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Custódia Partilhada

de Xavier Legrand

excelente

Primeira longa-metragem realizada por Xavier Legrand, “Jusqu’à la garde” (Custódia Partilhada) envolve-se com argúcia por temáticas relacionadas com a violência doméstica, o modo como os filhos lidam com o divórcio dos pais e as dinâmicas entre os progenitores e os seus rebentos. Será possível que um mau marido seja um bom pai? “Não quero que batas na mãe” diz Julien (Thomas Gioria), um pré-adolescente de treze anos de idade, a Antoine (Denis Ménochet), o seu progenitor. Esperamos uma palavra de conforto, ou um desmentido da parte deste último, mas aquilo que recebemos é um olhar fulminante, carregado de raiva e um sentimento de despeito difícil de conter. Segue-se um seco “eu encontro” da parte do responsável contra incêndios do Centro Hospitalar Lecorney, que logo desfaz as dúvidas do jovem. O objectivo de Antoine é saber onde Miriam (Léa Drucker), de quem se está a divorciar, encontra-se a viver com Julien e Joséphine (Mathilde Auneveux). Se esta última está quase a completar dezoito anos de idade e pode evitar os encontros com o pai, já o pré-adolescente é praticamente feito refém de uma batalha pela sua custódia enquanto tenta defender a progenitora das acções violentas e intempestivas do familiar.

Os momentos iniciais da fita remetem precisamente para a audiência onde as advogadas dos cônjuges procuram defender os interesses dos clientes junto da juíza, ao passo que esta última tenta absorver a informação de que dispõe, tendo em vista a a efectuar uma decisão justa. Filmados num estilo quase documental, os trechos relacionados com a reunião permitem expor duas visões distintas dos factos e explanar a perícia de Xavier Legrand a potenciar a tensão. Os planos fechados fazem com que o espaço da sala da juíza aparente tornar-se ainda mais diminuto, enquanto a câmara centra as atenções nos semblantes dos diversos interlocutores e ficamos diante da argumentação dos dois lados. Um texto de Julien, lido pela juíza, permite expor que o jovem receia o pai e não tem a mínima vontade de viver com o mesmo. Miriam quer a custódia total da criança e afastar-se do futuro ex-marido. Por sua vez, a advogada de Antoine pretende que este partilhe a guarda do jovem e tenta descredibilizar alguma da argumentação da esposa do seu cliente. Quem está a mentir ou a dizer a verdade? O medo que Antoine desperta nos filhos já deveria ser um indicador do lado em que está o problema, algo corroborado quando o encontramos com o pré-adolescente e percebemos a violência alimentada a inseguranças e desequilíbrios emocionais que carrega no seu interior.

Denis Ménochet compõe o seu personagem como um vulcão que entra facilmente em erupção, praticamente incapaz de conter os seus impulsos destrutivos ou de exprimir afecto. Em determinado momento ainda o encontramos a exibir um certo arrependimento, embora seja um acto típico de alguém que está a tentar enganar a si próprio. O actor é extremamente eficaz a exprimir-se com o olhar e as expressões do rosto. Neles encontramos dor, amargura, violência, despeito e um ressentimento perigoso. Até pode ter um ou outro argumento relativamente válido, mas os seus comportamentos são completamente inaceitáveis e retiram toda e qualquer possibilidade de acreditarmos que seja capaz de conviver com os rebentos ou das suas possíveis boas intenções. Mais do que querer estar com o filho, transmite a ideia de que pretende magoar emocionalmente a esposa, enquanto esta tenta seguir em frente, ainda que nem sempre consiga escapar à perseguição deste indivíduo.

