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Corações de Pedra | Entrevista a Guðmundur Arnar Guðmundsson

Guðmundur Arnar Guðmundsson© by Marco Laureano

Falámos com Guðmundur, realizador de ‘Corações de Pedra’, a sua primeira longa-metragem e uma das novas esperanças do cinema islandês. O filme estreia em Portugal a 25 de Maio.

 

 

A natureza tem por tradição uma grande influência no cinema nórdico. Isso afectou a sua planificação do filme? Como?

Ao crescer na Islândia, a natureza torna-se de imediato uma parte de nós. Quando crescemos não é suposto mostrarmos muitas emoções, temos que ser duros. Eu saía muitas vezes, olhava para as montanhas para tentar entender os meus sentimentos e emoções e deixava-as sair sempre que podia.

Actualmente sempre que escrevo histórias, as minhas personagens estão quase sempre a esconder alguma coisa, normalmente parte das suas emoções e acabam por encontrar alguma forma de as extravasar. Se não o fazem através da natureza, normalmente esta serve como contraste dessas emoções.

Como a natureza é tão bonita na Islândia, tenho que tomar cuidado em colocá-la ao serviço da história de modo a que ela não se sobreponha esteticamente ao filme. É uma luta constante até em termos de produção pois durante a filmagem estamos sempre a combater as condições meteorológicas.

 

O filme apresenta movimentos de câmara muito fluídos, poucos enquadramentos fixos. Foi uma opção estética ou de produção?

Queríamos usar a câmara ao ombro o máximo possível para dar o máximo de flexibilidade ao operador de câmara e aos actores para experimentarem movimentos e acções. O operador de câmara seguia os actores e criava-se uma espécie de dança entre eles e eu. Por outro lado isto acelerava a produção pois os planos demoravam menos tempo a ser executados. A iluminação interior também ajudava pois houve um grande cuidado com a luz para criar o ‘mood’ correcto e graças às câmaras actuais que necessitam de muito menos luz, pudémos utilizar essencialmente luz natural, lâmpadas, candeeiros, e assim ter uma luz mais normal e ajudar a essa movimentação de câmara mais livre. Utilizávamos os projectores mais em exteriores para termos uma luz mais balanceada.

Corações de Pedra

Existe uma dureza bastante grande na relação entre as personagens do filme. As personagens têm alma mas são muito agrestes.

Os adolescentes, penso eu, são normalmente agressivos entre si e muitas vezes há situações de grande extremismo: podem ser muito sensíveis e atenciosos entre si e no momento seguinte explodirem e depois voltarem a ser sensíveis e por aí fora. Penso que quando eu era pequeno o comportamento das crianças era muito mais livre: brincava-se mais na rua e faziam-se asneiras sem nos importarmos muito com as consequências. Por exemplo, a cena de abertura do filme é dura mas normal para quem nasce fora das cidades na relação com os animais selvagens. E não se pensa muito nessa relação. Quando me mudei para uma cidade mais pequena estranhei um pouco: a maioria das crianças respeitava os animais que produziam algo, que eram úteis, os outros não. Obviamente que não eram todas iguais mas a maioria era assim. Penso que é um comportamento mais físico, mais dos anos 90 e anteriores. hoje as crianças já estão mais ligadas a outros interesses.

 

A música no filme apenas começa por volta dos 50 minutos. Como justifica essa opção?

A música diegética do filme é toda de artistas islandeses. Foi uma opção pois temos excelentes músicos e foi muito bom poder contar com a colaboração deles. Já a não-diegética foi algo que surgiu na pós-produção. Experimentámos alguma música antes desses 50 minutos mas não adiantava nada ao filme e apenas nos afastava do interesse da história. Curiosamente depois disso temos à volta de 16 músicas diferentes.

 

Como foi o trabalho com os actores na pré-produção do filme? Como trabalhou os ensaios?

Ensaiámos à volta de oito meses, duas vezes por semana, duas horas por dia. Aí tentámos ensiná-los a representar e a resolver os problemas relacionados com a filmagem de uma longa-metragem. Sabíamos que ser tão longo os poderia aborrecer e queríamos também ter a certeza que eles iriam aguentar a pressão e que estavam comprometidos com o filme. Tinham que compreender que isto é trabalho, não é suposto ser agradável, não é suposto ser divertido e tem que haver regras, e aí fomos um pouco severos com eles.

Ao mesmo tempo eles sabiam que podiam falar das suas preocupações e problemas e que os apoiávamos e os ouvíamos. A única coisa que não podiam dizer era que não eram capazes. Tinham que tentar sempre. Podiam não fazer o que era pretendido mas tinham que tentar e esforçar-se. Eles sabiam que a responsabilidade da sua representação não era deles, era nossa, mas tinham sempre que tentar.

Tentámos também criar um ambiente de equipa, de modo que se alguém fosse rude ou mau para os outros sabia que podia ser despedido.

 

O material que levou da filmagem permitiu-lhe fazer o filme que tinha idealizado ou transformou a sua ideia inicial?

Naturalmente que os editores levaram para a sala de montagem todos os seus conhecimentos e capacidades e como são excelentes deram um contributo muito importante e como em qualquer filme europeu, a versão final da montagem é minha.

A ideia inicial manteve-se completamente inalterada. De facto o que mudou foi resultado da interacção com as equipas de montagem e de som que me ajudaram a evoluir o filme sob um ponto de vista mais técnico.

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