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Cold War – Guerra Fria

de Pawel Pawlikowski

excelente

É trágico quando duas pessoas se amam mas tardam em conseguir estar juntas. Se a vida não nos ensinou isso, François Truffaut já tratou de o fazer em obras como “Jules et Jim” e “La femme d’à côté” e Pawel Pawlikowski comprova com subtileza, perícia e classe em “Zimna wojna” (em Portugal: “Cold War – Guerra Fria”). Uma parte considerável dos ingredientes desta fita respeita os constantes avanços e recuos que marcam a relação da dupla de protagonistas. A câmara de filmar movimenta-se com graciosidade em busca dos sentimentos e dos corpos de onde estes fervilham. As elipses omitem informação, avançam o enredo e compelem-nos a imaginar o que terá acontecido aos personagens principais, sobretudo nos longos períodos em que se encontram separados, enquanto utilizamos as nossas experiências pessoais para ligar alguns pontos, uma situação que contribui para adensar um certo vínculo entre o espectador e os primeiros. Diga-se que para estes saltos temporais funcionarem e criarem no nosso âmago o desejo de especularmos o que terá acontecido nos tempos omitidos muito contribui a densidade dos protagonistas, as interpretações sublimes de Tomasz Kot e Joanna Kulig e a exposição eficaz do contexto histórico.

Pawel Pawlikowski volta a envolver-se pelo passado da sua Polónia, um pouco como em “Ida”, com os acontecimentos que decorrem entre o final da década de 40 e a primeira metade dos anos 60 a influenciarem as dinâmicas de Wiktor (Tomasz Kot) e Zula (Joanna Kulig), duas figuras com personalidades amplamente distintas. A história do amor impossível desta dupla é exposta em fragmentos que deambulam pelo tempo e pelos diversos territórios. Polónia, Alemanha, França e Jugoslávia são alguns dos países por onde circulam por um período de quinze anos. O enredo começa precisamente na Polónia, em 1947, quando encontramos Irena (Agata Kulesza) e Wiktor a gravarem músicas tradicionais junto da população rural polaca, tendo a companhia de Kaczmarek (Borys Szyc), o gerente administrativo da Mazurka. Estes pretendem reunir canções e danças típicas da Polónia e atribuir-lhes novos arranjos de forma a tornarem-nas mais apelativas para o público. Nesse sentido, decidem efectuar um concurso para encontrarem alguns elementos com potencial para integrar a banda. É neste concurso que Zula sobressai. Primeiro a cantar em dueto com uma colega. Posteriormente a solo, quando capta toda a atenção do olhar de Wiktor, com este a não esconder o forte efeito provocado pela jovem.

Com longos cabelos loiros, um olhar desafiador e uma franja que realça a personalidade da sua personagem, Joanna Kulig imprime uma postura ousada a Zula, uma mulher religiosa, pouco propensa a fugir do território da Polónia ou a desafiar o sistema político, que finge ser do campo para integrar a companhia e encontra-se em liberdade condicional. “Ele confundiu-me com a minha mãe e mostrei a diferença com uma faca” comenta junto de Wiktor, quando questionada sobre o que aconteceu com o progenitor. Tomasz Kot insere um estilo ponderado, culto e afável ao seu personagem, um indivíduo que raramente se consegue impor, que trabalha quer como pianista, quer como compositor e maestro. A relação destes dois personagens remete e muito para os romances intensos que pontuam algumas obras de François Truffaut, algo adensado pela química extremamente credível dos seus intérpretes. Atraem-se, magoam-se, aproximam-se, afastam-se. Unem-se a outras pessoas, mas tardam em esquecer o amor das suas vidas. Raramente têm capacidade para estar juntos, tal como não conseguem ficar separados. Como conviver numa relação assim? É deveras complicado, mas o amor nem sempre consegue ser explicado com racionalidade.

O ditado popular bem diz que os opostos se atraem. “Zimna wojna” expõe que esse adágio conta com uma ponta de verdade, embora o contrário também esteja certo. Zula traz ao de cima um lado distinto de Wiktor e algo que este parece apreciar. A cantora também sente algo de muito forte pelo pianista. O contexto histórico influencia os seus comportamentos e a sua ligação. Ela não tem pretensões de desafiar o sistema. Ele anseia por fugir de uma Polónia a lidar com as consequências do período posterior à 2ª Guerra Mundial e a instituição de um novo governo comunista por parte da União Soviética (que conduziria à formação da República Popular da Polónia). Liberdades são cortadas, o nacionalismo está na ordem do dia e o sentimento anti-Ocidente e anti-capitalista estão bem vivos, com companhias como a Mazurka a serem utilizadas ao serviço da propaganda. Note-se uma reunião entre Wiktor, Irena e Kaczmarek com o Ministro da Cultura, na qual este último exibe o desejo de integrar o grupo no seio estatal. O primeiro exibe a sua atitude comedida e silenciosa, a segunda o seu desagrado, enquanto o terceiro aproveita a ocasião para estabelecer uma relação de confiança com o ministro e envolver-se no meio político.

