imaginação e levam a mente humana à loucura não são propriamente coisas para as quais se possam apontar uma câmara. O que não quer dizer que Lovecraft não seja uma influência importantíssima numa grande fatia de Cinema Fantástico.

Neste caso específico, achei que o conto tinha uma ambiência carregada que me interessava, e que conseguiria adaptar – primeiro a temáticas que me interessam, e segundo dentro dos meios de produção que eu e a Raquel [Santos, co-produtora e directora de arte] conseguiríamos conjurar (embora não sem desafios).

TCM: Penso que, para quem vê o filme, aquilo que transparece imediatamente é uma estranheza desconfortável que depois culmina em tragédia. Quais as suas principais preocupações ao filmar no sentido de dar vida a este conto, quando filmar Lovecraft é tão difícil?

GD: A primeira das preocupações foi de ordem prática. O conto gira à volta de uma casa que está à beira de uma falésia, e cuja única porta dá para o abismo, e tivemos de perceber se era possível fazer isto com segurança para todos os envolvidos.

Depois disto, era necessário tentar captar a envolvência de mistério presente no conto. Concentramo-nos na personagem principal e na sua crise de fé, porque o terror lovecraftiano é também a influência dos horrores no Homem. Como temos total confiança na capacidade do Daniel Viana em carregar a personagem, o filme torna-se mais fácil.

 

TCM: Depois da menção honrosa de “Depois do Silêncio” no MOTEL/X 2017, e agora a vitória em 2018, como vê o papel dos festivais de cinema na divulgação de obras de jovens autores?

GD: O prémio num festival como o MOTEL/X, que se tem vindo a tornar num festival grande mesmo em termos internacionais, é importante. No entanto é incomparável a exposição que estamos a ter este ano com por exemplo o ano passado, mesmo tendo merecido uma menção honrosa. É natural que os prémios dêem destaque, mas ao mesmo tempo é triste a discrepância que faz com que outros filmes de qualidade não cheguem a mais pessoas.

Dito isto, os festivais de cinema são importantíssimos para que jovens autores possam mostrar e desenvolver um corpo de trabalho, e é aqui que surgem os cineastas que vão assumir o Cinema em Portugal.

 

TCM: E continuando a pergunta anterior, para lá destes festivais, o que poderia ser feito para melhor levar o cinema português junto do público?

GD: Gostava de ver mais curtas-metragens programadas no circuito comercial, juntamente com longas-metragens, por exemplo. Vai acontecendo esporadicamente, mas acho que seria importante tornar-se uma coisa comum ir-se ao cinema ver uma longa, e antes ver uma curta-metragem portuguesa.

Depois do prémio no MOTEL/X a Cinema Bold mostrou interesse em distribuir a curta nas salas, e portanto poderemos vê-la em Outubro juntamente com a longa-metragem Thelma de Joachim Trier.

 

TCM: Para si, dirigir um filme é ainda só um part-time, ou é aquilo em que gostaria que a sua carreira se tornasse a tempo inteiro num futuro próximo?

GD: É um part-time, de facto. O meu foco é em fazer Direcção de Fotografia, e também por isso vou criando estes projectos de curta-metragem quando tenho ideias na cabeça que me permitam explorar alguma coisa na fotografia.

 

TCM: E para finalizar, o seu filme surge sob a etiqueta Suspicio Filmes. O que nos pode dizer sobre esse projecto de produtora?

GD: Desde os tempos da Escola de Cinema que desenvolvo curtas-metragens com alguma regularidade juntamente com a Raquel Santos (Directora de Arte deste filme). São projectos que nos permitem evoluir nas nossas áreas específicas, e trabalhar de maneira criativa com colegas da área a quem temos amor. O ano passado resolvemos criar uma etiqueta para agregar estes filmes que já são uns quantos, mas não somos uma produtora propriamente dita.

 

TCM: Muito obrigado pela disponibilidade e as melhores felicidades nos seus projectos futuros.

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