Share, , Google Plus, Pinterest,

Print

Posted in:

Correio de Droga

de Clint Eastwood

muito bom

Aos 88 anos, Clint Eastwood volta ao topo da sua forma, mostrando que o cinema clássico ainda tem muito para dar.

 

A dada altura, Earl – a personagem de Clint Eastwood em Correio de Droga (The Mule, 2018) – diz “é a última vez que faço isto”. Não deixamos de pensar que, com essa frase, o veterano actor e realizador se está a despedir de nós e a fazer deste filme aquilo que os críticos tanto gostam de chamar um filme-testamento.

Com algumas escolhas recentes de temas que o têm colocado na mira da crítica, a que se associam algumas posições políticas mais controversas, o sempre conservador Clint Eastwood, representante de uma velha América que talvez só já exista na sua mente, traz-nos mais um conto americano de heróis do quotidiano, onde a paisagem da sua nação, o colorido da população, as incertezas de prioridades e o conflito geracional são a nota dominante. E, mais uma vez, Eastwood mostra-nos que filmar em jeito clássico continua a fazer sentido, sobretudo quando vem de alguém que o faz com o coração. E esse coração não era tão evidente desde a obra-prima Gran Torino (2008), que tem claros pontos de contacto com este filme, nem que seja pelo olhar do protagonista (Earl Stone ou Walt Kowalski), um dinossauro em vias de extinção.

Correio de Droga poderá parecer a muitos uma curiosa história de um traficante inesperado, como aquelas que, em tons cómicos, nos vão trazendo velhinhas vigaristas e crianças heróicas. Mas desenganem-se! Correio de Droga não é nada disso, mas sim um drama na primeira pessoa (mesmo que com várias piscadelas de olho cómicas) de alguém que, chegado à recta final da sua vida tem de lhe prestar contas, e tem principalmente de prestar contas a si próprio.

E mais uma vez, falamos de Earl, como se calhar estamos a falar de Clint Eastwood, que aqui decidiu vestir a pele do seu protagonista, como um homem ainda viril, ainda com sentido de humor e gosto pela vida, mas sentindo que as amarguras do tempo, e muitas decisões erradas do passado estão agora a espreitar, mostrando-lhe que já não se pode esconder delas.

Pelo meio há a história do tráfico, claro, com várias peripécias bem-dispostas, e alguns erros de argumento que evidenciam que é apenas a história do velho Earl que nos interessa – era dispensável tanto destaque à polícia (a não ser que Bradley Cooper tenha exigido mais tempo de tela), a qual nada traz ao filme a não ser distrair do tema principal – e, por paradoxal que isso possa parecer, é com Earl que o filme ganha vida, e sem ele, perde-a completamente.

Um pouco como David Lynch fizera com Uma História Simples (The Straight Story, 1999), Correio de Droga é um olhar apaixonado, ainda que cáustico, para a sua América, a tradicional, das profundezas rurais, vista pelos olhos de um simpático ancião com muitos erros na sua vida, mas uma dedicação honesta a causas, seja a guerra em que lutou, ou as flores que tanto ama. Essa América é a da paisagem monumental, onde concursos horticultura, cavalheirismos bacocos, e bailes de veteranos vão perdendo espaço para a geração da internet e dinheiro rápido.

No final, expiando os seus crimes voluntariamente, Earl Stone lembra-nos que é a família que realmente importa, e não o trabalho. No que nos diz respeito, como fãs de Eastwood apetece-nos agradecer-lhe pela brilhante carreira que se calhar o retirou muito da sua família, e o fez parte da nossa. E Correio da Droga é mais um dos bons frutos dessa carreira.

Review overview

Summary

Conto simples de um pacato cidadão da América profunda, Correio de Droga, mais que um drama criminal, é um olhar comovido de um homem que precisa de fazer contas com a vida e com as decisões que nem sempre foram as melhores. Filme-testamento de Clint Eastwood? Seja, ou não, chega perto do melhor que já nos deu.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários

Share, , Google Plus, Pinterest,