Este envolvimento da Mazurka na esfera comunista permite a Pawel Pawlikowski avançar pelo interior da política cultural polaca deste período, sobretudo pelo interesse do Governo em controlar a mesma e exacerbar uma identidade nacional, bem como efectuar um comentário, fortuito ou propositado, sobre os nacionalismos e os extremismos que emergem nos dias de hoje. A participação da companhia num espectáculo na Berlim Oriental leva o protagonista a traçar um plano tendo em vista a fugir para Paris. No entanto, a amada não exibe a mesma obstinação para escapar. Se ela vai ou não para a Cidade Luz não cabe a nós revelar. O que podemos mencionar é que o enredo deambula por diversos territórios ao longo de um período de quinze anos onde os acontecimentos históricos, as mudanças culturais e os gostos da época acompanham as peripécias vividas pela dupla de protagonistas. Note-se o caso da música, com o apreço do pianista pelo jazz a sublinhar o quanto este é fascinado por toda uma cultura que é proibida no seu país (o jazz tinha sido banido pelos Estalinistas). Na Polónia e em Berlim depara-se com espectáculos com iconografia associada a Estaline e à União Soviética. Em França encontra toda uma decoração e espaços que remetem para uma cultura a fervilhar, com o clube nocturno L’Eclipse a ser um exemplo disso.

Não falta fumo, luzes, música jazz e ritmos intensos ao L’Eclipse, um espaço de emoções vibrantes, onde a felicidade e a tristeza podem ter lugar. O trabalho a nível da decoração dos cenários e da selecção do guarda-roupa é exímio a transmitir o ambiente da época. Observe-se o caso citado do espaço nocturno, ou os espectáculos da companhia, ainda que Pawel Plawikowski e o seu director de fotografia optem em diversas ocasiões por desfocar aquilo que acontece em pano de fundo ou centrar a atenção nos protagonistas. Este desfocar deve-se ao facto da obra ter sido filmada com uma razão de aspecto de 1:1.33, um recurso que permite uma enorme aproximação entre o espectador e os personagens. Note-se quando o casal está deitado num espaço campestre, com os gestos, as expressões dos rostos e as emoções a tomarem conta do enredo, sobretudo a partir do momento em que a verdade sobre uma delação vem ao de cima. Temos ainda um passeio filmado em plano-sequência que simboliza paradigmaticamente a relação destas figuras. No plano mencionado, Zula e Wiktor caminham lado a lado. Ela beija-o no rosto. Ele efectua o mesmo gesto. A cantora sai do local. O pianista fica imóvel, até a amada recuar e voltar a aproximar-se. Ou seja, ficamos diante dos avanços e recuos que marcam as dinâmicas destes personagens.

No entanto, o recurso a uma razão de aspecto 1:1 33 não impede que a profundidade de campo seja utilizada com enorme acerto ao serviço do enredo. Veja-se quando encontramos os diversos candidatos a integrarem a companhia nas imediações do Palácio dos Latifundiários, enquanto em pano de fundo deparamo-nos com uma vaca a pastar, uma situação que reforça as características rurais do espaço que rodeia este lugar, ou os planos abertos que captam o enorme aparato dos espectáculos a partir da ocasião em que ganham um cunho propagandista. O contexto nunca é descurado, mas o cerne de “Zimna wojna” é a relação impossível da dupla de protagonistas. Regressemos a Truffaut, o nosso melhor exemplo quando se trata de relações trágicas, obsessivas ou simplesmente que parecem fadadas ao fracasso. As palavras de Odile Jouve (Véronique Silver) em “La femme d’à côté”, nomeadamente, “Creio que os corpos de Mathilde e Bernard não serão enterrados juntos. Se eu pudesse escolher um epitáfio para ambos, sei muito bem o que escreveria: ‘Nem contigo, nem sem ti'”, casam na perfeição com os personagens principais desta película. Ao longo de “Zimna wojna” somos colocados perante Wiktor e Zula a atraírem-se, a afastarem-se, a reaproximarem-se, a provocarem os sentimentos mais doces um no outro ou a trazerem uma amarga sensação de tristeza ao âmago de cada um. Muito é exposto sobre os mesmos. Imenso não é dito. Uma parte considerável pede o auxílio das nossas vivências pessoais e de como interpretamos a informação fornecida por Pawel Pawlikowski. Grande parte do que observamos e sentimos ao longo da visualização da obra fica na nossa mente.

Review overview

Summary

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4.5 10 excelente

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