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[Doclisboa 2018] Of Fathers and Sons

de Talal Derki

muito bom

“O Kathab queria matá-lo. Colocou uma faca no peito do pássaro e ele começou a chiar. Colocámos a cabeça dele para baixo e cortámos, tal como fizeste com aquele homem” diz Osama, um adolescente de treze anos de idade, junto de Abu Osama, o seu pai. O facto de Osama saber que o progenitor cortou a cabeça a alguém e tratar o acto de eliminar a pequena ave como uma brincadeira sublinha e muito o quanto estes elementos estão habituados a lidar com a violência – uma atitude que também remete para o contexto caótico que os rodeia. É Abu Osama e o seu núcleo familiar que ficamos a conhecer em “Of Fathers and Sons”, um documentário que se envolve pelo interior de uma família islâmica radical da Síria tendo em vista a captar o quotidiano da mesma e a tentar perceber o que leva alguém a radicalizar-se e a participar num conflito que não parece ter fim à vista. Para ser bem-sucedido nessa tarefa o realizador Talal Derki finge não só que é um repórter fotográfico, mas também que comunga destes ideais radicais – isto enquanto ganha a confiança de Abu Osama, um dos fundadores da Al-Nusra, o “braço” sírio da Al-Qaeda.

Com uma barba farta, crente, conservador nos seus valores, Abu Osama acredita piamente na Xaria e no Califado, é um dedicado pai de família e extremista até ao tutano. Note-se como escolheu os nomes dos seus filhos: Mohammad-Omar em homenagem ao príncipe dos Talibans no Afeganistão; Osama devido ao amor por Osama bin Laden; Ayman em honra do Dr. Ayman Al-Zawari. A felicidade por Mohammad-Omar ter nascido a 11 de Setembro 2007, seis anos após um episódio que o enche de orgulho, também é reveladora do fanatismo deste indivíduo, um pouco à imagem dos seus actos quotidianos. Observe-se quando o encontramos a disparar contra inimigos ou a capturar sunitas em conjunto com outros membros da Al-Nusra, entre outras práticas pontuadas pela violência que marcam as rotinas deste especialista a desarmar armas e a detectar minas. No rádio escuta acima de tudo canções que evocam a sua luta e os seus ideais extremistas, enquanto em casa procura transmitir os seus ideais e valores aos seus filhos. Diga-se que as dinâmicas deste indivíduo com os rebentos e o dia-a-dia dos petizes são alguns dos ingredientes fulcrais do documentário, algo que permite atribuir alguma complexidade a estas figuras.

Os noticiários deixam-nos muitas das vezes perante as acções terroristas de grupos como a Al-Nusra. No entanto, os membros destas unidades são regularmente apresentados como figuras quase anónimas ou definidas pelos seus ideais extremistas e pelo facto de pertencerem a uma célula criminosa. Talal Terki também apresenta estes actos e a dimensão colectiva que envolve as acções destes indivíduos, mas vai mais a fundo e foge ao retrato a preto e branco enquanto explana a humanidade e a identidade destes elementos. Note-se quando encontramos Abu Osama a brincar com os filhos, com a proximidade deste com os rebentos a ser notória. Existe amor no olhar deste indivíduo, mas também ódio e uma obstinação notória para continuar um conflito de longa duração. O petiz que mais se destaca é Osama, um jovem impetuoso, algo rebelde, que gosta de brincar e é frequentemente colocado perante a violência do território. Como crescer no interior de um contexto tão intrincado e violento sem ser influenciado pelo mesmo? Parece praticamente impossível. Veja-se quando encontramos um grupo de petizes a pisar uma garrafa enquanto simula que esta é uma mina, ou a fase do enredo em que Osama e o seu irmão Ayman são enviados para um campo destinado a treinar os combatentes. É quase certo que algo se vai perder no interior deste espaço, sobretudo uma certa inocência juvenil, algo exposto de forma contundente por “Of Fathers and Sons”.

Em determinado ponto do filme, encontramos os jovens com a cara tapada, vestidos como militares e a segurarem em armas. Estão em pleno treino. Aprendem a utilizar armas, a matar, a sobreviver e recebem todo um conjunto de ensinamentos que prometem marcar a sua existência. É duro de ver, sobretudo quando percebemos que se tivéssemos nascido neste local o mais certo é que também estaríamos ali e o nosso futuro seria o terrorismo. A partir do momento em que chegarem à maioridade, ou até antes, é muito provável que estes rapazes defendam os valores da Al-Nusra e partam para a sua Jihad contra o inimigo. Foi para isso que foram treinados desde cedo, uma situação que adensa o nosso pessimismo em relação a este conflito na Síria. Como combater algo que está profundamente enraizado? Quando é que este conflito terá um fim à vista? Ayman ainda prossegue a educação devido a não parecer preparado para o treino. Será que vai conseguir fugir ao destino? É algo que não sabemos, com este regresso de Talal Derki à Síria, a sua terra natal, a surgir acompanhado pelo amargo sabor da desesperança.

Se as explosões fazem parte dos sons rotineiros deste território, já as mulheres são praticamente silenciadas. Um silêncio que espelha os valores conservadores e machistas dos elementos que nos são apresentados. Note-se quando encontramos Abu Osama a afugentar a sobrinha, uma petiz de dois anos de idade, com as mulheres e as raparigas a surgirem quase sempre em fora de campo, uma decisão de Talal Derki que permite dizer muito sobre esta sociedade. “Of Fathers and Sons” apresenta eficazmente este contexto, enquanto parte das dinâmicas de uma família islâmica radical e das especificidades de alguns dos seus membros para se embrenhar em assuntos complexos sobre a Guerra da Síria.

Review overview

Summary

"Of Fathers and Sons" apresenta eficazmente o contexto que rodeia os diversos elementos, enquanto parte das dinâmicas de uma família islâmica radical e das especificidades de alguns dos seus membros para se embrenhar em assuntos complexos sobre a Guerra da Síria.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

Comentários

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