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Como Fernando Pessoa Salvou Portugal

de Eugène Green

bom

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se”, disse Fernando Pessoa da Coca-Cola nos anos 1920, e, segundo Eugène Green, terá assim salvo (involuntariamente ou não) o nosso país de ser invadido por ela. Ou pelo menos é esse exercício que o realizador nos propõe.

 

Um pouco como na famosa frase publicitária de Fernando Pessoa que lhe dá mote, a curta-metragem de Eugène Green Como Fernando Pessoa Salvou Portugal (2018) “primeiro estranha-se depois entranha-se”. Estranha-se pela forma como situações e actuações estilizadas surgem como caricaturas num filme de época que faz uma reconstituição simples, mas irrepreensível, de espaços e temos do início do século XX. Entranha-se quando percebemos que estamos perante um pequeno exercício que brinca com uma suposta ameaça (a da Coca-Cola, aos olhos do Estado Novo, entenda-se), e à qual a citada frase de Pessoa veio a exacerbar a pretensa perigosidade, atribuída a capacidades demoníacas e talvez drogas, que resultou na proibição da bebida em Portugal durante o Estado Novo.

Fala-se da Coca-Loca (aqui representando a verdadeira Coca-Cola), cujo primeiro slogan em Portugal foi de facto criado pelo poeta numa frase que não é exactamente uma clara manifestação de apreciação, deixando espaço para a ideia de que talvez Pessoa fosse o seu primeiro detractor. Aqui surgida numa curiosa conversa do personagem com ele próprio (ou melhor com um dos heterónimos, Álvaro de Campos – ambos interpretados por Carloto Cotta), a pedido do seu patrão Moitinho de Almeida (o realizador Manuel Mozos) e temida pelo governo, na pessoa do Ministro (Diogo Dória) e seu secretário Moutinho (Alexandre Pieroni Calado).

Com breves vinhetas, quase sempre em diálogos muito estilizados (Pessoa com Moitinho de Almeida, Álvaro de Campos e Pessoa, Ministro com Moutinho), exorcismos de um padre chamado Bicha da Horta (Ricardo Gross), e uma sessão fotográfica com uma modelo (Mia Tomé). Como Fernando Pessoa Salvou Portugal vai brincando com situações, com personagens que, à excepção do muito sério e taciturno Pessoa, parecem tirados de um desenho animado, caricaturando um aparelho de Estado retrógrado, uma mentalidade fechada, e uma certa portugalidade trágica (regada a música de Camané) aqui tornados ridiculamente risíveis.

Nota: Como Fernando Pessoa Salvou Portugal estreou nas salas portuguesas nas sessões do filme 9 Dedos (9 doigts, 2017) de F. J. Ossang.

Review overview

Summary

Como Fernando Pessoa Salvou Portugal é um pequeno exercício que brinca, por entre uma reconstituição de filme de época e um humor absurdo e estilizado, com o medo de abertura do Estado Novo, no episódio da introdução da Coca-Cola em Portugal.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3 10 bom

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