Mathilde Auneveux exprime com acerto o receio que a sua personagem tem do esposo, o afecto que esta sente pelos filhos e a sua vontade de recomeçar. Para isso conta com a ajuda da irmã e dos pais, bem como com a protecção do petiz. Tal como qualquer jovem que está no meio de uma disputa entre os progenitores, o personagem interpretado com desenvoltura por Thomas Gioria raramente tem direito a grandes diálogos. No entanto, os seus gestos e acções são de enorme relevo e permitem explanar o que vai na sua mente. Note-se as diversas mentiras que diz ao pai para proteger a mãe, ou o acto de apagar o número desta do telemóvel para que o progenitor não encontre novamente o mesmo. O episódio mencionado no início do texto é paradigmático do quão inquietantes são estas reuniões entre pai e filho. Diga-se que a atmosfera tensa e opressora que pontua uma parte considerável do cerne de “Jusqu’à la garde” não é obra do acaso. Os planos fechados são utilizados com precisão para sublinharem os sentimentos que percorrem os rostos e criarem uma sensação de aflição no espectador. O som de um carro ou de uma chamada telefónica potenciam facilmente o nervosismo e formam uma banda sonora de sons do quotidiano que muito acrescenta ao enredo, um pouco à imagem dos silêncios que exprimem imenso ou despertam o nosso receio ou a dúvida em relação ao rumo de alguns episódios.

Alguns destes ingredientes são utilizados de maneira sublime no último terço, nomeadamente, quando Xavier Legrand resolve penetrar pelos terrenos de “The Shining” e segurar-nos pelos colarinhos até entrarmos num estado de enorme ansiedade. Nos trechos que ecoam a magnífica obra de Stanley Kubrick, que decorrem numa fase adiantada ao ponto de não podermos revelar detalhes excessivamente pormenorizados, a fotografia, a sonoplastia, o trabalho dos actores, a montagem, o design de produção e o labor do cineasta ajudam e muito a que tudo funcione. Dois personagens transmitem receio, outros ansiedade, enquanto um explana uma cólera incontrolável. O som de uma campainha provoca quase tanto pavor como o seu silêncio. A montagem agiliza o diálogo entre as diferentes perspectivas que cada elemento tem do momento, incute dinamismo e reforça a ansiedade. Essa tensão advém também de nesta fase já conhecermos os personagens e os seus comportamentos, fruto de um argumento competente a construir os mesmos e de uma interacção convincente entre os integrantes do elenco.

Uma das excepções em relação à boa construção dos personagens é a Joséphine de Mathilde Auneveux, uma jovem que estuda no Conservatório, namora com Samuel (Mathieu Saikaly), gosta de cantar e é demasiadamente colocada de lado neste turbilhão que rodeia o irmão. Tem um momento de cantoria que permite conciliar na perfeição a energia desse trecho com a tensão que decorre fora do recinto onde canta, mas é muito pouco. Já Jérome Care-Aulanier conta com uma participação curta mas importante como um indivíduo que tem de ser a voz da ponderação numa situação de risco, enquanto Martine Vandeville e Jean-Marie Winling sobressaem como os pais de Antoine, um casal simpático e afectuoso que reprova os comportamentos irascíveis do filho.

Tal como já foi mencionado, Julien está no centro do furacão. A adolescência é uma fase onde tudo é vivido de forma muito própria e a personalidade encontra-se em formação. Julien não só tem de lidar com isso, mas também com um contexto familiar intrincado. No entanto, não replica o comportamento do progenitor, bem pelo contrário. Opta por uma postura protectora, enquanto permite a Xavier Legrand embrenhar-se pelos efeitos que estas disputas intrincadas entre pais provocam nos filhos. O cineasta exibe os perigos de assobiarmos para o lado em casos de violência doméstica e os riscos inerentes aos mesmos, enquanto desperta a nossa reflexão e inquietação. E “Jusqu’à la garde” é filme que desassossega, mexe com as nossas emoções e coloca Xavier Legrand como um nome a seguir com imensa atenção.

Review overview

Summary

Xavier Legrand exibe os perigos de assobiarmos para o lado em casos de violência doméstica e os riscos inerentes aos mesmos, enquanto desperta a nossa reflexão e inquietação. E "Jusqu'à la garde" é filme que desassossega, mexe com as nossas emoções e coloca Xavier Legrand como um nome a seguir com imensa atenção.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4.05 10 excelente

Comentários

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