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[Doclisboa 2018] The Waldheim Waltz

de Ruth Beckermann

excelente

A escolha de The Waldheim Waltz como filme de abertura da 16ª edição do DocLisboa não poderia ter sido mais oportuna. Num ano em que se tem assistido a uma escalada da extrema-direita no plano internacional e em que a direcção do festival denuncia ter recebido pressões por parte das embaixadas da Ucrânia e da Turquia a propósito da sua programação, a reflexão sobre o jogo de revelações e ocultações que operam na construção da(s) História(s) adquire uma urgência vital.

 

Antes mesmo da projecção do filme de Ruth Beckermann, a intervenção dos programadores Cíntia Gil e Davide Oberto foi marcada por referências à actualidade política. Cíntia Gil aludiu ao recém-apresentado orçamento de estado, que considera carecer de uma visão consistente para a cultura enquanto serviço público, em contraste com as múltiplas referências ao turismo enquanto área prioritária, apesar do aumento geral da verba atribuída à cultura. Por outro lado, a programadora lançou um apelo à necessidade de financiamento da plataforma Buala, parceira do DocLisboa, que nos últimos anos tem produzido e reunido pensamento sobre o pós-colonialismo, missão vital para repensar a história portuguesa, mas que não tem encontrado suficientes ecos nas instituições portuguesas. A plataforma independente vê agora a sua continuidade ameaçada pela ausência de financiamento. Estas observações cruzaram-se com a apresentação das várias secções do DocLisboa como oportunidades para um “encontro com o mundo”, afirmando a missão do festival enquanto espaço para o pensamento livre.

 

The Waldheim Waltz foi apresentado por Ruth Beckermann como um filme “pensado para a Áustria”, mas que ganhou uma inesperada pertinência internacional. O filme trata do caso de Kurt Waldheim, político austríaco e secretário-geral das Nações Unidas entre 1972 e 1981, cujo encobrimento da sua participação nas S.A. enquanto militar, e consequente conhecimento de crimes de guerra cometidos na Grécia e na antiga Jugoslávia, onde estava destacado, foi sendo lentamente revelado em plena campanha eleitoral para as presidenciais de 1986, em que era candidato. O filme concentra-se no período que antecedeu as eleições e resulta da hábil edição de filmagens feitas por Beckermann, na altura uma jovem activista dividida entre os imperativos de participar ou registar os acontecimentos, e de milhares de horas de imagens televisivas da época. O resultado é um olhar sobre o caso de Waldheim mais de 30 anos depois, quando a realizadora afirma ter conquistado a distância necessária para ver “a imagem completa”, então ofuscada pela sua proximidade face aos acontecimentos.

 

É a voz da realizadora que narra o filme, relatando com sagacidade a complexa “dança” entre Waldheim e os media, à medida que um número crescente de indícios vão sendo revelados, primeiramente por um jornalista de investigação na revista Profil e, depois, pelos membros do World Jewish Congress. The Waldheim Waltz conta também a história da geração nascida no pós-guerra, dividida entre a ânsia de olhar nos olhos o passado recente doloroso, e o desejo de uma continuidade velada deste mesmo passado. Numa cena particularmente premente, Beckermann filma o confronto entre os detractores e os apoiantes de Waldheim, em que um jovem austríaco profere às claras palavras de ordem anti-semitas. O caso Waldheim corporizou, assim, a Áustria da sua época: um país que se apressou a assumir o papel de “primeira vítima do nazismo”, não tendo pago restituições às suas vítimas e cedo tendo abandonado a investigação do passado de milhares de membros austríacos do parti nazi. Além destas questões, The Waldheim Waltz toca – talvez de forma demasiado tangencial –, a questão do conflito israelo-palestiniano, uma vez que a OLP foi recebida na ONU em 1974, durante o mandato de Waldheim. Uma sequência de imagens icónicas passadas na assembleia-geral da ONU põe em cena a coexistência do anti-semitismo no pós-guerra e das reivindicações legítimas dos palestinianos, recuando às raízes de uma tensão que perdura até hoje, com consequências trágicas e desiguais.

 

O facto de Waldheim ter sido eleito com 53% dos votos na segunda volta das eleições, apesar de se ter provado que havia mentido sobre o seu passado, reverbera inevitavelmente com a situação actualmente vivida no Brasil, onde no próximo domingo será disputada a segunda volta das eleições, com o risco de eleição de Jair Bolsonaro. Se Waldheim pontuou a sua campanha com referências anti-semitas encobertas, Bolsonaro faz hoje a apologia da tortura e profere declarações homofóbicas e misóginas sem qualquer pudor. Em comum, têm a aparente substituição da política por um programa de unidade nacional centrado em questões morais. Em 1986, os media tiveram um papel crucial enquanto espaço público de escrutínio e debate. Hoje, a ausência do contraditório nas redes sociais e a crise dos media tradicionais tornam mais difícil o apuramento da verdade. Porém, a questão mais preocupante que une ambos os casos é que a revelação de factos abjectos e o apelo a valores democráticos parecem não ter suficiente poder persuasivo. The Waldheim Waltz termina algo abruptamente, deixando a desejar uma exploração dos desenvolvimentos dos trinta anos passados entre 1986 e os dias de hoje. Seguir os fios que ligam o passado recente (com as devidas especificidades locais) a um presente marcado por tendências políticas preocupantes será crucial para continuar a pensar e agir hoje.

O filme Those Who Go and Those Who Stay (2013), de Ruth Beckermann, será exibido no Goethe-Institut de Lisboa a 31 de Outubro, pelas 18h30, no âmbito do ciclo “Olhares em Diálogo”, com entrada gratuita.

 

Crítica assinada por Filipa Cordeiro, convidada pela Take Cinema Magazine

Review overview

Summary

Utilizando apenas imagens produzidas em 1986, Ruth Beckermann revela habilmente os jogos de verdade e mentira que operam na política e na construção da história, criando um filme cuja relevância vai muito além do caso específico de Kurt Waldheim.

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