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Columbus

de Kogonada

muito bom

Primeira longa-metragem realizada por Kogonada, “Columbus” é um exemplo paradigmático de uma obra em que o estilo contribui para elevar a substância. Os seus planos, muitas das vezes fixos e de longa duração, são elaborados de forma precisa e delicada, os quadros no interior dos quadros são exemplarmente arquitectados e utilizados, a arquitectura da cidade do título é conjugada de forma harmoniosa com os personagens, enquanto a influência de Yasujiro Ozu é sentida em quase todos os seus poros. Não faltam os pillow shots, os planos fixos e dotados de simetria (muitas das vezes gerais ou de conjunto), uma sensação de harmonia e uma chaleira vermelha, com essa inspiração a ser ainda visível quando encontramos Casey (Haley Lu Richardson) e Gabriel (Rory Culkin), dois funcionários de uma biblioteca, a dialogarem sentados no chão, quase como se estivessem num tatami.

Casey tem cerca de vinte anos de idade, é uma admiradora de arquitectura e tarda em sair de Columbus devido a não querer abandonar Maria (Michelle Forbes), a sua mãe, uma toxicodependente em recuperação. A jovem é uma das protagonistas, tal como Jin (John Cho), um indivíduo que trabalha na Coreia do Sul como tradutor de livros de inglês para coreano, que viaja até Columbus devido ao facto do seu pai, um famoso académico, ter sofrido um ataque que o colocou em coma. Os dois acabam por entrar em contacto por acaso, quando a bibliotecária estava a fumar, naquele que é um dos raros trechos do filme em que a câmara se movimenta. Esta desloca-se suavemente enquanto acompanha os protagonistas e o ritmo dos seus diálogos, com as grades que os separam a nível inicial a simbolizarem a situação defensiva de cada um.

A química entre John Cho e Haley Lu Richardson é notória, com a dupla a convencer da forte ligação que se estabelece entre os dois personagens. Ambos parecem presos a este território, um espaço pontuado por uma série de edifícios de relevo que despertam um certo fascínio em Casey, algo que esta procura transmitir a Jin. “I’m interested in what moves you particularly about a building“, salienta o tradutor junto da jovem, após ela ter efectuado um discurso semelhante a um guia turístico. É um momento-chave para percebermos a dupla de protagonistas e aquilo que Kogonada efectua, ou seja, um filme que estimula o espectador a sentir, a ser emocionado, a pensar e a desfrutar cada momento desta belíssima obra. Essa situação é particularmente notória quando o cineasta desafia as nossas expectativas ao tirar o som à voz de Casey e deixa a sua resposta à mercê da nossa imaginação, num dos vários momentos em que a arquitectura local e os protagonistas são reunidos de forma harmoniosa.

A relação destes dois personagens é desenvolvida de maneira terna e extremamente humana, sendo pontuada por diálogos dotados de sensibilidade e capazes de prenderem por completo a nossa atenção. Veja-se o momento em que dialogam no interior de um carro, em mais um trecho extremamente bem arquitectado, com a dupla a encontrar-se inicialmente de costas, embora uma parte da face de Casey esteja visível a partir do retrovisor, algo que exacerba não só a sinceridade do olhar e das emoções expostas pela protagonista, mas também o prazer de Kogonada em criar quadros no interior do quadro. Observe-se ainda uma cena mais intima entre Jin e Eleanor (Parker Posey), uma amiga de longa data, com ambos a serem expostos através de um espelho, algo que potencia a exposição da multiplicidade de emoções que percorrem os dois personagens.

Eleanor é uma das várias personagens secundárias de relevo, bem como Gabriel e Maria, uma situação que contribui para os seus intérpretes sobressaírem. No entanto, os principais destaques são Richardson e Cho, com as inquietações, certezas, desejos e dúvidas dos seus personagens a pontuarem o enredo, enquanto a dupla deambula pelo território, seja durante o dia ou a noite, pronta a observar os edifícios, encontrar uma certa harmonia na confusão das suas vidas e dialogar. Essas conversas permitem expor o amor de Casey pela arquitectura, a proposta que tem para sair deste local e a forte ligação que tem com a mãe, bem como os problemas que Jin tinha com o pai e a incapacidade que estes personagens têm em libertar-se dos grilhões que os prendem ao passado, ao mesmo tempo que somos colocados perante os sentimentos fortes que se começam a formar entre ambos.

Em diversos momentos do filme, podemos observar Jin no interior do quarto da pousada em que o seu pai estava instalado, seja a observar as roupas do progenitor, ou a lidar de forma introspectiva com as situações incontroláveis que ocorreram consigo nos últimos tempos. Kogonada consegue transmitir a extensão destes momentos, enquanto exibe as características muito particulares deste cenário e permite que Cho expresse o desassossego de Jin e o afecto que começa a nutrir por Casey. Por sua vez, Richardson coloca em evidência o amor de Casey pela arquitectura, a necessidade que esta tem de falar e expor os seus sentimentos, a enorme afabilidade desta jovem e a sua personalidade encantadora. As forças e as fraquezas destes personagens ficam bem expressas ao longo do filme, com a sinceridade com que trocam diálogos ou expõem as emoções a elevar e muito esta obra onde Kogonada exibe uma enorme capacidade para transformar a simplicidade em algo de especial.

Kogonada recusa imensas vezes avançar pelos caminhos mais fáceis, algo notório na forma como evita exibir o pai do protagonista em coma, ou a maneira subtil como omite aquilo que aconteceu durante uma noite em que dois personagens dormem na mesma casa. Se a habitação de Casey é marcada por uma decoração simples que realça as finanças modestas da jovem e da sua progenitora, já o local em que Jin passa os seus dias é pontuado por características próximas de um museu, com os espaços interiores e exteriores dos cenários a contarem com uma influência notória no interior do enredo. A grandiosidade dos edifícios do território nunca deixa de ser realçada, embora esta se torne pequena diante dos sentimentos e das palavras trocadas pelos personagens principais desta obra cinematográfica filmada com aprumo e enorme sensibilidade.

Review overview

Summary

A grandiosidade dos edifícios do território nunca deixa de ser realçada, embora esta se torne pequena diante dos sentimentos e das palavras trocadas pelos personagens principais desta obra cinematográfica filmada com aprumo e enorme sensibilidade.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

Comentários

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